Atacado depois de cessar-fogo, Líbano vinha tentando negociar com Israel e já recusou revide; entenda
Um dia após os Estados Unidos e o Irã anunciarem um cessar-fogo por duas semanas na guerra, o Líbano foi duramente atacado em seu território, incluindo a capital Beirute, com um número de mortos que pode ter chegado a mais de 200 pessoas, apenas neste episódio. O sul do país já vinha recebendo bombardeios e incursões por terra do exército israelense nas últimas semanas, que teriam como alvo o grupo Hezbollah. Mas o território libanês virou central na última quarta-feira (8). Primeiramente, Donald Trump afirmou que o Líbano não fazia parte do cessar-fogo negociado. Posteriormente, o Irã usou os ataques ao país para justificar o novo fechamento do Estreito de Ormuz.
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Deixado de fora dos acordos, o Líbano vinha se mostrando um país disposto a negociar com Israel, e defendeu até que seu exército não revidasse ataques feitos pelos vizinhos em seu território, ainda que o alvo oficial seja o grupo armado Hezbollah, aliados dos iranianos que ficam no sul do Líbano.
No último domingo (5), o presidente libanês, Joseph Aoun, que foi comandante do exército até assumir o novo cargo, fez um pronunciamento televisionado no país em que demonstrou a sua preocupação sobre uma possível destruição de casas e da estrutura civil do sul do país por Israel. Desde o início da guerra no Irã, os militares comandados por Benjamin Netanyahu estão fazendo ataques na região.
"É verdade que Israel pode querer fazer no sul do Líbano o que fez em Gaza", ressaltou o presidente, eleito em 2025.
A preocupação tem fundamento, já que o próprio ministro das Finanças israelense, Bezalel Smotrich, já afirmou que o sul da capital Beirute logo ficariam parecidos com Khan Yunis", em referência a uma cidade da Faixa de Gaza, onde mais de 70 mil pessoas já morreram com os ataques de Israel.
Aoun também alertou para uma nova crise de refugiados, como também aconteceu com os palestinos, que poderia vir na sequência da guerra.
"Alguns perguntaram sobre negociação: 'O que ganharemos com a negociação?'. E eu pergunto: 'O que ganhamos com a guerra?'. Negociação não é concessão e diplomacia não é rendição, e nossos contatos continuam para impedir a matança e a destruição", afirmou.
Mapa de ataques israelenses no Líbano, ainda no fim de março
Editoria de Arte
Além das ameaças, a preocupação se torna ainda maior quando observados os procedimentos que Israel está tomando em relação ao sul do Líbano, parte do país com que faz fronteira, inclusive com incursões por terra. Muitas delas são parecidas com o que foi feito em Gaza, para combater o Hamas.
Para o professor de Relações Internacionais do Ibmec Tanguy Baghdadi, a lista de operações na região mostra a semelhança com o que foi visto recentemente.
"Israel está demandando a saída das pessoas das suas residências, também já anunciou uma ocupação militar no sul do Líbano. Do Rio Litani até a fronteira com Israel, essa área tem que ser evacuada, segundo Israel. Pessoas que já saíram dessas áreas não poderão voltar, as pontes foram destruídas, ou seja, você já não consegue sair mais com facilidade, cruzando o rio em direção ao Norte, e você tem o anúncio de destruição de residências, de instalações nessa área que, segundo Israel, são ou podem ser utilizadas pelo Hezbollah", afirmou ele, em análise feita durante o seu podcast, Petit Journal.
O presidente libanês, Joseph Aoun, ouve seu homólogo cipriota durante uma coletiva de imprensa
Petros Karadjias/AFP
Joseph Aoun ressaltou também que não houve possibilidade de negociações por parte da Palestina durante a guerra que buscava atacar o Hamas, no entanto, terminou com um custo humanitário muito alto para os civis. Mesmo com a parte libanesa disponível para uma negociação, ela pode encontrar dificuldades por conta da pouca disposição de Israel.
"Me parece que isso é uma tentativa de estabelecer algum tipo de diálogo. Agora, é um diálogo muito difícil de ser empreendido, pelo fato de que, para isso, você vai ter que combinar também com o Hezbollah, vai ter que ter também a anuência de Israel, que sempre leva isso como uma questão de segurança nacional, mostrando que não pode ter qualquer tipo de recuo. Ainda mais no momento em que Israel está envolvido numa guerra com o Irã e que não pode ter ameaças no norte do país, segundo o próprio Netanyahu", completa o professor, que observa a tentativa de formar um cordão de segurança naquele espaço.
Quem é Joseph Aoun?
Eleito presidente em janeiro de 2025, Joseph Aoun era comandante do exército desde 2017. Ele já chegou a sinalizar para Israel pela paz também neste momento, evitando reagir a ataques dos últimos anos. Com mais de 40 soldados mortos, ele optou por não entrar em confronto direto com o país vizinho. Ele ainda participou de mediações para um cessar-fogo no fim de 2024, com o mesmo Netanyahu.
Aoun tem 62 anos e é o 14º presidente eleito no país. No Líbano, o chefe do executivo é o primeiro-ministro, que tem maiores poderes. No entanto, o presidente ainda exerce um papel representativo para a população. Antes dele, o país havia ficado dois anos sem presidente.
O exército libanês tem reconhecidamente menos poder de fogo do que o Hezbollah, que é um dos aliados do Irã na região.
