Autora do livro 'Rivalidade ardente', que inspirou série da HBO, conta detalhes sobre grupo de mensagens com os atores
Nos últimos meses, tem sido num grupo privado de mensagens do Instagram que os atores Hudson Williams e Connor Storrie e a escritora Rachel Reid têm buscado refúgio, trocado ideias e lidado com todo o fervor em torno da adaptação para o streaming do livro “Rivalidade ardente” (“Heated rivalry”, em inglês), recém-lançado no Brasil pelo selo Alt, da Globo Livros. A tradução é de Carlos César da Silva.
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—Esta experiência tem sido muito única para nós, e sou grata por ter os dois para conversar às vezes — disse Rachel, em entrevista ao GLOBO por chamada de vídeo, diretamente de sua casa em Halifax, no Canadá.
A série, que estreia por aqui na sexta-feira na HBO Max, leva para as telas os heróis das páginas de Rachel: dois jogadores de hóquei no gelo, o canadense Shane Hollander (interpretado por Williams, também do Canadá) e o russo Ilya Rozanov (Storrie é americano do Texas e precisou fazer aulas de russo para emular o sotaque). A propósito: o tal grupo de mensagens foi batizado por Storrie de “Shilya and the creator”, uma junção dos nomes dos personagens e “a criadora”.
'Rivalidade ardente', da Alt
Divulgação
No romance, os dois atletas — estrelas de times rivais — são jovens, bonitos, sarados, competitivos e milionários. No ringue, eles se odeiam. Fora dele, se desejam ardentemente e protagonizam transas tórridas, que Rachel descreve com detalhes no livro. A série, do diretor canadense Jacob Tierney, é um pouco mais econômica nas cenas mais quentes, mas, ainda assim...
—É algo que nunca vi na televisão antes, pelo menos não aqui na América do Norte — disse a autora, também consultora da produção, com a função de ler roteiros e ficar a par das decisões. —Muitas daquelas cenas são bem corajosas. Fiquei impressionada.
Machismo no esporte
Rachel Reid, autora de 'Rivalidade ardente'
Caleb Latreille/Divulgação
A repercussão da história de amor de dois jogadores de hóquei e seus desdobramentos tem sido grande. A revista The New Yorker, por exemplo, chamou a série de fenômeno cultural sem precedentes (“Não consigo lembrar da última vez que vi algo assim atingir a cultura com tanta força”, comentou a crítica Naomi Fry no podcast da publicação, chamado “Critics at large”). O sucesso levou o livro impresso, combinado com o e-book, a figurar no topo da lista dos mais vendidos do New York Times. Por aqui, a Alt precisou “ajustar a tiragem cinco vezes ao longo do processo para dar conta do crescimento do burburinho”, diz a editora Paula Drummond.
—Fui fã de hóquei a minha vida toda, tinha muitos pensamentos sobre a cultura do esporte e tive a ideia de escrever uma história sobre um jogador da NHL (a liga esportiva) que fosse o primeiro a sair do armário por amor — disse Rachel.
Ela se refere ao livro de estreia da saga esportiva LGBTQIAP+ ambientada em rinques de hóquei, “Game changers”, lançado em 2018. “Rivalidade ardente” é, na verdade, o segundo, de 2019, de um total de seis, todos com a mesma intenção: “quero discutir a cultura tóxica e a homofobia do esporte”, diz a autora, ressaltando que ainda tem muito a abordar. Tanto que anunciou, há algumas semanas, o sétimo livro, ainda sem data de lançamento (veja quadro na página 2):
—Se soubesse que tanta coisa aconteceria com a série, teria escolhido um momento diferente para escrever. Há tanta expectativa agora... Sabia que as pessoas iam querer me dar ideias para o livro assim que soubessem dele. Há tantos fãs a mais, o que é ótimo, mas também pode ser um pouco intimidante ou estressante.
Os principais fãs de Shane e Ilya, desde os primórdios, ela diz, sempre foram mulheres. Por isso, não é surpresa alguma que o público feminino domine também no streaming. Segundo dados obtidos pelo New York Times com a HBO, ao fim da temporada nos Estados Unidos, 66% da audiência era feminina. O ator Connor Storrie chegou a teorizar, em entrevista ao portal Them, que o fato de a história não estar ancorada apenas no sexo, mas “nos momentos intermediários onde se vê o desejo e a atração por meio da vulnerabilidade e conexão”, seja algo que interessa tanto aos olhares femininos.
—São as mulheres que leem, em grande parte, ficção e também romance — diz Rachel, percebendo agora um maior interesse dos homens nos seus escritos. — Como muito dessa literatura não costuma aparecer tanto em versão impressa (mas em e-books e espalhadas pela internet), eles simplesmente não sabiam que existiam. Espero que agora haja mais obras nas livrarias sobre dois homens se apaixonando.
Sobre determinadas críticas de que o sexo retratado em “Rivalidade ardente”, especialmente na TV, é pouco realista, a escritora tem a resposta:
—Não sei se a experiência de uma pessoa é a de todo mundo. Mas temos que ter em mente de esta é uma série baseada em um romance e, nesse tipo de livro, o sexo talvez não seja 100% realista. Mesmo em cenas entre homens e mulheres, nessas obras, há um pouco de fantasia. Certamente, eu as escrevo com cuidado. Busco usar muito a ideia de consentimento e de “checar como o outro está”.
Rachel Reid é o pseudônimo de Rachelle Goguen, canadense de 46 anos, casada e mãe de dois filhos, que cursou Relações Internacionais na universidade. Lá, estudou bastante sobre União Soviética, mesclando o assunto com o amor pelo hóquei. Ao mesmo tempo, devorava a biografia de jogadores daquele país que emigravam escondidos para o Canadá.
As sementes das histórias de Ilya Rozanov, um jovem de Moscou que chega à América do Norte sob uma carcaça que esconde traumas familiares, de alguma forma, traz esse conhecimento sociocultural prévio e vêm ressoando entre a audiência russa. Embora a temática do livro e da série seja legalmente proibida por lá, por causa da repressão estatal anti-LGBT, a pirataria tem dado um jeito de burlar o sistema.
— Estava lendo sobre como (consumir “Rivalidade ardente”) tem sido um verdadeiro ato de rebeldia, realmente importante para as pessoas LGBTQIAP+ na Rússia, que, obviamente, vivem com muito medo e não podem ser elas mesmas.
Conto de fadas real
Desde que começou a escrever sobre o universo queer, Rachel tem sido fortemente cobrada por dar detalhes sobre sua orientação sexual. Hudson Williams e Connor Storrie, os atores novatos que, até antes de estrelarem a série, faziam bicos como garçons, também têm sido cobrados para responder todo tipo de pergunta. Especialmente se são gays ou bissexuais como seus personagens.
—Não acho que seja importante para nenhum de nós (três) falar sobre isso. Temos o direito de manter nossas vidas privadas. Tenho filhos com idade suficiente para ler sobre si mesmos ou sobre mim na internet, e preciso manter minha vida pessoal.
Mas a autora fala abertamente sobre o diagnóstico de doença de Parkinson, recebido em 2023, quatro dias antes de receber uma mensagem de Jacob Tierney sobre a adaptação de “Rivalidade ardente”. A proposta veio de um canal de streaming canadense, o Crave, que depois licenciou os direitos para a HBO fora do Canadá.
No total, a série tem seis episódios, com cerca de 40 minutos de duração cada um. Nos EUA, no Canadá e na Europa, todos eles já foram exibidos. Aqui, a HBO seguirá a estratégia adotada no exterior, com um novo capítulo a cada semana, às sextas-feiras. A segunda temporada já foi confirmada (ainda sem detalhes sobre datas e enredo).
— Todos os meus sonhos estão se realizando de uma vez — disse ela, sobre o momento atual e o fato de que muitas das cenas que escreveu terem sido filmadas exatamente como imaginou quando as colocava no papel.
O final do terceiro episódio (ao qual o GLOBO teve acesso antecipado e não vai descrever aqui para evitar spoilers) foi especialmente emocionante para Rachel.
— Era uma cena que, quando escrevi, pensei: “Não seria incrível se isso fosse filmado algum dia?” Vê-la sendo feita, e de forma tão bonita, me deixou muito feliz.
