Ataque dos EUA a polo petrolífero do Irã eleva tensão e ameaça oferta global de petróleo
Os mercados globais de petróleo enfrentam mais uma semana de turbulência depois que um ataque dos EUA ao principal polo de exportação do Irã aumentou os riscos para o abastecimento no Oriente Médio e aprofundou preocupações sobre um conflito que já desorganizou os fluxos de energia.
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O presidente dos Estados Unidos Donald Trump afirmou no fim da sexta-feira que forças americanas atingiram alvos militares na estratégica Ilha de Kharg e ameaçou ampliar os ataques para a infraestrutura energética caso Teerã interfira no trânsito pelo Estreito de Ormuz — a estreita passagem marítima que liga o Golfo Pérsico ao restante do mundo.
O tráfego por Ormuz praticamente parou desde o início da guerra, e o líder supremo do Irã disse na semana passada que o estreito deve permanecer fechado se o conflito continuar.
A cada dia, o impacto do conflito sobre o mercado de petróleo se torna mais agudo. Embora países com capacidade para isso estejam correndo para encontrar alternativas a Ormuz, a guerra já provocou uma grande interrupção na oferta, fazendo disparar os preços pagos por barris físicos e os preços dos combustíveis.
O Irã afirmou que ataques à infraestrutura petrolífera na Ilha de Kharg levariam a retaliações contra instalações de energia ligadas aos EUA na região.
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Nos Emirados Árabes Unidos, operações de carregamento no importante hub de Fujairah foram interrompidas após um ataque com drone nas primeiras horas de sábado, bloqueando embarques pela única rota de exportação do país enquanto o Estreito de Ormuz permanece fechado. As atividades no local foram retomadas no domingo.
— Não acho que os mercados reagirão bem aos últimos desdobramentos — disse Tim Waterer, analista-chefe de mercados da KCM Trade. — Espero um início de semana nervoso, com o destino da Ilha de Kharg ainda incerto, dada sua importância para o fornecimento global de energia.
O petróleo de referência Brent crude subiu 11% na semana passada, chegando a US$ 119,50 por barril — voltando a níveis vistos após a invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022 — antes de encerrar pouco acima de US$ 103. Foi o período de maior volatilidade para o indicador europeu desde o início das negociações de futuros, em 1988.
— Continuamos avançando pela estrada em velocidade vertiginosa, na faixa da esquerda, sem qualquer sinal de quando poderemos sair pela rampa — disse Stephen Schork, fundador da Schork Group, sediada em Radnor, na Pensilvânia. Ele acrescentou que não se surpreenderia se o petróleo abrisse acima de US$ 117 por barril. — Talvez possamos até abrir acima desse nível.
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O mercado de petróleo foi lançado em turbulência após ataques dos EUA e de Israel contra o Irã no fim do mês passado, um conflito que afeta produção e exportações de energia. A Agência Internacional de Energia alertou que a interrupção no fornecimento de petróleo é sem precedentes, e os países membros concordaram na semana passada em liberar 400 milhões de barris de reservas emergenciais para tentar conter a disparada dos preços.
O tráfego pelo Estreito de Ormuz — uma rota marítima vital — permanece quase paralisado desde o início dos combates, com apenas um pequeno número de embarcações passando pela região, principalmente navios chineses e iranianos. Entre os mais recentes estavam dois navios com destino à Índia transportando gás liquefeito de petróleo e um petroleiro operado por uma empresa grega.
O presidente Donald Trump intensificou no fim de semana os apelos pela reabertura do ponto de estrangulamento, dizendo que navios de guerra serão enviados à área para ajudar embarcações comerciais a atravessar. Ele deu poucos detalhes, além de afirmar que espera que China, França, Japão, Coreia do Sul e Reino Unido enviem navios.
O secretário de Energia dos EUA, Chris Wright, disse na quinta-feira que a Marinha americana só poderia começar a escoltar petroleiros por Ormuz até o fim deste mês, acrescentando que ainda não está pronta para iniciar essas operações
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Destacando as dificuldades do plano de Trump, um alto funcionário japonês disse que qualquer decisão de enviar embarcações militares para escoltar navios enfrentaria obstáculos.
"É algo que deve ser avaliado com cautela", afirmou Takayuki Kobayashi, chefe de política do governista Partido Liberal Democrata do Japão, à emissora NHK no domingo.
Interrupções de energia no Oriente Médio
Com o fechamento efetivo de Ormuz interrompendo exportações, instalações de armazenamento no Golfo ficaram cheias, forçando alguns produtores a reduzir a produção. A Arábia Saudita, principal potência da região, aumentou os fluxos por um oleoduto que atravessa o país até sua costa no Mar Vermelho, o que pode permitir cerca de 5 milhões de barris por dia em exportações.
As interrupções também se estendem além do petróleo bruto, com derivados em alta. A Índia começou a racionar o fornecimento de gás para indústrias, enquanto os custos do combustível de aviação dispararam. A escassez de gás natural pode limitar a produção de fertilizantes, com países mais pobres da Ásia sofrendo os maiores impactos. Nos Estados Unidos, os preços de gasolina e diesel nos postos também subiram.
A Ilha de Kharg é uma instalação crucial para Teerã, responsável pela maior parte dos embarques de petróleo bruto do país. Ao anunciar o ataque, o presidente Donald Trump afirmou que instalações militares no local haviam sido “obliteradas”. A Fars News Agency, do Irã, informou que as exportações continuavam normalmente após o ataque.
“Embora as exportações de petróleo da Ilha de Kharg, no Irã, continuem, os participantes do mercado ainda aguardam uma redução da escalada do conflito”, disse Giovanni Staunovo, analista de commodities do UBS Group AG. “Com os fluxos de petróleo pelo Estreito de Ormuz ainda restritos, o caminho de menor resistência para os preços do petróleo continua sendo de alta.”
