Astrônomos descobrem astro que pode ser a primeira 'lua' fora do Sistema Solar
Um grupo de cientistas relatou em um estudo publicado nesta quarta-feira a descoberta de um astro que pode, ou não, ser considerado a primeira lua encontrada fora do Sistema Solar.
A equipe de astrônomos liderados por Kevin Hoy, do Observatório Europeu Austral (ESO), no Chile, descreve um objeto que não se parece nem um pouco com a nossa Lua ou com as luas dos planetas em torno do Sol.
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O que o cientista encontrou usando o VLT (Very Large Telescope), o maior telescópio do mundo, foi um corpo celeste quase do tamanho de Júpiter, o maior dos planetas de nosso sistema.
Esse objeto está orbitando uma "anã marrom", astro com massa intermediária entre planetas e o Sol, que em contrapartida está orbitando uma estrela.
Como uma anã marrom não é um planeta, Hoy e seus colegas dizem não saber ainda se é adequado dizer que a descoberta se trata da primeira lua extrassolar, ou "exolua", a ser encontrada.
Um termo mais abrangente e mais correto seria "exosatélite", argumenta o cientista, pois diz respeito apenas à relação gravitacional entre os dois objetos.
Independentemente do nome aplicado, o que os cientistas relatam em artigo sobre sua descoberta na revista "Nature" é que pela primeira vez foi possível observar fora do domínio do Sol um sistema estelar com três níveis hierárquicos: um objeto que orbita outro que orbita outro.
"Apesar de mais de 6.000 exoplanetas terem sido descobertos, nenhuma exolua foi detectada com certeza.
Embora existam candidatas, elas carecem de confirmação e permanecem controversas", escrevem Hoy e seus colegas.
"Neste trabalho, apresentamos evidências de um exosatélite orbitando uma anã marrom companheira."
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Para detectar o primeiro exosatélite, Hoy usou a mesma técnica empregada para detectar os primeiros exoplanetas conhecidos, na década de 1990, conhecida como análise de velocidade radial.
Esse método é baseado na frequência da luz emitida por um objeto que é captada pelos telescópios ao longo do tempo.
Quando essa frequência oscila de modo periódico, é sinal de que há uma força gravitacional secundária atuando sobre o astro observado.
Isso ocorre porque se um objeto está na órbita de outro, o mais maciço dos dois adquire um sutil "rebolado" enquanto o outro o circula.
Nomenclatura em debate
A anã marrom em questão não possui ainda um nome para apreciação pública.
É descrita na pesquisa apenas com a sigla CD-35 2722 B, derivada de sua posição em catálogos astronômicos.
O exosatélite que o circula nem sequer ganhou esse tipo de registro ainda.
Segundo os cientistas, o que é possível saber por hora é que CD-35 2722 B tem "pelo menos um" satélite com cerca de 90% da massa de Júpiter: 1,7 quatrilhão de toneladas.
Ele deve ser um corpo gasoso gigante (como Júpiter) e completa uma volta em torno de sua "mãe" anã marrom a cada 170 dias.
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Por ter revelado um conjunto de astros muito diferente do Sistema Solar, a descoberta traz de cara um problema de nomenclatura para a astronomia.
"Este sistema é um tanto difícil de definir usando termos do Sistema Solar como 'planeta' e 'lua'.
Esse exosatélite é claramente maciço o suficiente para ser um planeta, mas não orbita uma estrela, embora orbite um objeto que orbita uma estrela", explica Hoy.
"Por ser o terceiro elemento neste sistema, tendemos a chamá-lo de lua, mesmo que não se pareça em nada com as pequenas luas rochosas que temos em nosso sistema."
Disputa por primazia
Essa discussão parece antecipar um problema que pode ocorrer quando for achada uma lua que efetivamente circule um planeta extrassolar: qual cientista poderá dizer que descobriu a primeira exolua?
Uma controvérsia parecida com esta já ocorreu uma vez, quando o Prêmio Nobel de física foi concedido a dois cientistas trabalhando com exoplanetas.
Os suíços Michel Mayor e Didier Queloz foram premiados por terem detectado o primeiro planeta fora do Sistema Solar "em uma estrela de tipo solar", em 1995.
Antes deles, porém, em 1992, o polonês Aleksander Wolszczan já havia encontrado planetas em torno de um pulsar, a ruína de uma estrela morta numa explosão supernova.
Não estava claro na época se um planeta orbitando um objeto que não é exatamente uma estrela pode ser chamado de planeta, mas parte da comunidade questionou o Nobel por ter excluído Wolszczan da lista dos premiados.
No caso da descoberta de Hoy, a nomenclatura a ser adotada deverá ser importante no debate sobre reconhecimentos futuros.
É comum em astronomia que novas descobertas desencadeiem debates sobre classificação.
Por exemplo, quando uma série de corpos celestes pequenos foram achados em órbita distante do Sol, há cerca de vinte anos, isso levou a União Astronômica Internacional (IAU) a criar o termo planeta-anão.
Foi naquela ocasião, em 2006, que Plutão foi rebaixado a esta categoria, e a questão das exoluas tem potencial de causar um rebuliço similar.
— Isso certamente vai desencadear discussões sobre a definição de luas porque ainda não existe uma definição formal para o termo adotada pela IAU, e há muito debate na comunidade científica sobre pontos-chave dessa definição — disse Hoy ao GLOBO.
— Por exemplo, há discordância sobre se planetas solitários podem ter 'luas', ou se satélites ao redor de planetas só contam como luas se, por sua vez, orbitarem uma estrela.
Se anãs marrons podem ou não abrigar luas é outra questão em aberto, e o tamanho máximo permitido para o que se considera 'luas' também está em debate, o que pode afetar a classificação do satélite gigante que orbita CD-35 2722 B.
Corrida astronômica
Enquanto isso, o estudo de Hoy deve aquecer a corrida travada entre astrônomos para a detecção de uma lua em torno de um exoplaneta.
Alguns cientistas tentam fazer isso usando técnicas diferentes da usada por Hoy.
Uma delas, chamada de detecção por trânsito planetário, analisa a redução de luminosidade de uma estrela quando outro objeto passa à sua frente.
Os exoplanetas candidatos a render esse tipo de observação, porém, têm órbitas muito demoradas, e a confirmação da presença de luas em seu entorno pode levar vários anos.
Uma esperança dos cientistas é acelerar essa busca com um telescópio que o ESO está construindo e será ainda maior que o VLT: O ELT (Extremely Large Telescope).
— O ELT será excepcional na busca por exosatélites, pois terá muito mais capacidade de enxergar astros companheiros mais tênues e de menor massa, bem como luas comparativamente menores — diz Hoy.
— Quando o ELT estiver em operação, espero que a população de exosatélites ou exoluas conhecidos exploda e cresça exponencialmente, do mesmo modo que a população de exoplanetas cresceu nas últimas décadas.
