Aterro sanitário ou lixão: O que muda na vida das cidades, segundo Marcio Andre Savi
À medida que crescem as discussões sobre sustentabilidade nas cidades brasileiras, o tema da destinação de resíduos sólidos ganha relevância nas conversas sobre gestão urbana e saúde pública. Marcio Andre Savi, profissional da área de engenharia com experiência em obras de grande porte e saneamento básico, acompanha de perto as mudanças que estão sendo implementadas em diferentes municípios do país e entende o quanto a coleta de resíduos e a operação de aterros sanitários impactam o cotidiano da população.
A diferença que muitos não percebem
Para boa parte das pessoas, o que acontece com o lixo após a coleta é algo distante da realidade do dia a dia. Contudo, a forma como os resíduos sólidos são destinados tem implicações diretas para a saúde coletiva, o meio ambiente e até para a valorização dos imóveis no entorno. Lixões a céu aberto, ainda presentes em centenas de municípios brasileiros, contaminam o solo e as águas subterrâneas, atraem vetores de doenças como ratos e mosquitos e liberam gases prejudiciais à atmosfera. Em contrapartida, aterros sanitários devidamente licenciados e operados segundo normas técnicas eliminam esses riscos por meio de sistemas de impermeabilização, drenagem de líquidos percolados e monitoramento ambiental contínuo.
Conforme explica Marcio Andre Savi, obras voltadas à destinação de resíduos sólidos são projetos de engenharia de alta complexidade, que envolvem desde a escolha criteriosa do terreno até o monitoramento das águas subterrâneas por décadas após o encerramento das operações. A impermeabilização do solo com geomembranas, a captação e o tratamento do chorume e o aproveitamento do biogás gerado pela decomposição orgânica são etapas que exigem projeto técnico detalhado e fiscalização permanente. A diferença entre um aterro bem operado e um lixão não é apenas de nome: é uma questão de proteção real à saúde da população.
Por que tantas cidades ainda convivem com lixões?
Apesar de a Política Nacional de Resíduos Sólidos, sancionada em 2010, ter estabelecido a extinção dos lixões como meta nacional, o Brasil ainda enfrenta dificuldades para cumprir integralmente esse compromisso. Entre os fatores que explicam a persistência dos lixões estão a falta de recursos financeiros dos municípios menores, a ausência de estrutura técnica para elaborar e executar projetos de engenharia, a dificuldade de encontrar áreas licenciáveis para novos aterros e os entraves burocráticos nos processos de licenciamento ambiental. Em muitos casos, municípios vizinhos poderiam compartilhar aterros regionais, reduzindo custos e ampliando a eficiência do sistema, mas a falta de articulação intermunicipal impede que essa solução seja adotada em escala.
Somado a isso, há um componente político que frequentemente dificulta a implantação de novos aterros sanitários: a resistência das comunidades próximas às áreas selecionadas, fenômeno conhecido como NIMBY, sigla em inglês para 'não no meu quintal'. Marcio Andre Savi observa que projetos de infraestrutura de saneamento, incluindo tanto aterros quanto estações de tratamento de esgoto, enfrentam rejeição local mesmo quando são tecnicamente seguros e ambientalmente adequados. Superar essa resistência exige comunicação transparente, participação da comunidade no processo de tomada de decisão e demonstração concreta dos benefícios que a obra trará para a região.
O que muda quando a cidade investe no destino certo?
Municípios que avançaram na regularização da destinação de resíduos sólidos relatam benefícios concretos em diversas frentes. A redução de focos de dengue, leptospirose e outras doenças associadas a vetores que proliferam em lixões é um dos impactos mais imediatos. A melhora na qualidade das águas superficiais e subterrâneas, antes contaminadas pelo chorume, representa outro ganho significativo para as comunidades afetadas. Além disso, aterros sanitários bem operados podem gerar energia elétrica a partir do biogás, criar empregos formais e, em alguns casos, tornar-se destinos de visitas técnicas e educativas, revertendo parte do estigma associado à infraestrutura de resíduos.
Na avaliação de Marcio Andre Savi, o investimento em obras de saneamento básico voltadas à coleta e destinação de resíduos representa um dos caminhos mais eficazes para melhorar a qualidade de vida urbana de forma ampla e duradoura. Torna-se evidente, portanto, que tratar o lixo com seriedade não é apenas uma obrigação ambiental: é uma decisão que afeta diretamente a saúde, o bem-estar e o desenvolvimento das cidades brasileiras.
