Atrasos e violência: Plano de paz de Trump para Gaza começa com até 20 militares, longe dos 20 mil prometidos

Atrasos e violência: Plano de paz de Trump para Gaza começa com até 20 militares, longe dos 20 mil prometidos

Fonte: Bandeira



O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, apresentou em outubro seu plano de paz para Gaza como o início de um "amanhecer histórico de um novo Oriente Médio".

A proposta previa o fim gradual da guerra, a reconstrução do enclave palestino e o envio de uma força internacional de estabilização de 20 mil soldados para impedir o ressurgimento do Hamas como força militar.

Meses depois, porém, o projeto enfrenta dificuldades para sair do papel.

Segundo informações do Wall Street Journal, a missão internacional deve começar com apenas 10 a 20 militares marroquinos, uma fração do contingente originalmente previsto.

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Os soldados, que deveriam ter sido enviados em junho, agora são esperados nos próximos meses e nem sequer entrarão imediatamente em Gaza.

Inicialmente, ficarão em uma base logística construída por Israel perto da passagem de Kerem Shalom, onde passarão por treinamento antes de participar de operações limitadas.

O atraso expõe os obstáculos enfrentados pela estratégia de Trump para encerrar conflitos no Oriente Médio.

O plano previa uma transição em etapas: após um cessar-fogo inicial, o Hamas deveria entregar o poder a um conselho tecnocrático palestino e desarmar suas forças, enquanto Israel retiraria suas tropas e a força internacional assumiria a segurança do território.

Na época, Trump chegou a afirmar que a iniciativa abriria caminho para uma onda de investimentos em projetos de reconstrução à beira-mar e transformaria a região em um símbolo de estabilidade econômica.


No entanto, nada disso aconteceu.

O Hamas continua se recusando a abandonar suas armas, Israel mantém operações militares em Gaza e a reconstrução prometida segue praticamente parada.

Segundo autoridades de saúde do enclave, mais de mil palestinos foram mortos por ataques israelenses desde a entrada em vigor do cessar-fogo firmado no ano passado.

O Comitê Nacional para a Administração de Gaza, sediado no Cairo e apontado como alternativa para governar o território, afirmou recentemente estar pronto para assumir a administração do enclave quando houver condições políticas e de segurança.

O grupo também iniciou os preparativos para formar uma nova força policial que, em tese, ficaria responsável por recolher o arsenal do Hamas caso o movimento aceite se desarmar.

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A guerra entre Israel e Irã também atingiu diretamente os planos americanos.

Daniel Shapiro, ex-secretário adjunto de Defesa para o Oriente Médio no governo de Joe Biden, afirmou ao WSJ que o conflito reduziu o interesse de alguns países em participar da missão internacional.

Um dos maiores reveses veio da Indonésia, que estudava enviar milhares de soldados para a operação, mas suspendeu as negociações alegando instabilidade regional.

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Embora Albânia, Cazaquistão, Kosovo e Marrocos ainda negociem participação, a distância entre os 20 mil soldados prometidos por Trump e os 10 a 20 militares previstos para a primeira fase tornou-se um símbolo das dificuldades enfrentadas pelo plano.

Enquanto isso, os cerca de 2,1 milhões de habitantes de Gaza seguem vivendo entre ruínas deixadas pela guerra iniciada em 2023.

Embora o Conselho de Paz afirme ter recebido promessas de aproximadamente US$ 17 bilhões (cerca de R$ 86,9 bilhões) para a reconstrução — grande parte oriunda de países do Golfo —, apenas uma fração desses recursos foi efetivamente arrecadada até agora.

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A falta de avanços concretos tem aumentado a preocupação de organizações humanitárias que atuam no território.

— O cessar-fogo de outubro passado ofereceu um vislumbre de esperança, mas isso precisa se traduzir em uma melhora concreta na vida dos palestinos em Gaza — afirma Pat Griffiths, porta-voz do Comitê Internacional da Cruz Vermelha em Jerusalém.

Motorista que transportava ajuda humanitária é morto

O cenário de insegurança em Gaza foi evidenciado, nesta semana, por um episódio que gerou novas críticas contra Israel.


Segundo relatos publicados pelos jornais Guardian e Haaretz, soldados israelenses são acusados de matar Ahmad Nasser Salim, de 30 anos, motorista palestino que transportava alimentos da organização humanitária World Central Kitchen (WCK) para Gaza.

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De acordo com testemunhas e representantes da Associação de Empresas de Transporte de Gaza, o comboio, composto por quatro caminhões, havia acabado de entrar no território após coordenação prévia com o Programa Mundial de Alimentos da ONU, a WCK e as Forças Armadas de Israel.

O grupo precisou parar no Corredor Filadélfia, próximo à fronteira com o Egito, depois que um dos caminhões apresentou problemas mecânicos.

Motoristas afirmam que soldados israelenses ordenaram que eles deixassem os veículos.

Segundo os relatos, Ahmad teria sido retirado do caminhão, permanecido com as mãos erguidas e sido baleado na cabeça após uma tentativa frustrada de comunicação entre os militares e o motorista, que não falava hebraico.

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Jihad Salim, dirigente da associação de transportadoras e parente da vítima, classificou o episódio como uma "execução sumária" e afirmou que Ahmad possuía todas as permissões de segurança exigidas pelas autoridades israelenses.

Israel confirmou que houve um disparo, mas apresentou uma versão diferente.

Segundo o Exército israelense, três motoristas deixaram seus caminhões contrariando protocolos estabelecidos.

Os militares afirmam que, durante a abordagem, um dos motoristas correu em direção às tropas, sendo identificado como uma ameaça imediata.

Os soldados então abriram fogo.

As Forças de Israel disseram ainda que o homem recebeu atendimento médico inicial e foi transferido para tratamento por meio da Cruz Vermelha.

O caso está sob investigação.


O episódio reacendeu denúncias sobre os riscos enfrentados por trabalhadores envolvidos na distribuição de ajuda humanitária em Gaza.

Segundo associações locais, outros motoristas palestinos teriam sido mortos em circunstâncias semelhantes nos últimos meses.

Em abril de 2024, sete funcionários da própria WCK morreram em um ataque israelense contra um comboio humanitário em Deir al-Balah, episódio que provocou forte repercussão internacional.

Para críticos da operação militar israelense, a morte de Ahmad simboliza a distância entre as promessas de estabilização feitas por Washington e a realidade enfrentada diariamente pelos civis em Gaza.

Enquanto o plano de paz de Trump avança lentamente e com recursos limitados, episódios de violência continuam marcando a rotina do enclave palestino.