Atlas da Violência: Brasil registra aumento de mais de 16% nas mortes no trânsito entre 2019 e 2024
O Brasil registrou um aumento de mais de 16% nas mortes no trânsito entre 2019 e 2024, segundo o Atlas da Violência divulgado nesta terça-feira. O número de vítimas passou de 31.945 para 37.150, impulsionado principalmente pelo avanço das mortes envolvendo motocicletas, que já representam 41,6% dos óbitos viários no país.
O estudo aponta que a expansão da economia de aplicativos transformou a dinâmica da mobilidade urbana e consolidou a motocicleta como instrumento de trabalho e sobrevivência econômica, sobretudo entre populações vulneráveis das regiões Norte e Nordeste. Nesse cenário, as mortes com motocicletas cresceram 38% em cinco anos, saltando de 11.182 para 15.459 registros.
No Piauí, o índice é ainda mais alarmante: 72,7% das mortes no trânsito em 2024 envolveram motos, muito acima da média nacional.
O relatório também revela que o Brasil atingiu, em 2024, o menor número de homicídios desde o início da série histórica, em 2014. Foram 42.590 assassinatos no ano passado, o equivalente a 20,1 casos por 100 mil habitantes — uma queda de 7,4% em relação a 2023.
Apesar da redução geral, o estudo mostra que a juventude continua no centro da violência letal no país. Entre 2014 e 2024, 301.825 jovens de 15 a 29 anos foram assassinados — cerca de 75 por dia. Só em 2024, foram 19.801 mortes nessa faixa etária, com taxa de 42,2 homicídios por 100 mil habitantes.
O Atlas também acende um alerta para o avanço da violência sexual contra crianças e adolescentes. Entre crianças de 0 a 4 anos, as notificações cresceram mais de quatro vezes em uma década, passando de 1.671 casos em 2014 para 7.845 em 2024. Na faixa de 5 a 14 anos, os registros saltaram de 6.594 para 29.135 no mesmo período. O estudo destaca ainda que cerca de dois terços da violência contra menores de 14 anos ocorre dentro da própria residência. Entre crianças de até 4 anos, 79,9% dos casos de violência não letal têm autoria doméstica.
Na violência contra as mulheres, os dados indicam estabilidade nos assassinatos dentro de casa, o que, segundo o relatório, aponta para a persistência dos feminicídios. O índice variou de 1,25 para 1,18 no período analisado. Entre mulheres negras, a situação é ainda mais grave: a taxa de mortes é 66,7% maior do que entre mulheres não negras.
A análise da violência não letal também mostra forte concentração no ambiente doméstico. Quase 80% das agressões registradas ocorreram na residência da vítima, e 66,2% das mulheres atendidas pela rede de saúde relataram episódios recorrentes de violência ao longo do mesmo ano.
O recorte racial evidencia outra desigualdade histórica. A taxa de homicídios entre pessoas negras é 170,3% superior à de não negros. Na prática, um cidadão negro tem 2,7 vezes mais chances de ser vítima de homicídio. Em estados como Alagoas, esse risco chega a ser 23,3 vezes maior.
O relatório destaca ainda o crescimento da violência contra indígenas. No Amazonas, o número de homicídios dobrou em apenas um ano, com aumento de 123,4% na taxa de letalidade — de 36 casos em 2023 para 73 em 2024. A taxa de homicídios entre indígenas chegou a 24,6 por 100 mil habitantes, 22% acima da média nacional. Na Bahia, novos focos de conflito contribuíram para um aumento de 84,6% nos assassinatos dessa população no mesmo período.
