Atuação de ex-diretor de Fiscalização do BC afastado por caso Master é citada como 'benevolente' com regulados

 

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Afastado do cargo por ligações com Daniel Vorcaro, o ex-diretor do Banco Central Paulo Souza era bem-quisto na instituição, mas suas decisões técnicas dividiam opiniões. Alguns relatos de pessoas que trabalharam com o servidor nas últimas décadas apontam que Souza costumava ser "excessivamente compreensivo" ou mais "benevolente" do que o esperado com os regulados na diretoria de Fiscalização, onde fez carreira.

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Os técnicos ouvidos sob condição de anonimato ponderam que nunca houve suspeita de irregularidade, muito menos de vantagem indevida ou favorecimento. Era muito mais uma divergência em torno da abordagem técnica ou, no máximo, parecia uma preocupação de ser atingido no CPF por algum processo de uma instituição financeira. Esse receio não é tão incomum dentro da Fiscalização, mas o relato de parte dos servidores é de que a benevolência de Souza era acima da média. Outros técnicos relatam problemas de gestão e capacidade de liderança.

Souza e Belline Santana foram afastados nesta quarta-feira por decisão do ministro André Mendonça, relator do caso Master no Supremo Tribunal Federal (STF). O afastamento foi determinado depois que uma investigação da Polícia Federal apontou suspeitas de que os dois prestavam serviços de "consultoria informal" para Vorcaro, recebendo vantagens indevidas. Os dois já haviam deixado o cargo por decisão administrativa do BC no âmbito de uma investigação interna sobre o caso Master.

A atuação de Souza no caso Master foi um ponto fora da curva. Como chefe-adjunto do Departamento de Supervisão Bancária (Desup), onde estava até o afastamento, o ex-diretor era responsável pelo monitoramento da instituição de Vorcaro. Ele foi defensor da operação com o BRB, que acabou rejeitada pelo BC.

O negócio gerou polêmica desde o princípio pelo fato de ser uma instituição pública pequena a socorrer um banco com graves problemas reconhecidos pelo mercado. Souza, no entanto, dizia que o desenho da operação não era atípico.

Ele também chegou a ter divergências com o atual presidente da instituição, Gabriel Galípolo, sobre lançamentos contábeis do Master. Mas, até esse momento, tudo parecia mais uma vez uma diferença de entendimento técnico.

Chamou a atenção ainda o relato que Souza fez da reunião por videoconferência entre Vorcaro e integrantes da Fiscalização no dia da prisão do executivo em novembro, que acabou sendo usada pela defesa do banqueiro para argumentar que o BC sabia que ele iria para Dubai tentar fechar um negócio - e, portanto, não estava tentando fugir da polícia.

As suspeitas de vantagens indevidas só aconteceram, no entanto, em janeiro deste ano. Desde setembro de 2024, o Departamento de Supervisão Bancária (Desup) estava passando pelo processo regular de auditoria do BC, que passa por todas as áreas do órgão.

Após a liquidação do Master, foi aberto um processo específico de investigação interna para avaliar os processos adotados no caso. Quando surgiram suspeitas mais graves de atuação irregular, a sindicância foi aberta, os servidores afastados e houve comunicação à Polícia Federal.

O ex-diretor chegou ao BC em 1998 e já foi logo alocado na supervisão direta. Souza foi inspetor, supervisor, gerente técnico e chefe de divisão do Desup até 2012. Depois foi promovido à chefe de Departamento de Gestão Estratégica, Integração e Suporte da Fiscalização (Degef), também dentro da Diretoria de Fiscalização (Difis). Em 2015, voltou à Supervisão Bancária como chefe da área até ser indicado para a diretoria por Ilan Goldfajn em agosto de 2017, onde ficou até junho de 2023, na gestão de Roberto Campos Neto.

É tradicional no BC que a diretoria de Fiscalização seja ocupada por um servidor com experiência na área, justamente pela necessidade de conhecimento da prática de monitoramento do sistema financeiro. Nesse sentido, a escolha do chefe de departamento de supervisão bancária, responsável pela fiscalização das instituições mais relevantes do país, é considerada natural.

Tanto é que Belline Santana, o outro servidor afastado por decisão de Mendonça, foi cotado para assumir o cargo após o fim do mandato de Souza. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no entanto, preferiu Ailton Aquino, atual diretor de Fiscalização. Na época, no entanto, seu nome foi bastante elogiado entre servidores pelo perfil técnico e no mercado.

Santana também entrou no BC em 1998 e fez carreira na Fiscalização. Ele assumiu a chefia do Departamento de Supervisão Bancária em outubro de 2019 e permaneceu no cargo até ser afastado no âmbito da investigação interna do BC sobre o caso Master.

Procurados, Souza e Santana não responderam os contatos.