Ataque dos EUA ao Irã não deverá gerar sanção, mas expõe complexidade da geopolítica esportiva
A primeira coluna que escrevi no ano teve como tema o ataque dos Estados Unidos à Venezuela e o dilema que poderia se apresentar à Fifa e ao COI: tratava-se de um ato de guerra, portanto passível de sanção nas competições internacionais? De lá para cá, os Jogos de Inverno transcorreram sem qualquer questionamento à participação dos atletas estadunidenses. O único veto foi ao porta-bandeira da Ucrânia, que queria usar um capacete em homenagem a seus colegas mortos na guerra contra a Rússia nas descidas de bobsled. Não vou repetir a pergunta agora, por causa do bombardeio ao Irã — o próximo grande evento esportivo é a Copa do Mundo, organizada pela entidade que criou um Prêmio da Paz para entregar a Donald Trump.
Se ainda resta alguma dúvida, é sobre a reação da federação iraniana de futebol, que poderia retirar sua seleção da competição. Dois judocas do país já tiveram de tomar uma decisão política quando se classificaram para enfrentar adversários israelenses. O governo de Teerã, que não reconhece a existência do Estado de Israel, ordenou que eles abandonassem a disputa. Nos Jogos de Atenas-2004, Arash Mirasmaeili obedeceu e foi recebido como herói; no Mundial de Tóquio, em 2019, Saeid Mollaei, campeão do ano anterior, não aceitou, teve de fugir para a Alemanha e passar a competir pela Mongólia. O Irã chegou a ser excluído dos eventos internacionais de judô após esse episódio.
Existem exemplos menos dramáticos de como os atletas de um país não necessariamente estão alinhados às decisões de seus governantes. A seleção feminina de hóquei no gelo dos Estados Unidos foi mais uma a recusar ser recebida na Casa Branca. O convite do presidente Trump tinha sido feito originalmente apenas à masculina, que também foi campeã olímpica em Milão-Cortina, e só depois estendido às mulheres, cujo desempenho nas competições internacionais é muito mais consistente. Os homens compareceram, mas alguns reclamaram que os hambúrgueres servidos estavam frios.
O ponto em comum entre esses dois extremos é que, seja na hora de enfrentar um adversário de um país inimigo ou de ser recebido por seu presidente, atletas não são apenas representantes de um coletivo nacional, e precisam ser respeitados em sua individualidade. Diante disso, não existe uma receita única para acomodar todas as questões geopolíticas dentro de competições internacionais.
Todos os atletas da Rússia e da Bielorrússia devem ser banidos por causa das decisões dos governos de seus países? O patinador ucraniano Kyrillo Marsac, natural de Kherson, uma das cidades mais destruídas na guerra, defendeu publicamente que sim. Em Milão-Cortina, teve de esperar a nota de sua apresentação ao lado de Petr Gummenik, russo que recebeu a autorização de competir sem bandeira e sem hino — exceção que o COI estuda ampliar. Israel deve receber a mesma punição, pela destruição de Gaza? Parte dos presentes às cerimônias de abertura e encerramento dos Jogos de Inverno demonstrou concordar, com vaias à delegação do país.
A trégua olímpica foi criada na Grécia Antiga, para que os participantes dos Jogos pudessem chegar a Olímpia sem serem assassinados por inimigos de outras cidades-estados. Hoje, sobrevive como um ideal que parece ainda mais complicado de aplicar.
