Autoestima saudável não é fazer a criança se achar 'a melhor': como ajudar seu filho a ter confiança em si
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Dúvida da semana 🤷♀️🤷
"Como criar as crianças para terem uma autoestima elevada sem que percam humildade e humanidade? Tenho uma filha de 6 e outra de 1 ano e 8 meses."
A gente quer que os filhos cresçam confiantes, seguros de quem são, mas sem que pensem que são melhores que os outros ou que o mundo gira ao redor deles. E aí? Como se resolve essa equação?
Para responder à pergunta desta semana, ouvimos duas especialistas em infância e orientação parental. Elas explicam por que autoestima saudável não tem a ver com elogios exagerados e nem com crianças “se achando”, mas com sensação de pertencimento, amor e capacidade de lidar com erros e limites.
O equilíbrio aparece justamente no cotidiano: quando a criança perde, precisa dividir, esperar, pedir desculpas ou lidar com uma frustração.
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Palavra dos especialistas 👩🏫👨🏫
Mônica Donetto Guedes - Psicanalista e orientadora parental, especialista em gestação e maternidade (@monicadonetto)
🧠 Eu gosto de começar desfazendo um equívoco muito comum: autoestima não é a criança “se achar o máximo”. Não tem a ver com ser superior ou sobre-humano. Autoestima é a capacidade de fazer uma avaliação interna realista sobre si mesma, reconhecendo qualidades e limitações e, a partir disso, saber o próprio valor.
🧩 Quando a criança tem essa base, ela sabe que é amada. E isso vem da relação com os pais, da marca do amor e do respeito que ela carrega. Essa segurança mais tranquila faz com que ela consiga lidar melhor com erros, com diferenças e com as relações ao longo da vida.
⚖️ Também é importante diferenciar autoestima de superestima. A superestima é uma visão inflada de si, com necessidade constante de validação e dificuldade de assumir erros. Muitas vezes, ela esconde uma fragilidade interna. Já a autoestima saudável é mais estável: a criança consegue, por exemplo, não ir bem em uma prova, reconhecer isso, aprender e seguir.
❤️ Na prática, isso começa com um ponto central: a criança precisa sentir que é amada por quem ela é. Não pelo desempenho, não pela nota, não por agradar o adulto. Esse afeto constante, ou seja, a presença que marca amor e respeito, é o que sustenta a sensação de valor próprio.
🧭 Ao mesmo tempo, esse amor precisa vir acompanhado de limites claros. Amor incondicional não é permissividade. Dar limites é dar contorno: mostrar que nem tudo é possível, que existem regras e orientações e que a criança não pode tudo, não sabe tudo, não faz tudo.
👥 No dia a dia, isso aparece quando a criança aprende que suas ações têm consequências e que vive em comunidade. Isso significa ajudá-la a perceber que existe o outro, que o outro também tem limites, e que é preciso respeitar, negociar e conviver com frustrações. É assim que se constrói empatia e responsabilidade.
🔎 Isso também se traduz em pequenas situações: quando a criança erra, poder olhar para o erro sem precisar esconder ou negar; quando algo não sai como esperado, conseguir reconhecer e tentar de novo; quando há diferença de opinião, conseguir considerar o outro sem precisar se colocar acima.
🌱 Quando amor e limite caminham juntos, a criança cresce mais segura. Ela pode experimentar, errar, aprender e tentar de novo sem se sentir sem valor por isso. É esse equilíbrio que permite desenvolver autoestima junto com humildade e humanidade.
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Julia Bittencourt - Psicóloga, mestre em Psicologia, especialista em Orientação Parental e coordenadora do Espaço Néctar - Psicologia da Infância (@espaconectar e @juliabittencourtpsi)
🧠 Criar filhos com uma autoestima saudável significa ajudá-los a reconhecer seu próprio valor, ao mesmo tempo em que aprendem a reconhecer o valor das outras pessoas.
🤝 A base disso começa na forma como nos relacionamos com a criança no dia a dia. Quando validamos suas emoções, quando damos espaço para que ela tente, erre e tente de novo e quando reconhecemos seus esforços (mais do que resultados), estamos construindo um senso interno de competência e segurança.
⚖️ Um ponto importante é evitar os extremos da crítica constante e do elogio exagerado. Elogios muito inflados (“você é a melhor em tudo”) podem desconectar a criança da realidade e gerar uma autoestima frágil, dependendo de validação externa. Por outro lado, uma postura muito crítica pode minar a autoconfiança da criança. O equilíbrio está em ser específico e verdadeiro: “você se dedicou bastante nisso”, “percebi como você foi gentil com sua irmã”.
👥 Já a humildade e a humanidade se desenvolvem nas experiências de convivência com respeito. Isso inclui pequenas atitudes cotidianas: esperar a vez, dividir, ajudar alguém, pedir desculpas, percebendo como suas ações impactam os outros.
🪞 É fundamental que os adultos sejam modelo, afinal as crianças observam mais do que ouvem. Quando veem os pais tratando outras pessoas com respeito, reconhecendo erros, sendo gratos e demonstrando empatia, aprendem que valor pessoal não precisa diminuir o outro.
🌱 No caso de irmãos com idades muito diferentes, como uma criança de 6 anos e outra de 1 ano e 8 meses, surgem oportunidades ricas: incentivar o cuidado e a colaboração e também respeitar os limites da mais velha, sem colocá-la no papel de “responsável” pela menor. Assim, ela pode desenvolver empatia sem abrir mão de ser criança.
❤️ Por fim, vale lembrar: autoestima saudável não é sobre estar sempre feliz ou confiante, mas sobre saber que, mesmo diante de erros, frustrações ou dificuldades, a criança tem seu valor e continua sendo digna de amor, respeito e pertencimento.
🧭 É essa base que sustenta tanto a confiança, quanto a humildade e a humanidade ao longo da vida.
No radar: 3 livros e 2 filmes para falar de autoestima com as crianças 👀
'Amoras', de Emicida (Companhia das Letrinhas)
O primeiro livro infantil do cantor e compositor mostra a importância de nos reconhecermos no mundo e nos orgulharmos de quem somos desde crianças.
'Feio, eu?', de Silvana Tavano (Livros da Matriz)
Com quantos olhos a gente se vê? Como construímos nossa própria imagem? Como isso afeta nossa identidade? O que é mesmo feio? Essas são algumas das tantas perguntas que o livro sugere.
'O vermelho vaidoso', de Alejandra González e Daniel Kondo (WMF Martins Fontes)
As cores conversam entre si? Os autores sugerem que, quando olhamos à nossa volta, o Vermelho parece se impor ao mundo. Mas sua arrogância é logo desmascarada pelas outras cores que se revoltam e revelam um antigo segredo.
'Encanto', disponível no Disney+
O filme conta a história da família Madrigal. Nela, cada pessoa recebe um dom único, como superforça, controle do clima, audição apurada... A única exceção é Mirabel, que não recebeu nenhum dom e sofre por não se encaixar. A animação é uma narrativa sobre autoconfiança e aceitação de que o valor pessoal não depende de dons extraordinários.
'Luca', disponível no Disney+
O longa tem como personagem principal Luca Paguro, um garoto monstro marinho que tem a capacidade de assumir a forma humana em terra. Além de mostrar uma história potente sobre amizade, o filme também trata de aceitação e respeito às diferenças.
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