Ataques coordenados matam ministro da Defesa e expõem crise no Mali

 

Fonte:


Os governantes militares do Mali, país da África Ocidental governado por uma junta desde 2020, enfrentaram uma crise de segurança neste domingo após ataques coordenados em todo o território por combatentes jihadistas, ligados a grupos extremistas islâmicos, e rebeldes separatistas neste fim de semana, que mataram o ministro da Defesa e, segundo relatos, deixaram uma importante cidade do norte sob controle rebelde.

Deixou recado: atirador do jantar de imprensa escreveu manifesto anticristão com incentivo a ataques a membros do governo, diz Trump

Motivação é investigada: FBI realiza buscas na casa do suspeito por disparos no jantar dos correspondentes da Casa Branca

Não houve pronunciamento do líder da junta, o general Assimi Goita, atual chefe de Estado que chegou ao poder por meio de golpes militares. Ele não é visto desde o início dos ataques ao amanhecer de sábado. As tropas do governo ainda combatiam em algumas partes do país, mas a morte do ministro da Defesa, Sadio Camara, uma das principais figuras da junta militar, no sábado, representou um duro golpe para a administração.

A ofensiva, sincronizada por rebeldes tuaregues, grupo étnico nômade do deserto do Saara, da coalizão Frente de Libertação do Azawad (FLA) e pelo grupo jihadista Grupo de Apoio ao Islã e aos Muçulmanos (JNIM), afiliado à Al-Qaeda, teve como alvo várias regiões do vasto e árido país.

Analistas afirmaram que os ataques coordenados foram o desafio mais sério aos governantes do país desde a ofensiva de março de 2012, quando rebeldes tomaram o norte do Mali, que foi repelida pela intervenção de forças francesas, que desde então deixaram o território após anos de atuação militar.

Camara, sua segunda esposa e dois de seus netos morreram após um ataque com carro-bomba à sua residência no reduto da junta em Kati, base militar estratégica nos arredores da capital Bamako, segundo familiares e uma autoridade.

Ainda havia combates neste domingo em várias áreas, incluindo Kati, Kidal, Gao e Sévaré, cidades-chave em diferentes regiões do país.

Rebeldes dizem controlar Kidal

Rebeldes tuaregues disseram à AFP que chegaram a um acordo, permitindo às forças do Corpo Africano da Rússia, contingente ligado ao Ministério da Defesa russo, que apoiam o Exército do Mali, de se retirarem da cidade de Kidal, no norte, reduto histórico dos tuaregues, que, segundo eles, está “totalmente” sob seu controle.

— Vimos um comboio militar sair, mas não sabemos os detalhes do que está acontecendo. Combatentes de movimentos armados agora tomaram as ruas — disse um morador.

O Exército do Mali havia retomado Kidal, um reduto tuaregue, em novembro de 2023 com a ajuda do grupo paramilitar russo Wagner, empresa militar privada que atuou em conflitos internacionais, encerrando mais de uma década de controle rebelde.

A FLA, composta principalmente por grupos tuaregues que defendem a independência de Azawad, território reivindicado no norte do Mali, também afirmou ter assumido posições na região de Gao, no norte.

O Mali vem sendo devastado há mais de uma década por conflitos e violência jihadista, frequentes na região do Sahel, mas os ataques de sábado foram os piores desde 2020, quando a junta tomou o poder após um golpe.

A situação em Sévaré, no centro do Mali, onde ainda era possível ouvir tiros, permanecia “confusa”, disse uma autoridade local.

Embora não haja informações ou aparições do chefe da junta, Goita, uma fonte de segurança do Mali disse à AFP que ele está em um local seguro.

Lobo solitário', agente baleado e reação internacional: o que se sabe sobre disparos no jantar dos correspondentes da Casa Branca

Moradores em alerta

Neste domingo, a calma havia retornado a Kati, onde o ministro da Defesa foi morto um dia antes.

— Os jihadistas deixaram a área, mas estamos vivendo com medo — disse um morador à AFP.

O aeroporto internacional, nos arredores de Bamako, capital do país, voltou a operar após intensos combates no sábado no distrito periférico de Senou.

— Ainda ouço as explosões ecoando nos meus ouvidos. É traumatizante — disse um morador.

Na capital, tropas bloquearam o acesso a instalações militares com barreiras e pneus nas ruas, disse um jornalista da AFP.

Os combates deixaram 16 civis e soldados feridos, causando “danos materiais limitados”, informou o governo em comunicado na noite de sábado, acrescentando que “a situação está totalmente sob controle em todas as localidades”.

A oposição, reunida na Coalizão de Forças pela República (CFR), aliança de partidos contrários à junta, afirmou em nota que o Mali está “em perigo”.

Guerra no Oriente Médio: pressão doméstica faz líderes europeus recalcularem rota e confrontarem Trump

A junta havia “prometido aos malineses segurança, estabilidade e o retorno do Estado”, disse. Após a ofensiva do fim de semana, ninguém pode afirmar seriamente que o Mali esteja pacificado ou seguro, acrescentou.

O secretário-geral da ONU, Antonio Guterres, chefe da organização internacional, condenou os “atos de violência” no Mali, disse seu porta-voz em comunicado.

— O secretário-geral pede apoio internacional coordenado para enfrentar a crescente ameaça do extremismo violento e do terrorismo no Sahel, faixa semiárida ao sul do deserto do Saara, e atender às necessidades humanitárias urgentes — acrescentou o porta-voz Stephane Dujarric.

A União Europeia, bloco político e econômico do continente europeu, condenou neste domingo os “ataques terroristas” no Mali.

O Corpo Africano da Rússia, organização sob controle direto do Ministério da Defesa russo, substituiu o grupo mercenário Wagner no apoio às forças do Mali no combate aos jihadistas.

O Mali possui recursos como ouro e outros minerais valiosos, que são estratégicos para sua economia.

Os governantes do país, assim como seus homólogos militares nos vizinhos Níger e Burkina Faso, também governados por juntas, romperam laços com a antiga potência colonial França e com vários países ocidentais, aproximando-se da Rússia.