Até saber que uma lesão às vésperas da Copa do Mundo não foi grave, um jogador vive o drama de ver um sonho ir embora

 

Fonte:


Gabriel Magalhães caiu no gramado, estendeu a perna esquerda e pôs as mãos sobre o joelho. Eram 25 minutos do segundo tempo das quartas de final da Copa da Inglaterra. O Arsenal tinha acabado de empatar contra o Southampton, da segunda divisão, numa jogada que começou com um bom passe de Gabriel. A equipe médica foi acionada, a placa subiu e o zagueiro saiu de campo — andando, para suspiros aliviados de torcedores dos dois lados do Atlântico. O impacto no jogo era a menor preocupação naquele momento (embora seu substituto, Saliba, fosse chegar atrasado no gol que decretou a derrota e a surpreendente eliminação, 15 minutos depois). O problema é que entramos numa etapa da temporada em que uma lesão custa duplamente caro: os campeonatos europeus estão na reta final e a Copa do Mundo, logo ali.

Gabriel Magalhães foi cortado da convocação de Carlo Ancelotti para os dois últimos amistosos da seleção brasileira, por causa de um problema no outro joelho. Não perdeu, por isso, a condição de favorito a uma vaga na lista final e até no time titular para a Copa. Mas dá para imaginar o que passou pela cabeça do zagueiro naqueles poucos segundos em que esteve sentado, apalpando a perna para tentar entender se a dor que sentia indicava algo grave ou passageiro. É uma dúvida que dura uma eternidade e mais um dia, caso seja necessário esperar pelo resultado de um exame.

Atletas convivem com lesões, mas lidar com elas é algo menos natural do que o torcedor consegue imaginar. No depoimento que me deu para o livro “Nalbert, a jornada de um líder”, o craque do vôlei que se recuperou em tempo recorde para realizar o sonho de conquistar uma medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Atenas, em 2004, descreveu em detalhes o sofrimento de suas sessões diárias de fisioterapia. Eram horas de trabalho para tentar ganhar um grau de angulação no braço, que tinha perdido o movimento de giro — fundamental para atacar — por causa de uma ruptura no manguito rotador. Nalbert parecia sentir a dor de novo enquanto falava, e eu me contagiava: juro que sentia um arrepio, uma pontada no ombro ao ouvir seu relato.

No “Hello LA” da última sexta-feira, eu e Fabi Alvim entrevistamos Carol Gattaz, que encerrou a carreira por não suportar mais esse sofrimento. Carol sofreu rupturas de ligamento cruzado anterior nos dois joelhos. Na primeira vez, perdeu uma temporada e voltou a jogar, depois dos 40 anos (algo que seria impensável há algumas décadas, mas que a evolução da ciência do esporte tornou possível). Na segunda, aos 44, por mais força que fizesse, o corpo não respondia mais. Ela já sabia que teria de conviver com a dor mesmo depois de parar de jogar. Mas queria continuar, nem que fosse para ter o direito de decidir por conta própria o momento de deixar de ser atleta. E o que mais me chamou a atenção na conversa foi a forma simples como descreveu a segunda lesão: “Ouvi um barulho, achei que era uma companheira de equipe que tinha caído de mau jeito e só quando tentei dar um passo percebi que tinha sido comigo.”

Fico mais sensível nas vésperas das grandes competições. Quem se machucar agora vai ver um sonho ir embora, levado pela dor. Mas toda hora é hora de se solidarizar com quem sacrifica o corpo para a gente viver a emoção do esporte.