Atriz que comprou imóvel em edifício de luxo com obras paradas no Rio relata ofensa e calote de R$ 280 mil de construtora

 

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A polêmica que envolve o atraso na entrega de mais de 70 apartamentos de luxo da Inti Empreendimentos, com obras em sete endereços da Zona Sul do Rio, tem novas acusações. Compradores de imóveis em edifícios da Gávea, de Botafogo e do Leblon relatam ter identificado mais inexecuções e violações contratuais. Em entrevista recente ao GLOBO, o dono da construtora, André Kieffer, admitiu que não tem recursos para dar continuidade às obras dos edifícios.

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Um condomínio em construção no bairro da Gávea tinha previsão de entrega para 2025. Nesta primeira quinzena de abril, as obras ainda estão em fase de construção dos pavimentos. Adquirente de um imóvel do condomínio em questão, o Cora, a atriz e jornalista Lays Ariozi, de 39 anos, conta que tinha tido três paradas cardíacas em determinado período e, logo em seguida, se deu conta de que teria prejuízo após a família investir quase R$ 1 milhão num apartamento no local.

Segundo ela, ao procurá-los para discutir os prejuízos e fazer o distrato, um dos sócios da Inti Empreendimentos, responsável pelas construções, expôs uma ofensa via mensagens de WhatsApp. Um print encaminhado por engano mostrava que ela e a família foram chamados de "malas". No aplicativo, desestimulavam que clientes fossem à Justiça alegando que demorariam ainda mais para receber os valores reclamados.

Entre os adquirentes e a construtora, enfim, foi efetuado um distrato com atraso. Em seguida, em parcelas, também fora dos prazos, foram pagos dois terços do valor investido, R$ 600 mil. Ao cobrar os R$ 280 mil que em contrato a Inti previa devolver, a família recebeu a resposta do advogado da construtora informando que o valor não seria pago. O valor atualizado pode ultrapassar R$ 300 mil. O GLOBO teve acesso ao contrato e às mensagens.

— Eu tinha acabado de sair da UTI quando meu pai e eu compramos esse apartamento. Eu tinha acabado de me separar, estava sem ter onde morar e meu pai quis ajudar. Tive muitos prejuízos por conta deles, fiquei doente de novo. Ele (o sócio) dizia “Se você entrar na Justiça, vai demorar anos para receber esse dinheiro” — conta ela, que enviou à reportagem contratos assinados e mensagens de comunicação com os representantes da empresa. — Quando falei do contrato, o dono disse que ele "não tinha muita validade jurídica".

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A seguir, o relato de Lays Ariozi ao GLOBO:

Prédios da Inti Empreendimentos na Urca, em Botafogo e na Gávea

Domingos Peixoto

"Eu havia me separado em fevereiro de 2023 e entrei numa depressão profunda. Fiquei sem moradia fixa por quatro meses, sem trabalho e em situação extremamente vulnerável, sem muita rede de apoio, pois a minha família é do interior do Paraná. Em abril, além da depressão, tive três paradas cardíacas. Em junho, encontrei um apartamento na Rua General Rabelo, na Gávea, e vi ali uma chance de recomeçar. Na mesma época, vi uma placa na rua anunciando um novo empreendimento de 18 unidades da construtora Inti. Meu pai, sensibilizado com tudo que eu havia passado, se propôs a me ajudar a comprar um imóvel. Era o dinheiro de uma vida inteira, economizado ao longo de anos com muito esforço, investido com a esperança de segurança e estabilidade.

Pesquisamos sobre a empresa e não encontramos processos ou reclamações. Ainda assim, fui pessoalmente até uma obra deles na Urca e percebi que estava parada. Ao questionar a construtora, me disseram que a obra estava caminhando normalmente. Esse padrão se repetiu ao longo de toda a relação: eles sempre negavam o que estava diante dos nossos olhos.

Desde o início da nossa negociação com a Inti, houve pressão. Queríamos um tempo maior para analisar o contrato, ver prós e contras, condições de pagamento. Estávamos sendo pressionados pelo corretor que nos enviou uma mensagem do dono da construtora dizendo: 'Quem tem a melhor proposta, assina e paga”. Perdemos a unidade 204 dessa forma. Mesmo insegura, fui convencida a seguir para a unidade 104. Questionamos cláusulas, riscos e garantias, e nos asseguraram que estávamos protegidos. No dia 19 de agosto de 2023, assinamos o contrato. A cláusula 5.2 diz: 'caso a vendedora não consiga realizar o Empreendimento ou executá-lo por motivos alheios à sua vontade, o presente instrumento poderá ser resolvido de pleno direito, hipótese na qual o montante pago pelo comprador será devolvido pela vendedora ao comprador, no prazo de 30 (trinta) dias contados da assinatura de instrumento de distrato, devidamente corrigido mensalmente pela acumulação positiva do INCC – DI (n-2)/ FGV-RJ (Índice Nacional da Construção Civil da Fundação Getúlio Vargas), desde cada pagamento até a data de sua devolução, como forma de indenização, sem incidência de nenhuma outra multa ou indenização de parte a parte'.

Acompanhei todo o processo de perto. Desde maio de 2024, eu e meu pai questionávamos a Inti sobre a paralização da obra. As respostas eram vagas, as desculpas mudavam, mas sempre garantiam que a entrega seria no prazo. Fizemos uma reunião com o engenheiro responsável pela obra, pois seria impossível subir um prédio inteiro em um ano e ele nos garantiu que ficaria pronto na data do contrato. Mentiam o tempo todo. Diante daquele cenário, pedimos a prorrogação da próxima parcela que tínhamos que pagar e eles negaram. Era muito injusto e angustiante ficar pagando por algo que você não via subir um tijolo. Mas, como não podíamos deixar de pagar pois a multa era muito alta, nós questionávamos a empresa cada vez mais e a comunicação foi se tornando desgastante, depois inexistente. Fui ignorada muitas vezes, tanto nas mensagens de WhatsApp quanto nos e-mails. Eu me sentia refém.

Diante de todos os fatos, tomei a difícil decisão de rescindir o contrato. Não foi simples. Desde abril de 2025, eu tentava formalizar a rescisão, mas só consegui em 10 de julho de 2025. A comunicação era falha, o documento vinha com erros de português e datas incorretas, e, ainda assim, a responsável pelo relacionamento dizia que eu estava fazendo 'pleitos' e que por isso o processo demorava. Ou seja, além de todo o problema, eu ainda era tratada como culpada por erros que eram deles. Isso me deixava extremamente nervosa e evidenciava uma relação abusiva. Depois de muitas trocas difíceis, fui bloqueada (no aplicativo de mensagens) pela profissional responsável pelo relacionamento.

De acordo com o contrato, o empreendimento deveria ser entregue em agosto de 2025, admitindo um prazo adicional de tolerância de 180 (cento e oitenta) dias, mas não havia sequer um tijolo. Eu acreditava que, ao rescindir, receberia meu dinheiro de volta conforme a clausula 5.2 do contrato. Mas fui surpreendida ao ouvir do André Kiffer que o contrato “não tinha muita validade jurídica”. Foi desesperador. Como eu precisava muito daquele dinheiro e o André já havia dito que não me pagaria à vista, aceitamos um acordo para pagamento parcelado em três vezes a partir de setembro de 2025.

Nunca realizaram nenhum pagamento em dia. Era desesperador. Todo dia 15, data assinada em contrato, eu tinha que implorar pelo pagamento. Quitaram duas parcelas, mas sempre pagavam com valores picados, após o prazo e (com valores oriundos) de contas diferentes.

A partir do primeiro atraso, consegui o contato pessoal do dono, André Kiffer, e passei a pressioná-lo diretamente. Foram meses de desgaste extremo. Em um momento, consegui falar com ele enquanto ele estava de férias nos Estados Unidos, e ele dizia que não tinha dinheiro para me pagar. Isso foi profundamente humilhante. Eu passei sérias dificuldades por não ter esse dinheiro de volta, enquanto ele estava fora do país, vivendo normalmente.

Depois disso, o CFO da empresa me procurou, me pediu desculpas por tudo, disse que o meu caso era prioridade e que garantiria o pagamento das parcelas em dia. No entanto, após trocas difíceis que tive com ele, já que não me pagavam o acordado, ele mudou completamente de postura: passou a me tratar com desrespeito, me chamou de “mala”, disse que eu deveria tratar apenas com o jurídico e que não me responderia mais. Todas as vezes que tentei marcar reuniões presenciais com ele, eram desmarcadas de última hora. O acordo não foi cumprido. Passei meses vivendo uma relação abusiva. Eles pagavam quando queriam, quanto queriam, ignoravam mensagens e impunham decisões unilaterais. Eu me sentia refém. Um dinheiro que é meu por direito, e eu tendo que implorar para receber. Isso me adoeceu. Tive danos financeiros, precisei fazer empréstimos, e minha saúde física e emocional foi profundamente afetada.

Fui ofendida diversas vezes. A terceira parcela, prevista para novembro de 2025, não foi paga até hoje. Também ouvi ameaças como: 'se quiser entrar na Justiça, você pode entrar, mas sabe que vai demorar anos pra receber esse dinheiro'. Eles tentavam me manipular o tempo inteiro, com um discurso que estavam se esforçando muito pra honrar os pagamentos e que no mês seguinte iam pagar.

Em janeiro de 2026, fiz uma notificação extrajudicial cobrando a última parcela que deveria ter sido paga em novembro e, ainda assim, me dispus a tentar um novo acordo. Em uma reunião presencial, fui tratada com deboche e desrespeito. A proposta deles foi dividir a última parcela em 10 vezes a partir de maio de 2026. Recusei e propus início do pagamento em abril. Ficaram de analisar, mas me deixaram quase duas semanas sem resposta. Depois de pressioná-los mais uma vez, finalmente o advogado deles entrou em contato e disse que eles não têm como me pagar a última parcela e que eu poderia ficar à vontade para procurar a Justiça. Quando comecei a expor o caso, descobri várias outras pessoas em situações semelhantes ou piores do que a minha. Existem diversas famílias com obras abandonadas, milhões investidos nesses empreendimentos inacabados e sonhos destruídos. Eu perdi dinheiro, saúde, tempo, estabilidade e paz. A Inti e seus sócios não podem agir dessa forma e continuar bancando uma vida de luxo como se nada tivesse acontecendo. O que eu peço é o mínimo: justiça, respeito ao contrato, à lei e à dignidade. Queremos nosso dinheiro de volta, corrigido. É nosso direito".

O GLOBO entrou em contato com a Inti Empreendimentos e aguarda resposta.