O primeiro drone russo movido a jato atingiu o armazém por volta das 11h de um sábado de agosto. O incêndio ficou tão intenso que os funcionários não conseguiram apagá-lo. Em poucos minutos, o segundo drone atingiu o prédio, e todos correram para o abrigo. O fogo durou quase uma semana. Quando finalmente cessou, quase tudo o que estava dentro havia sido destruído. O GLOBO no Mundo: Receba as notícias internacionais direto no seu celular Quer morar fora? Ferramenta do GLOBO reúne informações sobre custo e qualidade de vida, salários, vistos, oportunidades e características de 36 países Não era um depósito de armas, uma fabricante de drones ou uma peça da máquina de guerra. O armazém atingido pelos drones pertencia à Ranok Publishing, uma das maiores editoras de livros infantis da Ucrânia. A empresa, sediada na cidade de Kharkiv, no nordeste do país, foi atacada durante um de seus períodos mais movimentados, quando preparava livros didáticos para o novo ano letivo. — É um desastre — disse Viktor Kruglov, diretor-executivo da editora, que trabalhava no armazém com cerca de 50 funcionários quando o local foi atingido (todos escaparam ilesos). — A Rússia acha que os livros são mais perigosos para eles do que equipamentos militares. Eles deliberadamente danificam, apagam e extinguem tudo o que está ligado à cultura ucraniana.
Todos os oito milhões de livros que estavam no armazém foram destruídos, incluindo 620 mil livros didáticos. Embora o ataque tenha sido o pior do tipo, está longe de ser o único. Ao todo, os bombardeios russos destruíram até 15 milhões de livros novos nos últimos meses, quase metade da produção anual da Ucrânia, de acordo com Artem Bidenko, diretor-executivo da Associação Ucraniana de Editoras. O Ministério da Cultura da Ucrânia, que agora tenta arrecadar dinheiro para editoras independentes, estima que os ataques russos tenham causado quase US$ 40 milhões (cerca de R$ 207,6 milhões) em prejuízos à indústria de livros do país.
Os ataques fazem parte de uma guerra aérea em escalada que obrigou editoras a correr para encontrar espaço para armazenar seus livros no oeste da Ucrânia, região menos afetada do que a área ao redor da capital, Kiev. A Rússia intensificou os ataques contra armazéns — locais que guardam não apenas livros, mas também uma série de outros bens de consumo — depois que a Ucrânia iniciou uma campanha de ataques contra duas gigantes russas do comércio eletrônico. Os ataques russos prejudicaram a economia ucraniana, levando o Banco Europeu para Reconstrução e Desenvolvimento a reduzir sua previsão de crescimento econômico da Ucrânia neste ano de 2,2% para 1,5%. Brasileiros no front: Redes de Ucrânia e Rússia aliciam cada vez mais jovens para a guerra com promessas falsas na internet A lista de produtos destruídos nos ataques russos é longa: frutas e vegetais frescos, carne, trigo-sarraceno, Coca-Cola, vodca, vinho, leite infantil, brinquedos, tênis da Puma, sapatos de salto alto, peças de coleções de outono, encomendas e correspondências enviadas de perto e de longe, peças de carros da Toyota e centenas de toneladas de medicamentos, incluindo remédios que salvam vidas. Os ataques russos destruíram cerca de 40% da capacidade de armazenamento moderna da Ucrânia, segundo um importante representante do setor, embora o ministro da Agricultura ucraniano tenha apresentado uma estimativa maior. Mais de 60 trabalhadores foram mortos. Embora os ucranianos possam sentir falta das ervilhas e da cevada que desapareceram das prateleiras de alguns supermercados, os livros vão além. Eles representam ideias, transportam os leitores para outros mundos, abrem a mente para diferentes perspectivas e constroem empatia. E os livros ucranianos estão ligados ao desejo de independência da Ucrânia em relação à Rússia como poucas outras coisas. Guerra do presente: Russos utilizam Claude, IA da Anthropic, para criar software de ataque de drones kamikaze contra Ucrânia Declaração política Ao defender sua campanha para colocar a Ucrânia sob o domínio de Moscou, o presidente da Rússia, Vladimir Putin, afirmou que a Ucrânia não é um país de verdade, que todo o país fala russo, que o ucraniano é um dialeto do russo e que sua guerra tem como objetivo defender os direitos dos falantes de russo oprimidos. É verdade que a maioria dos ucranianos fala ou entende russo, especialmente no leste da Ucrânia, que hoje está em sua maior parte ocupado pela Rússia. Mas a maioria dos cidadãos tem o ucraniano como língua principal. Usar a língua ucraniana em vez do russo há muito tempo é uma declaração política, especialmente entre intelectuais. Converse com amantes de livros na Ucrânia e eles mencionarão acontecimentos históricos dos anos 1600, como a queima de livros em língua ucraniana pela Rússia e as restrições à impressão, ou a repressão soviética aos livros ucranianos na cidade de Lviv, no oeste do país, no fim dos anos 1930.
Após o fim da União Soviética, em 1991, a Rússia enfraqueceu a indústria de livros do país durante décadas, vendendo livros em russo a preços muito mais baixos. A recuperação levou tempo. No início dos anos 2000, os livros de Harry Potter publicados rapidamente em ucraniano — antes das traduções para o russo — foram best-sellers. Em 2014, a guerra secreta iniciada pela Rússia no leste da Ucrânia alimentou as brasas do nacionalismo cultural ucraniano. Mas a decisão de Putin de invadir totalmente a Ucrânia, em fevereiro de 2022, consolidou a mudança. Ucranianos que falavam russo e viviam na Ucrânia não ocupada aprenderam ucraniano. Falar russo em público muitas vezes passou a provocar olhares de reprovação ou coisa pior. Galerias Relacionadas No mês passado, um míssil balístico destruiu grande parte do mercado de Pochaina, o mais antigo e maior mercado de livros de Kiev. Um extenso labirinto de barracas vendia livros russos usados, livros da União Soviética e obras antigas de autores ucranianos. — Pessoas vinham de todo o país até nós — disse Natalia Sotnyk, que trabalhava em uma loja e afirmou que o estabelecimento tinha talvez 70 mil livros, incluindo edições russas e ucranianas publicadas antes da existência da União Soviética. — Havia muitos exemplares que você simplesmente não encontrará mais em nenhum lugar, e nunca mais encontraremos. Análise: Nem aumento do custo da guerra derrota teimosia de Putin na Ucrânia Ainda assim, o ataque provocou sentimentos ambivalentes em alguns amantes de livros, devido à grande quantidade de obras russas. Alguns disseram que, embora não ateassem fogo deliberadamente aos livros russos, não lamentavam a destruição de todo o mercado de Pochaina. A Rússia também atingiu o armazém da editora infantil que publicou os livros de Harry Potter, destruiu quase todos os livros de pequenas editoras — colocando-as em risco de falência — e danificou gravemente uma das maiores gráficas da Ucrânia, a Konvi Print. Viktoriia Haidai, que administra a Konvi, estava viajando quando um funcionário ligou para ela no meio da noite para informar que um míssil balístico havia atingido a gráfica. De chinelos, jeans e camiseta, ela dirigiu de volta a Kiev para ver bombeiros combatendo as chamas. — Lembro de uma quantidade enorme de água entrando por todos os lados — recordou. — Foi horrível porque a água chegava aos tornozelos. E percebi que toda aquela água estava caindo sobre os livros, sobre os produtos armazenados ali. Foi aterrorizante. Mas não senti vontade de chorar nem nada disso. Por dentro, era apenas raiva. Ano letivo sem livros Mais de 600 mil livros, em sua maioria didáticos para estudantes, foram danificados ou destruídos. Haidai decidiu guardar um: um livro didático de literatura ucraniana com um buraco de estilhaço no meio. As livrarias ucranianas continuam vendendo livros, sem escassez perceptível até o momento. Mas, em algumas partes do país, crianças começaram o ano letivo este mês sem livros, especialmente alunos do quarto e do nono anos, que deveriam receber novos exemplares neste ano. Ataque em larga escala: Ucrânia lança mais de 500 drones contra a Rússia e fecha aeroportos em Moscou Kruglov, 56 anos, diretor-executivo da Ranok Publishing, disse que estava tentando encontrar dinheiro e gráficas para reimprimir os livros didáticos queimados, além de tudo o mais que perdeu. Ele contou que seu livro favorito é O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry, uma paixão que compartilha com o filho, Ivan, que tem quase 6 anos. Recentemente, Kruglov encomendou exemplares de uma nova edição ucraniana do livro, a história de um menino solitário que deixa seu reino em um asteroide para explorar o universo e descobrir o significado do amor. Esses livros também foram queimados. Kruglov contou ao filho o que havia acontecido. Ivan perguntou aos pais se eles também haviam crescido durante uma guerra. Quis saber se, quando tinham a idade dele, precisavam dormir no chão de um abrigo. Ivan também pergunta com frequência se eles serão mortos por drones russos. A guerra é tudo que ele conhece. — É horrível, na verdade, porque é claro que essa guerra muda a mente dele — disse Kruglov. — Por isso tento ler para ele todos os dias, porque sei que os livros trazem um pouco de calma, um pouco de normalidade. Agora, ele lê para o filho um livro sobre o urso Paddington e outro sobre dinossauros, dependendo de seu humor. É bom afastá-lo um pouco do que acontece em Kiev.
O Globo