Avanço autoritário atinge 72% da população do mundo, aponta Human Rights Watch

 

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Um relatório da Human Rights Watch divulgado nesta quarta-feira (4) aponta que 72% da população mundial vive sob avanço autoritário. O avanço é atribuído ao governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. A análise faz parte do relatório mundial de 2026 da organização, que detalha a situação dos direitos humanos em mais de 100 países.

Segundo a ONG, países como Rússia e China estão hoje menos livres do que há 20 anos. Para chegar a essa conclusão, a Human Rights Watch analisou diferentes documentos, entre eles um estudo feito no ano passado por pesquisadores da Universidade de Gotemburgo, na Suécia.

No capítulo dedicado ao Brasil, a organização afirma que o país deveria adotar novas estratégias para combater o crime organizado e a infiltração de facções criminosas no Estado. Uma das medidas propostas é a condução de investigações aprofundadas e baseadas na inteligência para identificar vínculos entre criminosos e o poder público. A avaliação é de que estratégias baseadas na força letal por parte de policiais têm falhado.

O diretor da Human Rights Watch no Brasil, César Munhoz, afirma que a atuação das forças policiais nas favelas acaba inibindo denúncias da população e reduzindo a colaboração com as autoridades.

“O que não funciona é entrar na favela atirando. Isso não desmantela grupos criminosos. Quando as pessoas têm medo da polícia, não vão colaborar na denúncia de crimes, não vão ter medo para ir na delegacia de dar o seu testemunho. E estratégias de segurança pública que promovem o confronto, ao final, colocam em risco os próprios policiais.”

O relatório também aponta que investigações sobre mortes causadas por policiais são frequentemente insuficientes e cita como exemplo uma megaoperação contra o crime organizado no Rio de Janeiro, em outubro do ano passado, que deixou 121 mortos.

Outro ponto sensível destacado no trecho sobre o Brasil é a violência contra a mulher. Durante o evento de apresentação do relatório, a diretora executiva do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Samira Bueno, afirmou que o enfrentamento desse tipo de crime depende de verba pública, hoje considerada insuficiente.

“Tem dez anos que a gente está falando de recordes de feminicídios, num crescimento, na prática, de todas as formas de violações de direitos humanos contra meninas e mulheres neste país. E eu acho que é importante que a gente olhe para esse cenário, lembrando que, se isso está acontecendo, isso é uma omissão do Estado, porque esse é um crime evitável. No período eleitoral, essa é uma bandeira que muitos políticos gostam de carregar, da defesa da vida das meninas e das mulheres, mas no momento em que tem o poder de caneta, que sentam na cadeira e tem a capacidade de fazer a diferença, o orçamento não chega.”

Entre os avanços citados no Brasil, César Munhoz destacou a queda de 11% no índice de desmatamento na Amazônia e no Cerrado no período de agosto de 2024 a julho de 2025, na comparação com o levantamento anterior do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, o INPE.

O diretor também considerou positiva a aprovação da proposta para adesão ao Acordo de Escazú, tratado internacional voltado ao fortalecimento dos direitos de acesso à informação, participação pública e justiça em questões ambientais na América Latina e no Caribe.