Israel realizou, nesta terça-feira, ataques aéreos contra uma antiga base militar no noroeste da Síria, em uma ação que provocou críticas dos Estados Unidos e aumentou as tensões entre os dois aliados.
Autoridades sírias e americanas atribuíram os bombardeios a Israel, enquanto o governo do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu não assumiu diretamente a responsabilidade.
Segundo a mídia estatal síria, oito ataques atingiram a base aérea de Abu al-Duhur, na província de Idlib, sem deixar vítimas.
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O ataque ocorreu após uma delegação militar da Turquia visitar a instalação, que está desativada há mais de uma década, para discutir sua possível reabertura e reforma com apoio de Ancara.
O episódio também expôs mais uma divergência entre o governo do presidente americano, Donald Trump, e o de Netanyahu, em um momento de crescentes diferenças entre Washington e Tel Aviv sobre a condução dos conflitos no Oriente Médio.
O enviado especial dos EUA para a Síria e o Iraque, Tom Barrack, que também é embaixador americano na Turquia, atribuiu os ataques a Israel e classificou a ação como uma “escalada desnecessária que não contribui para a estabilidade regional”.
Barrack afirmou ainda que o governo do presidente sírio, Ahmed al-Sharaa, não adotou uma postura “predatória” nem manteve forças por procuração e que tem indicado repetidamente preferência pela redução das tensões com Israel.
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O governo sírio também condenou o ataque.
O Ministério das Relações Exteriores classificou a ação como uma “agressão injustificada”, uma violação da soberania e da integridade territorial do país e uma escalada que ameaça a segurança e a estabilidade da região.
Damasco pediu que a comunidade internacional e o Conselho de Segurança da ONU adotem uma posição firme contra as ações israelenses em território sírio.
A Turquia, por sua vez, também condenou o bombardeio.
O Ministério das Relações Exteriores afirmou que Israel violou a integridade territorial da Síria e o direito internacional.
Base ligada à Turquia
A instalação de Abu al-Duhur, localizada a cerca de 64 quilômetros da fronteira com a Turquia, estava fora de operação desde 2013.
O controle da base mudou de mãos várias vezes durante os quase 14 anos de guerra civil síria.
Segundo o Observatório Sírio de Direitos Humanos (OSDH), uma organização sediada no Reino Unido, os bombardeios ocorreram depois da visita de uma delegação militar turca ao aeródromo.
Dois funcionários do governo sírio disseram ao New York Times, sob condição de anonimato, que a delegação avaliava a possibilidade de reabilitar a base.
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A possibilidade de uma presença militar turca na instalação pode ter sido o motivo da ação israelense.
Em comunicado divulgado nesta terça-feira, o gabinete de Netanyahu afirmou que Israel e Síria haviam concordado com um status quo de segurança e acusou Damasco de estar prestes a rompê-lo ao permitir o envio de tropas turcas para uma base próxima a Alepo.
“Israel advertiu em várias ocasiões a Síria de que esse envio representaria uma ameaça à segurança de Israel.
A Síria decidiu ignorar essas advertências”, afirmou o gabinete.
O comunicado, porém, não reconheceu explicitamente que Israel realizou os ataques.
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A Turquia rejeitou, nesta quarta-feira (horário local), a acusação de que sua eventual presença na base representaria uma ameaça à segurança de Israel.
“As alegações levianas apresentadas pelo gabinete do primeiro-ministro israelense têm como objetivo legitimar os ataques aéreos ilegais de Israel contra a soberania e a integridade territorial da Síria”, afirmou a Diretoria de Comunicações da Turquia em um comunicado citado pela agência estatal de notícias Anadolu.
Ancara é um dos principais aliados do novo governo sírio.
A relação entre Turquia e Israel, por outro lado, se deteriorou nos últimos anos, especialmente devido à guerra em Gaza e às operações militares israelenses na Síria.
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No ano passado, Israel também atacou duas bases aéreas na província de Homs depois que delegações turcas haviam inspecionado as instalações para avaliar seu possível uso.
Divergências entre Trump e Netanyahu
A reação americana ao bombardeio chama atenção porque o governo Trump tem apoiado o novo governo sírio, liderado por Ahmed al-Sharaa, antigo integrante de grupos jihadistas que participou da derrubada de Bashar al-Assad.
Washington tem buscado fortalecer o novo governo e apoiado esforços diplomáticos para reduzir as tensões entre Síria e Israel.
Al-Sharaa, por sua vez, mostrou-se mais aberto ao diálogo com Israel do que seus antecessores, que mantiveram uma relação hostil com o país durante décadas.
Com mediação americana, representantes sírios e israelenses participaram de conversas de bastidores para tentar reduzir as tensões — as primeiras desse tipo em mais de uma década.
Barrack teve papel importante na articulação das negociações.
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As discussões, no entanto, tiveram pouco efeito sobre a atividade militar israelense na Síria.
O episódio ocorre em meio a uma série de divergências entre Trump e Netanyahu sobre a política americana no Oriente Médio.
Os dois governos têm adotado posições diferentes sobre a guerra em Gaza, o conflito no Líbano e, mais recentemente, a guerra entre EUA, Israel e Irã.
Trump também decidiu seguir uma via diplomática com Teerã em determinados momentos, apesar das objeções israelenses.
Em Gaza, Netanyahu rejeitou neste mês um acordo apoiado pelos EUA que previa o desarmamento do Hamas.
Presença militar israelense
O ataque contra Abu al-Duhur faz parte de uma campanha militar israelense mais ampla na Síria desde a queda de Assad, em dezembro de 2024.
Após a derrubada do antigo presidente, Israel realizou centenas de ataques aéreos contra instalações e equipamentos militares em diferentes regiões do país e ampliou sua presença no sul da Síria, próximo à fronteira.
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Segundo dados da organização Armed Conflict Location and Event Data (ACLED), Israel também construiu nove novos postos militares na região, além de estruturas de apoio, como estradas e redes elétricas.
As ações alimentaram temores entre sírios de que Israel esteja tentando estabelecer uma presença militar permanente no país ou expandir suas operações para além das áreas próximas à fronteira.
Israel afirma que suas operações são necessárias para impedir que grupos considerados hostis, como o Hezbollah, apoiado pelo Irã, e o Estado Islâmico, estabeleçam posições em território sírio.
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O ataque desta terça, porém, ocorreu bem distante da zona de segurança mantida por Israel no sul da Síria, e não ficou imediatamente claro por que Abu al-Duhur foi escolhida como alvo.
Uma Síria em transformação
O episódio ocorre enquanto o novo governo sírio tenta consolidar o controle sobre um país devastado por anos de guerra civil.
Al-Sharaa chegou ao poder depois que uma coalizão rebelde liderada por forças islamistas tomou Damasco e derrubou Assad, encerrando o governo de uma família que comandava a Síria havia décadas.
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Desde então, o novo governo conseguiu ampliar rapidamente sua autoridade em várias partes do país e trouxe um período de relativa calma.
A estabilidade, porém, continua frágil, com ataques esporádicos do Estado Islâmico e de outros grupos extremistas, além de episódios de violência sectária.
A mudança de governo também provocou uma reconfiguração das alianças regionais.
O regime de Assad era um importante aliado do Irã e mantinha relações hostis com a Turquia.
Al-Sharaa, ao contrário, aproximou-se de Ancara e buscou reduzir as tensões com Israel.
Para Israel, entretanto, a mudança não eliminou os riscos de segurança.
Desde a queda de Assad, Netanyahu e seus aliados passaram a defender uma política mais agressiva para impedir que forças consideradas hostis se estabeleçam na Síria.
Analistas também apontam que o primeiro-ministro enfrenta uma difícil campanha de reeleição no outono e está sob pressão para evitar concessões que seus adversários possam apresentar como sinais de fraqueza.
(Com AFP e New York Times)
