Autoridades investigam ataque contra deputada democrata em Minneapolis em meio à escalada de tensões na cidade
O homem que borrifou uma substância desconhecida contra a deputada democrata Ilhan Omar durante uma reunião pública em Minneapolis foi preso, e autoridades locais e federais iniciaram as investigações sobre o caso. O ataque, feito na noite de terça-feira, ocorreu em meio à escalada de tensões na cidade em torno da repressão federal à imigração, intensificada depois que agentes mataram a tiros, neste mês, dois cidadãos americanos que protestavam contra o Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (ICE).
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O agressor foi imobilizado por seguranças e derrubado no chão logo após o ataque. A plateia aplaudiu enquanto ele era contido, com os braços presos para trás. Em vídeos que circulam do momento, é possível alguém na multidão dizer: “Meu Deus, ele borrifou alguma coisa nela”. Ainda não se sabe qual substância foi usada. Cientistas forenses da cidade foram acionados para analisar o local, de acordo com um relatório policial.
Pouco antes do ataque, Omar havia defendido a extinção do ICE e pedido a renúncia — ou o impeachment — da secretária de Segurança Interna, Kristi Noem. Após as mortes de Alex Pretti e Renee Good por agentes do órgão em Minneapolis, crescem no Capitólio os apelos para que Noem deixe o cargo. Ela foi rápida em defender os oficiais envolvidos nos casos, mesmo antes de investigações formais sobre o caso serem iniciadas. Diante da repercussão, poucos republicanos a apoiaram.
— Os habitantes de Minnesota estão aparecendo uns pelos outros de maneiras que as pessoas não esperavam. Estamos mostrando ao país e ao mundo o que é verdadeira solidariedade. E deveríamos estar orgulhosos — disse Omar, direcionando sua crítica ao órgão federal de imigração segundos antes de ser atingida: — O ICE não pode ser reformado.
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O homem acusado de atacar Omar foi identificado como Anthony J. Kazmierczak, de 55 anos. Ele foi acusado de agressão em terceiro grau e encaminhado à Cadeia do Condado de Hennepin. Registros judiciais de Minnesota não indicavam, até o momento, informações sobre denúncia formal ou se há um advogado de defesa para Kazmierczak. Ele tem histórico de compartilhar postagens políticas nas redes sociais e, em 2021, publicou uma charge criticando a posição de Omar sobre gastos com segurança em meio a apelos pelo corte de verbas da polícia.
A Polícia do Capitólio dos EUA afirmou, em nota, que o incidente foi “uma decisão inaceitável que será enfrentada com justiça rápida” e disse estar trabalhando “para garantir que esse homem enfrente as acusações mais graves possíveis”. Segundo jornalistas da Associated Press que presenciou o ocorrido, havia um cheiro forte, semelhante a vinagre, após o agressor pressionar uma seringa com o líquido. Fotos do dispositivo mostram o que parecia ser um líquido marrom-claro em seu interior.
Reação bipartidária
Omar ignorou os apelos de assessores para encerrar mais cedo a reunião e buscar atendimento médico após o ataque, e continuou a discursar por cerca de 25 minutos. Ela, que não ficou ferida, disse que já “sobreviveu à guerra” e que “definitivamente vai sobreviver à intimidação”. Aos 43 anos, a democrata deixou a Somália ainda criança, quando uma guerra civil devastou o país. Ela tornou-se cidadã americana em 2000.
Na noite de terça-feira, o presidente dos EUA, Donald Trump, descartou perguntas da ABC News sobre se havia visto o vídeo do ataque a Omar, dizendo não ter interesse em assistir às imagens. Trump disse achar que a deputada é “uma fraude” e que não pensa nela. Ele ainda afirmou, sem provas, que ela “provavelmente mandou borrifarem nela mesma”. Pressionado novamente sobre o vídeo, o republicano disse:
— Não vi. Espero não ter de me incomodar.
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Autoridades de diferentes espectros políticos, porém, condenaram o ataque. O governador de Minnesota, o democrata Tim Walz, disse estar grato por Omar estar em segurança e escreveu no X: “Nosso estado foi abalado pela violência política no último ano. A retórica cruel, inflamatória e desumanizante de nossos líderes nacionais precisa parar imediatamente”. Já o prefeito de Minneapolis, Jacob Frey, democrata, classificou o episódio como “inaceitável”, disse estar aliviado por Omar “estar bem” e agradeceu à polícia pela resposta rápida.
Alguns parlamentares republicanos também condenaram a violência política. O deputado Mike Lawler definiu o episódio como “inaceitável”, e o deputado Mark Alford condenou a agressão “nos termos mais fortes possíveis”. A deputada Nancy Mace disse estar “muito abalada” com o ocorrido, acrescentando: “Independentemente de quão veementemente eu discorde de sua retórica — e discordo —, nenhum ocupante de cargo eletivo deveria enfrentar ataques físicos”.
A vereadora de Minneapolis LaTrisha Vetaw afirmou que parte da substância também entrou em contato com ela e com o senador estadual Bobby Joe Champion, classificando o episódio como “profundamente perturbador”. Ninguém entre as cerca de 100 pessoas presentes na reunião pública apresentou reação física perceptível depois do ataque.
Alvo de ataques
Eleita pela primeira vez para o Legislativo estadual em 2016, Omar tornou-se uma das primeiras mulheres muçulmanas eleitas para o Congresso em 2018, ao conquistar uma cadeira na Câmara. Há anos alvo de republicanos, Omar agora é objeto de investigações pelo Departamento de Justiça do governo Trump e pela Comissão de Supervisão da Câmara dos Representantes por suas finanças.
Omar tem sido alvo frequente de ataques políticos e, em alguns momentos, de ataques racistas por parte de republicanos. Também enfrentou críticas de alguns democratas por suas posições sobre Israel — especialmente em 2021, quando pareceu equiparar “atrocidades” cometidas pelos EUA e por Israel às do Hamas e do Talibã, ao defender nas redes sociais “o mesmo nível de responsabilização e justiça para todas as vítimas de crimes contra a humanidade”.
A deputada Ilhan Omar deixa reunião pública após homem avançar ao púlpito e borrifá-la com líquido de cheiro forte, em Minneapolis
Victor J. Blue/The New York Times
Em 2023, a Câmara, então controlada por republicanos, votou pela retirada de Omar da Comissão de Relações Exteriores. Em 2025, uma tentativa de censurá-la e removê-la de duas comissões por comentários sobre o comentarista político conservador e ativista Charlie Kirk, após seu assassinato, fracassou por apenas um voto, depois que quatro republicanos se juntaram a todos os democratas para rejeitar a iniciativa.
As finanças pessoais de Omar passaram a ser alvo de escrutínio depois que sua declaração financeira apresentada no ano passado mostrou que seu marido possui participações em uma empresa de capital de risco e em uma vinícola avaliadas entre US$ 6 milhões e US$ 30 milhões. Em 2024, durante a presidência de Joe Biden, o Departamento de Justiça abriu uma investigação sobre as finanças de Omar, mas a apuração foi paralisada por falta de provas.
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Na segunda-feira Trump disse que o Departamento de Justiça está investigando Omar, afirmando na rede Truth Social que ela “saiu da Somália com NADA e agora, segundo relatos, vale mais de 44 milhões de dólares”. Paralelamente, a Comissão de Supervisão da Câmara iniciou uma investigação sobre as finanças de Omar e de seu marido como parte de uma apuração mais ampla. Republicanos no Capitólio investigam se as finanças do marido de Omar estão ligadas a denúncias de fraude em creches administradas por somalis no estado.
A deputada não abordou diretamente o escrutínio sobre suas finanças na reunião. No X, porém, ela respondeu às declarações do presidente: “Desculpa, Trump, seu apoio está desmoronando e você está em pânico Como sempre, você está desviando a atenção de seus fracassos com mentiras e teorias da conspiração sobre mim. Anos de ‘investigações’ não encontraram nada”, escreveu. “Tire seus capangas de Minnesota.”
Violência política
De acordo com a Polícia do Capitólio dos EUA, as ameaças contra membros do Congresso aumentaram nos últimos anos, atingindo um pico em 2021 após o ataque de 6 de janeiro ao Capitólio. O ataque a Omar ocorreu poucos dias depois da prisão de um homem em Utah acusado de agredir o deputado Maxwell Frost, democrata da Flórida, durante o Festival de Cinema de Sundance, dizendo que Trump iria deportá-lo.
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A Polícia do Capitólio também divulgou dados atualizados: em 2025, foram registrados 14.938 casos de “declarações, comportamentos e comunicações preocupantes direcionados contra parlamentares, suas famílias, assessores e o Complexo do Capitólio”. Em 2024, haviam sido 9.474 ocorrências. É o terceiro ano consecutivo de aumento.
Desde 6 de janeiro de 2021, a Polícia do Capitólio reforçou as medidas de segurança em todas as frentes, e o departamento registrou aumento nas denúncias após a criação, há dois anos, de um novo centro para processar relatos de ameaças. (Com New York Times)
