Auditores do BC avaliam que alternativa do governo para PEC da autonomia geraria insegurança jurídica

Auditores do BC avaliam que alternativa do governo para PEC da autonomia geraria insegurança jurídica

Fonte: Bandeira



A Associação Nacional dos Auditores do Banco Central (ANBCB) se posicionou contra a ideia do governo de manter o BC como uma autarquia, mas liberando o chamado “orçamento monetário” para dar maior capacidade de investimento e gestão de pessoal para a instituição. A ideia da equipe econômica do presidente Luiz Inácio Lula da Silva é uma alternativa ao parecer do senador Plínio Valério (PSDB-AM) à PEC 65, que amplia a autonomia orçamentária e administrativa do órgão e prevê a transformação em “entidade pública de natureza especial”.

Previsto para ser discutido e votado nesta quarta-feira na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado, o tema virou alvo de uma disputa acirrada de versões e esforços de convencimento. A ANBCB representa uma parcela dos funcionários com melhores salários no BC (os procuradores são os salários mais altos) e diz que há um amplo apoio na casa ao texto de Valério. Na manhã de hoje, uma carta assinada por 43 chefes de departamento do banco também reforçou o apoio à proposta do senador amazonense, que foi construída em acordo com o comando do Banco Central e com o apoio da Advocacia-Geral da União (AGU).

Na outra ponta, além dos principais integrantes da equipe econômica estarem articulando contra a versão de Valério e defendendo o modelo de reforço orçamentário sem mudança de status de autarquia, o Sindicato Nacional dos Funcionários do Banco Central (Sinal) também tem criticado, fazendo uma ofensiva de anúncios tanto em outdoors como em horário nobre de televisão e apontando a PEC como uma espécie de “privatização” do BC e entrega da autoridade a interesses que não seriam públicos.

Para a ANBCB, que na manhã de hoje se reuniu com jornalistas, a manutenção do conceito de autarquia, mesmo com a liberação do orçamento monetário, seria insuficiente porque não daria a autonomia administrativa necessária.

A leitura, segundo o vice-presidente da entidade, Guilherme Solino, é que há todo um regramento amplo para as autarquias que podem gerar conflitos interpretativos e jurídicos sobre aspectos como a contratação de pessoal, hoje submetida ao Ministério da Gestão e Inovação. — Por que é importante não ser autarquia? Porque autarquia tem um regramento jurídico muito consolidado no nosso ordenamento brasileiro, com disciplinas e restrições —, explicou, destacando que, no limite, o tema pode parar no Supremo Tribunal Federal.

O presidente da entidade, Thiago Cavalcanti, destacou que a PEC, no formato apresentado por Valério, garante o regime jurídico único para os funcionários (contestando a crítica do Sinal de que ela abriria portas para outras formas de contratação, como a CLT) e blinda os recursos para assegurar a continuidade e evolução de inovações como o PIX. Segundo ele, o PIX já economiza cerca de R$ 500 bilhões anuais em tarifas que antes eram cobradas por cartões de crédito e débito.

Ele ressaltou que a PEC 65 não busca uma "autonomia sem controle" e salienotu que o BC contará com fiscalização do TCU, do Senado, do Conselho Monetário Nacional (CMN), além de os funcionários estarem submetido ao teto constitucional de salários. — A autonomia significa ter os meios e a agilidade para cumprir sua missão institucional de estabilidade de preços e solidez do sistema financeiro, sem as amarras burocráticas que hoje comprometem sua capacidade de resposta —, disse Cavalcanti.

Ele ressaltou ainda que a queixa do governo sobre os impactos fiscais da PEC, tanto no nível da dívida pública (cujo número oficial passaria a ser cerca de 12 pontos porcentuais mais elevado) quanto dos fluxos de receita e despesas primárias, estão equacionadas no texto de Valério. No caso da dívida, seguiria a divulgação dos dois números, como já tem sido hoje, e no caso dos fluxos, a criação de uma reserva mitigaria movimentos muito pronunciados tanto de receita como de despesas.

O governo, porém, avalia que em ano eleitoral a mudança do parâmetro oficial da dívida poderia ser usada politicamente contra o governo e que a proposta de manutenção como autarquia resolve os desafios de reforçar o quadro de pessoal e de fazer os investimentos necessários para manter e evoluir o Pix, sem criar constrangimentos fiscais e políticos.

Na carta divulgada hoje, os chefes de departamento do BC afirmam que redução de pessoal nos últimos anos ameaça a capacidade de acompanhar o crescimento do sistema financeiro e preservar a estabilidade financeira do País. “O texto apresentado pelo relator traz as condições necessárias para enfrentar esses desafios. Ele fortalece a autonomia institucional do Banco Central, assegurando que nossa atuação permaneça técnica e voltada ao interesse público”, diz o texto.