Os ataques cibernéticos contra sistemas de abastecimento de água dos Estados Unidos se espalharam para pelo menos sete estados e podem ter alcançado uma dimensão ainda maior, alertaram autoridades e especialistas.
Enquanto o governo americano tenta proteger a infraestrutura hídrica do país, cresce a avaliação de que a ofensiva tenha sido conduzida pelo Irã, embora as investigações ainda não tenham estabelecido de forma definitiva a autoria.
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Até o momento, não há indícios de que o abastecimento de água tenha sido alterado ou tornado impróprio para consumo.
Ainda assim, autoridades elevaram o nível de alerta diante da possibilidade de comprometimento de computadores usados para monitorar e ajustar parâmetros como os níveis de tratamento químico e a pressão da água.
Minnesota foi o primeiro estado a relatar os ataques, e Michigan confirmou posteriormente que seus sistemas também foram alvo.
Especialistas afirmam que há poucos precedentes para uma ofensiva desse tipo.
Segundo eles, trata-se do cenário frequentemente retratado em filmes sensacionalistas sobre ciberataques: uma potência estrangeira atacando infraestrutura crítica durante um período de guerra, com potencial para colocar em risco a saúde e a segurança da população.
Autoridades ressaltam que ainda não concluíram de forma definitiva que o Irã seja o responsável pelos ataques.
A investigação permanece em estágio preliminar.
Ainda assim, afirmam que Teerã intensificou suas operações cibernéticas desde que EUA e Israel iniciaram uma guerra contra o país, em 28 de fevereiro, e lembram que o governo iraniano já havia direcionado ações semelhantes contra sistemas de abastecimento de água e outras infraestruturas críticas americanas.
Também observam que não há indícios de motivação financeira, o que reduz a probabilidade de um ataque de natureza criminosa.
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Apesar da preocupação crescente, o presidente americano, Donald Trump, minimizou o caso na sexta-feira e atribuiu responsabilidade a Minnesota, estado que foi um dos primeiros a identificar e relatar o aumento recente da atividade de hackers maliciosos, levando outras unidades da federação a examinarem seus próprios sistemas de abastecimento de água.
Segundo autoridades familiarizadas com a avaliação das agências de inteligência americanas, essas invasões foram consideradas altamente prováveis de terem sido conduzidas pelo Irã.
— Acho que Minnesota está por trás disso — disse Trump ao responder a uma pergunta sobre o possível envolvimento iraniano, mencionado anteriormente pelo New York Times.
— Não acho que tenha havido um ataque cibernético iraniano.
O governador de Minnesota, o democrata Tim Walz, rejeitou a acusação.
Em publicação nas redes sociais, afirmou que “é assim que a guerra moderna se parece”.
Sem provas conclusivas
Após as declarações de Trump, autoridades federais disseram reservadamente que o Irã continua sendo o principal suspeito, mas ressaltaram que a avaliação permanece preliminar e ainda não há provas conclusivas.
Segundo elas, esse tipo de investigação costuma levar meses para chegar a uma conclusão definitiva, quando isso é possível.
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Nate George, prefeito de Braham, pequena cidade ao norte de Minneapolis atingida pelos ataques, afirmou que autoridades federais e estaduais têm poucas dúvidas sobre a origem da ofensiva.
— Estamos recebendo informações aos poucos do estado de Minnesota e do FBI.
Eles têm quase certeza de que são agentes iranianos, mas relutam em dizer isso publicamente — disse George, republicano e candidato ao cargo de auditor estadual, acrescentando que ouviu as declarações de Trump questionando a responsabilidade iraniana.
— O presidente tem direito à sua opinião, mas cabe às autoridades estaduais ajudar as cidades a fortalecer suas defesas contra ataques cibernéticos.
Um memorando obtido pela revista Wired e elaborado por um grupo do setor responsável por compartilhar informações sobre ameaças cibernéticas entre operadores de sistemas de abastecimento de água afirma que os ataques apresentam características compatíveis com atividades conduzidas por hackers ligados ao Irã.
‘Sem precedentes’
Minnesota não foi o único estado atingido.
Em nota divulgada na quinta-feira, após a publicação da reportagem do NYT, o FBI e a Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA) informaram que, desde segunda, “pelo menos sete estados relataram incidentes ao FBI, e parte dessa atividade degradou as operações dos sistemas de abastecimento”.
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Autoridades federais não informaram quais estados foram afetados.
No entanto, um porta-voz do governo de Michigan confirmou que sistemas do estado também sofreram ataques.
Ao NYT, Dale George, porta-voz do governo estadual, afirmou por e-mail que foi recebido “um pequeno número de relatos de comunidades de Michigan indicando atividades compatíveis com o que as agências federais descreveram”.
Segundo ele, todos os sistemas afetados continuavam operando com segurança e não havia “impactos conhecidos que representassem preocupação para a saúde pública”.
Mais tarde, o porta-voz informou que nove sistemas municipais de abastecimento de água em Michigan haviam registrado ocorrências.
No início da semana, Minnesota informou que hackers foram identificados tentando invadir três dezenas de municípios.
Alex Orleans, ex-contratado do governo americano na área de segurança cibernética e especialista em monitorar grupos de hackers iranianos, afirmou que Teerã conduz diversas operações de invasão contra alvos nos EUA, em Israel e no Oriente Médio desde o início da guerra, há cinco meses.
Segundo ele, porém, os ataques aos sistemas de abastecimento de água americanos representam uma escalada importante.
— O que é sem precedentes aqui é que estamos vendo efeitos diretos e concretos sobre sistemas industriais de controle em operação dentro da infraestrutura crítica dos EUA — disse Orleans, chefe de inteligência de ameaças da empresa de proteção de e-mails Sublime Security, indicando que o ataque marca um novo patamar na atuação desses grupos.
Sistemas vulneráveis
A Agência de Segurança Cibernética e de Infraestrutura dos Estados Unidos (CISA) informou, em comunicado divulgado na quinta-feira, que os hackers estavam “mirando sistemas de abastecimento de água de todos os portes” e recomendou que operadores desconectassem da internet controladores considerados vulneráveis.
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Segundo a agência, a atividade já havia “resultado em avisos para que a água fosse fervida antes do consumo e na adoção de operações manuais contínuas”.
A CISA também lembrou que vem alertando há meses sobre a possibilidade de o Irã tentar comprometer companhias de abastecimento de água e outras infraestruturas críticas.
Ex-integrantes da comunidade de inteligência e especialistas em segurança cibernética afirmaram que os invasores provavelmente atuaram de forma oportunista, em vez de selecionar cidades específicas.
Isso significa que qualquer instalação que utilize sistemas operacionais vulneráveis conectados à internet pode ter sido alvo.
Segundo Orleans, o objetivo do Irã provavelmente é comprometer o maior número possível de redes antes que elas consigam implementar medidas de proteção contra “as técnicas oportunistas sobre as quais o governo dos EUA vem emitindo repetidos e explícitos alertas”.
George afirmou que autoridades municipais receberam orientações para corrigir vulnerabilidades identificadas nos sistemas afetados e reforçar as defesas contra ataques que, segundo ele, hackers iranianos são capazes de executar.
Embora soluções manuais estejam mantendo o fornecimento de água, o prefeito afirmou que os episódios evidenciam as limitações da infraestrutura crítica de pequenas cidades.
— Acho que a questão preocupante daqui para frente é como avançaremos para um sistema mais seguro.
As atualizações da infraestrutura de tecnologia da informação são muito caras, e nós somos um município muito pequeno.
