Autor do mural 'Etnias", cartão-postal na Região Portuária carioca, planeja restaurar a obra dez anos depois

 

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Os cinco rostos pintados na parede do velho armazém na Zona Portuária do Rio ainda estão por lá. Os semblantes, sérios e ao mesmo tempo serenos, ainda capturam com facilidade a atenção de quem passa. Até os detalhes dos adornos nos cabelos continuam bem visíveis. Já as cores vibrantes sumiram com o tempo. E isso não é pouca coisa. A coloração forte dava vida extra aos personagens retratados, além de ser uma presença marcante em quase toda a obra do seu autor, o muralista Eduardo Kobra.

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Quem chega ao local hoje tendo a imagem original na cabeça pode se decepcionar com o mural pálido que vai encontrar. Afinal, são quase dez anos debaixo de sol, chuva, vento e bem de frente para a maresia que emana da Baía de Guanabara. Inaugurado em julho de 2016, “Etnias — Todos somos um”, marco do Boulevard Olímpico carioca, segue atraindo os olhares e a curiosidade de muitos visitantes. Mas está na cara que precisa de um bom banho de tinta.

Prefeitura não tem projeto

A avaliação é do próprio Kobra. A convite do GLOBO, o artista visitou a obra na tarde da última quinta-feira antes de retomar o trabalho de um novo mural com sua assinatura na cidade, desta vez na Biblioteca Parque Estadual, no Centro. A nova pintura será inaugurada amanhã. A primeira reação do artista ao chegar ao local foi passar a mão pela parede, olhar de perto, olhar de longe. Observar com calma a

própria criação, que há tempos não visitava, e seu entorno. Atento aos detalhes, se encantou com a presença de um passarinho e seu ninho em um vão entre tijolos meio quebrados e notou o desenvolvimento das árvores ao redor:

—Faz um tempinho que eu não passo aqui, viu? Da última vez essas árvores não cobriam o rosto inteiro do indígena. Não me incomoda, pelo contrário. Eu acho que combina, ficou bonito. Tem tudo a ver com a proposta do mural. As árvores estão lindas. É um ponto importantíssimo.

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O mural tem entre 2.500 e três mil metros quadrados. Quando foi terminado, era a maior obra do mundo no gênero. Consumiu dois meses de trabalho, três mil latas de spray e mais 2.500 litros de tinta colorida e branca para o fundo. Se o trabalho para conceber e realizar “Etnias” foi grande, Kobra acredita que recuperá-la demandará esforço proporcional.

— Aqui não se trata de um retoque, se trata de pintar totalmente de novo. Não tem nenhuma parte em que a gente ainda tem aquela beleza da cor original do trabalho. Agora é repintar — explica o muralista.

Pelo visto, disposição e disponibilidade para isso não faltarão.

— Hoje eu tenho convites para pintar no mundo todo. Já há alguns anos vem sendo assim, sabe? Mas eu deixaria de fazer outras coisas, bloquearia minha agenda para poder vir para cá, porque leva um tempo para fazer isso — diz Kobra, já traçando planos sobre como começar o restauro. — Acho que primeiro é fazer o fundo todo e depois trabalhar as cinco figuras. É isso. De alguma maneira isso vai acontecer.

Encontrar o caminho artístico para iniciar a restauração da obra é apenas uma parte do trabalho. A outra é viabilizar os recursos. Kobra conta que a recente restauração de outra obra icônica do seu portfólio — o retrato de Oscar Niemeyer num prédio paulista — contou com a sensibilidade e o investimento de um vizinho nonagenário, morador de um prédio próximo e fã da obra.

Criador e criatura. Em 2016, Kobra e o impactante e colorido painel de quase três mil metros quadrados que virou atração turística. 02/08/2016

Fabio Rossi

—Talvez com o meu próprio trabalho eu consiga recursos através de uma campanha, por exemplo. Fazer uma série de prints assinados e numerados que as pessoas possam adquirir e assim a gente levanta recursos para o restauro. Pode ser algo nesse sentido, sabe? Mas algo precisa ser feito — planeja o artista.

Outro ponto importante é combinar com o dono do imóvel. O prédio pertence à Companhia Docas (hoje PortosRio), mas está arrendado para o Pier Mauá, responsável pela gestão do Terminal Internacional de Cruzeiros do Rio. Perguntada sobre os planos para o endereço e se pretende manter o mural, a empresa disse que “não há uma definição sobre a questão”. A prefeitura não tem planos para o local. Em nota, informou que a “revitalização depende da manutenção da estrutura atual do imóvel por parte dos proprietários”.

Enquanto o destino de “Etnias” não é definido, quem chega ao Boulevard Olímpico de navio, VLT ou a pé, arruma um jeito de passar pelo mural. Mesmo desbotado, ele se mantém como um atrativo importante do pedaço. No momento em que Kobra “vistoriava” a pintura, o guia de turismo Agnaldo Marcondes, de 58 anos, chegou acompanhado de dois casais de franceses. A turma foi visitar a Cidade do Samba e pediu ao guia para esticar até a área do porto. Só para ver o famoso grafite. Ao reconhecer o artista, o grupo e o guia abriram sorrisos largos. A tietagem teve direito a abraços e selfies, claro.

— A gente estava no Carnaval Experience, da Grande Rio. Quando terminou, eles perguntaram assim: “Onde é o mural do Kobra?”. Eu disse que ficava perto e viemos andando — conta Agnaldo. — Apesar de eu gostar de qualquer maneira (risos), acho que com as cores de volta vai dar muito mais valor aos desenhos, às formas que ele pintou.

Quarto mural no Rio

No passeio ao longo dos 170 metros do paredão onde, além dos rostos, estão desenhados os continentes intercalados, o olhar de Kobra parou, mais de uma vez, nas marcas que grafiteiros cariocas foram deixando ao longo do tempo em cima do mural famoso.

— Faz parte da rua, é assim mesmo. Eu comecei em 1987, conheço bem esse movimento. Mas esse trabalho é muito respeitado. Dá para ver que houve um cuidado nas interferências. As linguagens se comunicam na rua — afirma Kobra.

Aos 50 anos, a arte de Carlos Eduardo Fernandes Leo, o nome completo de Kobra, é relativamente rara no Rio. Enquanto em Nova York há mais de uma dezena de painéis pintados por ele, por exemplo, aqui, além da obra na Região Portuária, há apenas mais dois: “Talento e superação” (2016), que retrata Ayrton Senna, na Lapa; e o mural da Escola de Dança Petite Danse, na Tijuca, que traz os bailarinos Mayara Magri e Matheus Sousa. Há ainda uma tela com o retrato da jornalista Glória Maria, doada pelo artista à cidade. Em Niterói há dois murais.

O quarto mural carioca do artista ficará em uma parede interna da Biblioteca Parque Estadual. Zeloso, Kobra mantém o mistério sobre o novo desenho. Mas nem uma pista? —Esse mural tem um foco nas crianças, tá? Excepcionalmente nas crianças, porque a gente está num mundo diferente, né? Quando eu pintei um outro trabalho com esse mesmo tema, era um momento diferente, não tinha nem IA. Quando eu comecei a pintar não tinha internet, celular... A pesquisa era diferente. Eu ia à biblioteca fazer pesquisa sobre a história da street art lá no centro de São Paulo, queria saber quem eram os precursores.