Atendimento a baleados nas emergĂȘncias municipais do Rio aumenta 66%

 

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Sete meses apĂłs ser baleado enquanto trabalhava, ValĂ©rio de Souza JĂșnior ainda tem sequelas do tiro que atingiu seu tornozelo direito. Ele estava fazendo uma de suas Ășltimas entregas na noite de 30 de agosto do ano passado quando o policial penal JosĂ© Rodrigo da Silva Ferrarini desceu do apartamento armado e atirou no motoboy, que se recusara a subir atĂ© o imĂłvel para entregar o lanche. Levado ao Hospital Lourenço Jorge, na Barra da Tijuca, ele foi um dos 1.840 baleados atendidos nos hospitais municipais do Rio em 2025 — nĂșmero 66% superior ao do ano anterior. Este ano jĂĄ sĂŁo 315 vĂ­timas.

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— O mĂ©dico me perguntou se eu era crente a Deus porque a bala pegou a menos de um centĂ­metro de uma veia importante e, por pouco, nĂŁo perco meu pĂ© — lembra ele, que ainda tem sequelas.

Dos baleados recebidos nas emergĂȘncias cariocas, 83% sĂŁo homens entre 20 e 40 anos. Mais da metade dos atendimentos Ă© de moradores da Área de Planejamento 5.1 (como Realengo, Bangu e Padre Miguel) e da Área de Planejamento 3.3 (como Costa Barros e Pavuna). Essa Ășltima regiĂŁo convive hĂĄ meses com uma guerra entre facçÔes pelo controle das favelas locais.

Os dados inĂ©ditos sĂŁo da Secretaria municipal de SaĂșde e nĂŁo fazem parte do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), do MinistĂ©rio da SaĂșde. Outro painel lançado recentemente Ă© o de amputaçÔes na cidade, criado apĂłs a sĂ©rie Mutilados, do EXTRA. Os nĂșmeros mostram que, desde 2024, 19 vĂ­timas da violĂȘncia armada perderam alguma parte do corpo.

AlĂ©m das consequĂȘncias fĂ­sicas, ValĂ©rio conta que teve dificuldade para voltar a trabalhar com entregas.

— A psicĂłloga da plataforma me ajudou a conseguir meter a cara e enfrentar o medo. Nos primeiros dias, ficava na paranoia de alguĂ©m tentar me retaliar — conta ele.

O motoboy Valério Junior, baleado ao fazer uma entrega em Jacarepaguå

JĂșlia Aguiar

Na semana passada, o acusado do crime foi condenado a cinco anos e quatro meses de prisão, além da perda do cargo. No processo, a alegação é que ele agiu em legítima defesa.

Procurada, a Secretaria de Administração Penitenciåria afirma não ter sido citada da decisão e que corre um processo administrativo contra o policial penal na Corregedoria.