Autoridades exumam corpo de preso político cuja morte foi reconhecida oficialmente nove meses depois na Venezuela
As autoridades venezuelanas exumaram nesta sexta-feira o corpo de Víctor Hugo Quero Navas, preso político cuja morte ocorreu em julho de 2025, mas só foi oficialmente reconhecida pelo Estado nesta quinta-feira — um intervalo de nove meses que provocou forte reação da sociedade civil, de organizações de direitos humanos e da oposição.
Familiares de Quero Navas denunciaram durante meses seu "desaparecimento forçado" e afirmam tê-lo procurado por 16 meses sem qualquer resposta oficial. Acusado de supostos atos de "terrorismo", ele se somou a centenas de presos políticos detidos no país sob acusações semelhantes.
Segundo as autoridades, Quero Navas foi preso em janeiro de 2025. Desde então, sua mãe, Carmen Teresa Navas, de 81 anos, iniciou uma busca incansável pelo filho — sem jamais conseguir visitá-lo ou obter informações concretas sobre seu paradeiro.
Após a exumação, Carmen conseguiu reconhecer o corpo e providenciar um novo enterro em outro cemitério. Dois padres acompanharam o procedimento, registrado pela jornalista venezuelana Maryorin Méndez, colaboradora da AFP, que documentou o desaparecimento de Quero ao longo de meses.
Peritos forenses exumam o corpo do preso político Víctor Quero Navas no cemitério Parque Jardín La Puerta, em Caracas, em 8 de maio de 2026
AFP
Caso expõe ferida aberta
Segundo a ONG Foro Penal, 19 presos políticos morreram sob custódia do Estado venezuelano desde 2014. A organização calcula em 454 o número de pessoas presas por razões políticas na Venezuela até o fim de abril.
O caso de Quero, porém, marca um precedente grave: é a primeira vez que as autoridades reconhecem oficialmente a morte de um preso político denunciado como desaparecido meses após sua detenção e falecimento.
Na quinta-feira, Carmen foi informada pelo Ministério dos Serviços Penitenciários sobre a morte do filho. Em seguida, foi levada por funcionários ao cemitério onde o corpo havia sido enterrado e, diante da revelação, pediu a realização de um teste de DNA para confirmar a identidade.
A exumação, determinada pela Promotoria, ocorreu nesta sexta-feira na presença da mãe. A polícia bloqueou o acesso do público ao cemitério Parque Memorial Jardín La Puerta, nos arredores de Caracas, onde estavam os restos mortais.
"É preciso determinar quando ele morreu e em que condições", afirmou à AFP, do lado de fora do cemitério, Lilia Navas, tia de Víctor Quero.
"É preciso fazer justiça (...) Para limpar o nome do rapaz, sobre quem jogaram não sei quantos crimes, como fizeram com tantos outros", acrescentou.
Pressão por respostas
O Ministério dos Serviços Penitenciários informou que Quero Navas morreu aos 51 anos "por insuficiência respiratória", após ser transferido ao Hospital Militar, em Caracas, "depois de apresentar hemorragia digestiva alta e síndrome febril aguda".
A versão oficial, no entanto, não encerrou as dúvidas — ao contrário, ampliou a cobrança por esclarecimentos.
Ativistas afirmam que cerca de 200 pessoas seguem em situação de desaparecimento forçado na Venezuela.
"Não pode se normalizar que uma mãe busque durante meses informações sobre seu filho sem receber resposta das autoridades correspondentes", protestou a ONG de direitos humanos Cofavic em comunicado.
O caso se soma ao debate sobre a situação dos presos políticos no país, em meio à libertação de detentos após a lei de anistia impulsionada pela presidente interina Delcy Rodríguez depois da captura de Nicolás Maduro, em janeiro, por forças americanas.
