Avanço da IA no Brasil traz desafios a empresas e no ensino

 

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O avanço da inteligência artificial (IA) no Brasil já se reflete tanto na produção científica quanto no setor produtivo, e também expõe desafios éticos e educacionais que ainda estão em aberto — questão que é um dos grandes pontos de partida da 32ª edição do Prêmio Jovem Cientista.

Na academia, o tema tem se tornado cada vez mais expressivo. Levantamento do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos, divulgado pela Embaixada dos Países Baixos em 2025, apontou que o país reúne ao menos 144 unidades de pesquisa dedicadas à IA, consolidando-se como um dos principais polos da área na América Latina. O Brasil ocupa a 15ª posição no ranking mundial de publicações acadêmicas entre 2000 e 2022.

A distribuição desses centros revela desigualdades regionais, mas também algumas surpresas. A maior concentração está no Sudeste e no Nordeste. São Paulo lidera com 41 unidades, mas é seguido pelo Amazonas, com 22 — um dado que chama atenção para o protagonismo da Região Norte em pesquisas específicas. Rio de Janeiro (14), Minas Gerais (13) e Pernambuco (10) são outros estados com peso relevante.

O estudo aponta ainda que os investimentos públicos em IA devem chegar a R$ 22 bilhões até 2028. O dado reforça o papel do Estado como indutor, mas também evidencia a crescente participação do setor privado: para cada R$ 1 investido pelo poder público, empresas aportam, em média, R$ 3,34.

Setor produtivo

No setor produtivo, a IA já deixou de ser tendência para se tornar ferramenta estratégica. Na Shell, patrocinadora do Prêmio Jovem Cientista, a tecnologia é aplicada em toda a cadeia energética — da exploração à relação com clientes. Entre os exemplos estão o uso de algoritmos para otimizar operações de gás natural liquefeito, reduzindo emissões, e sistemas de manutenção preditiva, que antecipam falhas e cortam custos.

A empresa utiliza ainda a IA na análise de dados sísmicos, acelerando a descoberta de petróleo e gás, e em soluções de mobilidade elétrica, com algoritmos que tornam o carregamento de veículos mais eficiente.

— A IA tem o potencial de acelerar não apenas a inovação tecnológica, mas a tomada de decisão e a gestão em larga escala de sistemas complexos como o de energia. O Brasil aparece no centro desse movimento. Em 2055, o país já terá atingido emissões zero e estará em outro momento, removendo dióxido de carbono da atmosfera — afirmou o conselheiro-chefe para Mudanças Climáticas da Shell, David Hone, durante o lançamento do novo estudo Cenários da Shell, no ano passado.

Para Vanessa Ronchi, coordenadora do prêmio na Fundação Roberto Marinho, o impacto da IA já é concreto no cotidiano da educação e do mercado:

— A IA potencializa estudantes, educadores e pesquisadores em seus processos de aprendizagem e na produção, mas traz desafios éticos, sociais, educacionais e econômicos que exigem reflexão. Ainda assim, esta combinação do conhecimento humano com as ferramentas das novas tecnologias é um caminho a ser percorrido nas diferentes áreas do conhecimento.

O cenário indica que a IA já atua como motor de inovação e competitividade, mas amplia a necessidade de regulação, formação qualificada e debate ético. Entre laboratórios, salas de aula e empresas, o desafio é equilibrar avanço tecnológico e uso responsável, de acordo com Cassiano D’Almeida, do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq),

— Trata-se de uma ferramenta poderosa, que em breve estará em todas as atividades digitais. Esperamos que o tema do prêmio contribua não só para o avanço da IA, mas também para a compreensão da sociedade sobre seu uso e implicações — pondera D’Almeida.

As inscrições para o Prêmio Jovem Cientista já estão abertas e poderão ser feitas até o dia 31 de julho no site jovemcientista.cnpq.br. A edição deste ano tem como tema “Inteligência artificial para o bem comum” e pretende estimular estudantes e pesquisadores brasileiros a desenvolver projetos que usem a tecnologia para enfrentar desafios sociais. O prêmio oferece laptops, bolsas de pesquisa e valores entre R$ 5 mil e R$ 40 mil,

O Prêmio Jovem Cientista é uma iniciativa do CNPq em parceria com a Fundação Roberto Marinho, com patrocínio da Shell e apoio de mídia da Editora Globo e do Canal Futura. Podem participar estudantes do ensino médio e da graduação, além de mestres e doutores.