Autora do sucesso D.P.A, Flávia Lins e Silva celebra filme em defesa da Amazônia: 'É o lugar mais importante do mundo'
Nem uma árvore a menos”. A voz de Pilar, ao protestar contra a poda na pracinha que frequenta, ecoa pela cidade. Ao ganhar uma rede de descanso do avô, a menina de 10 anos é teletransportada para a Amazônia, onde vive as maiores aventuras ao combater o desmatamento, no filme “O diário de Pilar na Amazônia”, em cartaz nos cinemas, com Nanda Costa, Marcelo Adnet, Roberto Bomtempo e a atriz mirim Lina Flor no elenco. A obra, que já alcançou 100 mil espectadores, é uma adaptação da série de livros da personagem, que nasceu há 25 anos pelas mãos da carioca Flávia Lins e Silva, de 54. “A região amazônica é o lugar mais importante do mundo. Meu desejo é que ajudem a protegê-la. Temos que conhecê-la de perto, reagir, replantar, reflorestar”, diz. “O meu sonho é que a (Ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima) Marina Silva assista ao filme.”
Cena de 'O diário de Pilar na Amazônia'
Lais Teixeira/Divulgação
Consagrada no universo infantojuvenil, Flávia também é autora da série literária “Os Detetives do Prédio Azul”, adaptada para a TV na estreia do canal Gloob, em 2012. A história, com mais de 20 temporadas, está nas telonas com o quarto filme da franquia, “D.P.A 4 — O fantástico reino de Ondion”. “São mais de 500 casos de detetives em um único prédio. Quis que as crianças ficassem atentas às pistas, percebessem o que é dito e o não dito. O que torna essas obras tão longevas é que, quando escrevo para as crianças, estou realmente interessada”, avalia. Parceiro de Flávia há mais de 30 anos, o diretor de “O diário de Pilar na Amazônia”, Duda Vaisman, ressalta a aliança profissional e pessoal. “Ela é madrinha do meu filho de 25 anos, que gosta de escrever roteiros por causa dela. Flávia participou de todas as etapas do filme. Temos uma relação de respeito, admiração, carinho e troca.” No papel de Isabel, a mãe de Pilar, Nanda Costa diz que o longa foi uma oportunidade para que as filhas gêmeas, Tiê e Kim, de 4 anos, conhecessem melhor o seu trabalho: “A Pilar é tão sonhadora que é capaz de mudar o mundo. Isso é revolucionário”.
Nathalia Costa, Stéfano Agostini e Samuel Minervino em "Detetives do Prédio Azul", do Gloob
Guto Costa/Divulgação Gloob
A carreira da escritora começou no jornalismo. Em 1995, participou da oficina de roteiristas da Globo, e no ano seguinte, integrou a equipe da série infantil “Caça talentos”. Tem seus créditos também em “O Sítio do Pica-Pau Amarelo” (2001) e nas fichas técnicas das novelas “Laços de família” (2000) e “Agora é que são elas” (2003) e do seriado “Mulher” (1998).
Neta do ex-ministro e jurista Evandro Lins e Silva (1912-2002), famoso pela atuação e defesa de Doca Street (1934-2020) e que utilizou a tese da “legítima defesa da honra” no caso da socialite Ângela Diniz (1944-1976), Flávia produziu o documentário “O vício da liberdade” (2002), sobre a vida do avô. “Reduzir sua história ao caso Doca é lastimável. Ele foi um dos maiores defensores das penas alternativas no Brasil, um grande humanista. Dizia que a prisão não melhorava ninguém”, recorda-se.
A escritora Flávia Lins e Silva na livraria Argumento, no Leblon
Ana Branco
O espírito aventureiro também faz parte da bagagem de inspirações. Aos 16, fez intercâmbio no Wisconsin, nos Estados Unidos. Aos 18, viajou para Hamburgo, na Alemanha, e para Milão, na Itália, onde trabalhou como babá. “Tinha curiosidade em saber como era a vida nesses países, o que se comia no café da manhã, o que se lia, como eram as histórias infantis. O diferente é fascinante”, pontua. Em meio a viagens, conheceu uma de suas amigas de longa data, a escritora Roseana Murray. “É uma pessoa maravilhosa, sou fã. Ela escreve magnificamente bem e fico feliz por sua obra estar no audiovisual”, elogia Roseana.
Após uma temporada em Portugal, para onde se mudou em 2016, Flávia voltou ao Rio em dezembro do ano passado com a filha, Paloma, de 8, para dar “um pouco de brasilidade” à pequena. “Morei em Lisboa e em Cascais, e foi ótimo. Paloma teve uma infância muito calminha. Quero que ela conheça o carnaval, que desbrave o Brasil”, avisa.
Na rotina da menina, os livros estão presentes todas as noites. “A leitura é sagrada. Se Paloma quiser mais tempo de tablet, tem que ler mais”, diz Flávia. Para ela, o excesso de telas fragmenta o pensamento. “As crianças estão se concentrando menos. Os vídeos curtos não trazem conteúdos interessantes. Mas é uma construção dos pais e da escola: ainda há espaço para a leitura”, decreta. Entre as novidades de Flávia estão o lançamento de mais três livros — “Maya e a turma da Terra”, “Dira, a aprendiz de xamanismo”, e “Bruxa Loreta contra os mares do planeta” — além da participação na Bienal do Livro de São Paulo, em setembro. “Quando você lê, desenvolve a imaginação. Quem não o faz, só copia o que já existe”, finaliza.
