Autoridades divergem sobre motivo de fechamento de espaço aéreo no Texas, e governo Trump cita drones de cartéis mexicanos

 

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O fechamento temporário do Aeroporto Internacional de El Paso, no Texas, foi atribuído a diferentes explicações por autoridades federais, em meio a relatos sobre drones na região de fronteira com o México. A restrição ao espaço aéreo, que chegou a ser anunciada por dez dias, foi revertida poucas horas depois pela Administração Federal de Aviação (FAA, na sigla em inglês).

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Inicialmente, a FAA informou que a suspensão dos voos ocorria por “razões especiais de segurança”. Horas depois, no entanto, o secretário de Transportes, Sean Duffy, assim como autoridades da Casa Branca e do Pentágono, afirmaram que a medida foi tomada após drones de cartéis mexicanos violarem o espaço aéreo local. Outros funcionários familiarizados com o assunto, por sua vez, disseram à Bloomberg que a decisão ocorreu em resposta a drones que o próprio Departamento de Defesa americano estaria operando na área.

Duas pessoas informadas sobre o assunto por autoridades do governo Trump disseram ao New York Times que a decisão da FAA foi motivada pelo uso, pelo Departamento de Defesa, de uma nova tecnologia antidrones e por preocupações com os riscos que ela poderia representar para outras aeronaves na área. Segundo uma das fontes, os drones estariam operando fora das rotas de voo habituais, e a FAA não conseguia prever onde elas poderiam estar voando.

Mais tarde, tanto a Administração Federal de Aviação quanto o Departamento de Defesa determinaram que não havia ameaça às viagens comerciais e suspenderam o fechamento temporário do aeroporto.

Relatos divergentes

Em meio aos relatos divergentes, a presidente do México, Claudia Sheinbaum, disse que seu governo vai apurar “as causas exatas do motivo pelo qual” o espaço aéreo do Texas foi fechado. Questionada sobre a explicação apresentada por autoridades dos EUA, ela disse que não havia informação sobre o uso de drones na fronteira, acrescentando que, caso membros do governo americano tenham mais dados, devem entrar em contato com a administração mexicana.

— Não há necessidade de especulação. Vamos obter informações e, como sempre, manter nossa comunicação permanente [com os EUA] — declarou durante sua entrevista coletiva matinal.

A presidente do México, Claudia Sheinbaum, fala em coletiva no Palácio Nacional, na Cidade do México, em 11 de fevereiro de 2026; governo diz não ter relatos de drones criminosos na fronteira com os EUA

Alfredo Estrella/AFP

A deputada Veronica Escobar, democrata que representa El Paso, contestou a explicação sobre drones apresentada por autoridades do governo Trump. Em entrevista coletiva, ela afirmou que há incursões de drones vindos do México “desde que drones passaram a existir”, ressaltando que a situação não é novidade. Ela também disse não ter tido conhecimento de “nada extraordinário” em qualquer incursão de drones recentemente, e que a explicação sobre os supostos equipamentos de cartéis não é a informação que foi recebida pelo Congresso.

— Acredito que a FAA deve à comunidade e ao país uma explicação sobre por que isso aconteceu e por que foi suspenso de forma tão súbita e abrupta — disse, acrescentando: — Não há ameaça. Não houve ameaça, e é por isso que a FAA suspendeu essa restrição tão rapidamente. As informações que vêm do governo federal não fazem sentido.

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Renard Johnson, prefeito de El Paso, afirmou que muitas autoridades locais permaneceram sem saber por que a Administração Federal de Aviação tomou uma medida tão drástica. Segundo ele, o fechamento do espaço aéreo provocou uma série de situações caóticas na cidade. Voos de evacuação médica, por exemplo, foram obrigados a desviar para Las Cruces, no Novo México, a cerca de 72 quilômetros a noroeste de El Paso.

— Nossa comunidade ficou assustada, porque alguém decidiu fechar nosso espaço aéreo. Isso simplesmente não pode ser feito — disse. — Quero deixar muito, muito claro que isso nunca deveria ter acontecido. Não se pode restringir o espaço aéreo sobre uma grande cidade sem coordenação com a prefeitura, o aeroporto, os hospitais e a liderança comunitária. Essa falha de comunicação é inaceitável.

Apesar da falta de confirmação oficial, os cartéis mexicanos há muito utilizam drones para traficar drogas, controlar a travessia de migrantes ao longo da fronteira e travar guerras contra cartéis rivais e autoridades, publicou a Associated Press. O México emitiu seu primeiro alerta internacional sobre o uso de aeronaves controladas remotamente em 2010 e, desde então, a prática continuou a se expandir.

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Muitas vezes adaptados a partir de drones comerciais, os aparelhos oferecem aos cartéis a vantagem de realizar suas atividades ilegais de forma discreta, sem arriscar a própria vida como faziam no passado. Entre 2012 e 2014, autoridades dos EUA detectaram 150 aeronaves controladas remotamente cruzando a fronteira com o México.

Uma década depois, em 2022, a Alfândega e Proteção de Fronteiras dos Estados Unidos detectou 10 mil incursões de drones apenas na região do Vale do Rio Grande, segundo um relatório de 2025 citado pela AP. O mesmo documento indicou que, mais recentemente, os cartéis mexicanos parecem inclinados a contrabandear fentanil por meio de drones, que podem transportar até 100 quilos de carga.

Entenda o caso

A FAA reabriu o espaço aéreo ao redor do Aeroporto Internacional de El Paso na manhã desta quarta-feira, poucas horas depois de anunciar um fechamento de 10 dias que teria paralisado todos os voos de e para o aeroporto, incluindo operações comerciais, de carga e da aviação geral. A agência também proibiu todas as operações aéreas na área de Santa Teresa, no Novo México, citando as mesmas razões de segurança.

Segundo comunicado do operador do Aeroporto Internacional de El Paso em suas contas oficiais no Facebook e no Instagram, as operações foram interrompidas às 23h30 (horário local) de 10 de fevereiro e seguiriam suspensas até o mesmo horário em 20 de fevereiro. A orientação foi para que os viajantes entrassem em contato com suas companhias aéreas para obter as informações mais recentes sobre seus voos.

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O aeroporto de El Paso, a 23ª cidade mais populosa do país segundo o censo de 2020, atende uma vasta região do oeste do Texas e do leste do Novo México. De acordo com relatório mensal de atividade divulgado pelo aeroporto, cerca de 3,5 milhões de passageiros passaram pelo terminal até novembro de 2025, que oferece voos diretos para grandes centros como Los Angeles, Denver, Houston e Atlanta.

Entre as companhias que operam no local estão Delta Air Lines, United Airlines e American Airlines. A cidade americana mais próxima é Las Cruces, no Novo México, a cerca de 56 quilômetros de distância, cujo aeroporto é atendido apenas pela companhia Advanced Air. El Paso fica a cerca de 4 horas e meia de carro de Midland-Odessa, no Texas, a sete horas de San Antonio, a nove horas de Dallas e a 10 horas de Houston.

(Com AFP, Bloomberg e New York Times)