Aterro no limite: foliões elegem o parque o palco dos blocos, mas infraestrutura é insuficiente; saiba mais

 

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Quando o quesito é carnaval de rua no Rio, boa parte dos caminhos leva ao Aterro do Flamengo — ou passa por lá. Nos últimos anos, o parque e seu entorno vêm se consolidando como um dos principais polos da folia carioca, mas o crescimento tem avançado mais rápido que a capacidade de organização do poder público. Do tráfego intenso à escassez de guardas municipais e agentes de trânsito em acessos e cruzamentos, a situação exige atenção redobrada de motoristas e pedestres numa área que permanece aberta à circulação de veículos.

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A quantidade de blocos — oficiais e espontâneos — resulta em desordem urbana. Em vias que conectam o Centro e a Zona Sul, por exemplo, quem está ao volante precisa encontrar espaço em meio a multidões. Em alguns trechos, também não há policiais militares.

Carros na multidão

Um dos pontos mais críticos, conforme relatos, é o cruzamento das ruas Teixeira de Freitas e Augusto Severo, na Lapa. Nos horários de dispersão dos blocos, o volume de pessoas reduzia a velocidade dos veículos e tornava as travessias mais arriscadas, com pedestres cruzando fora das faixas e motoristas seguindo lentamente. O cenário se repetiu na Avenida Osvaldo Cruz e ao longo de toda a extensão da Praia do Flamengo. Em outros acessos ao Aterro, como a Avenida Beira-Mar, a Praça do Russel e as ligações com os Arcos da Lapa e a Rua do Riachuelo, havia sempre retenções e mudanças no fluxo ao longo do dia.

No sábado de carnaval, o bloco Ordinários Elétricos lotou o Aterro, enquanto outros cortejos se concentravam na mesma área, com pistas tomadas pelo público e acúmulo de lixo. Já na terça-feira, o Sereias da Guanabara se reuniu próximo à churrascaria Assador, onde a água acumulada formou poças de lama no gramado pisoteado pelos foliões. A dispersão da Orquestra Voadora, no mesmo dia, foi marcada por grande aglomeração e dificuldades na saída do público.

Falta de educação. O lixo acumulado junto a árvore e em caminho no parque

Márcia Foletto

Procurada, a prefeitura afirmou que o Aterro tem alta capacidade para receber público com segurança quando as pistas estão fechadas e ressaltou que “o carnaval no local ocorre há 15 anos sem registro de incidentes graves”. Neste ano, segundo a Riotur, o espaço recebeu 12 blocos legalizados em quatro dias. De acordo com a CET-Rio, as interdições seguem planejamento anual, e os transtornos registrados decorreram da circulação de blocos clandestinos.

Para o historiador Fernando de Souza, presidente do Instituto Lotta de Cultura e Recreação, o problema central não é o uso do Aterro, mas a ausência de uma administração específica para ele.

— O parque não aguenta tanto movimento. E o grande problema é a falta de organização. Não tem ninguém tomando conta de lá. O tombamento não impede o uso, mas exige critérios sobre o que pode ou não ser feito — disse o especialista.

A arquiteta e urbanista Luciana Mayrink reforça que o Aterro do Flamengo é um espaço público de enorme valor urbano e patrimonial, projetado por nomes centrais do modernismo e pensado desde a origem para múltiplos usos. Segundo ela, a escolha do local para os blocos é acertada, justamente pela escala e pela conexão entre bairros. O desafio, porém, está em conciliar esse uso intenso com a preservação do conjunto tombado:

— Não se trata de congelar o espaço, mas de estabelecer critérios para manter a integridade paisagística, cuidar do solo e do mobiliário.

Moradores do Flamengo relatam que os efeitos da desorganização ecoam no bairro:

— Esses blocos cresceram muito, inclusive os clandestinos, e é preciso repensar essa disposição. Do jeito que está, a logística é ruim e prejudica a todos. Faltam policiamento e banheiros químicos — denunciou Bebel Franklin, presidente da Associação de Moradores e Amigos do Flamengo (Amafla).

Procurada, a Polícia Militar informou que adotou um esquema especial no carnaval no Centro e na Zona Sul, com reforço de efetivo, uso de tecnologia e ajustes ao longo dos dias de festa, registrando aumento de prisões, apreensões e recuperação de celulares em relação ao ano anterior. Já a Comlurb declarou que recolheu 82,2 toneladas de resíduos dos blocos oficiais no Aterro, com até 1.182 garis mobilizados, e que reforçou as equipes em função da presença de grupos não autorizados.

(Colaborou Lívia Nani, estagiária sob supervisão de Leila Youssef)