Astro da Broadway, Jonathan Groff se firma como intérprete abertamente gay que encanta homens e mulheres

 

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No ano passado, noite após noite, um ator com aparência de uma criança que acaba de abrir o presente de aniversário dos seus sonhos tem dito “Eu te amo” a 700 pessoas. São as últimas palavras que Jonathan Groff pronuncia em “Just in time”, o musical biográfico em cartaz no Circle in the Square, na Broadway, de onde ele se despedirá este mês.

Embora tenha interpretado Bobby Darin, um cantor de sucesso das décadas de 1950 e 60, Groff faz essa declaração como Jonathan Groff, homem de 40 anos com olhos arregalados que, por mais de duas horas, esteve fazendo, como seus amigos costumam dizer, aquilo para o que nasceu.

Isso significa exultar com a capacidade de cantar, dançar e atuar com uma agilidade virtuosa. Poucas estrelas do teatro hoje transmitem e recebem tamanha alegria em suas apresentações ao vivo, que se traduz em um erotismo doce e platônico.

Quando ele diz “Eu te amo” a uma plateia com quem flertou, dançou e trocou olhares, não há dúvidas de que seu sentimento é recíproco. O diretor Alex Timbers se lembrou de ter dito a Groff nas primeiras apresentações que todos pareciam acreditar que ele estava se dirigindo a cada um individualmente. A resposta de Groff: “Estou mesmo.”

Jonathan Groff em "Just in time"

Mohammed Sadek/NYT

No dia 29, quando Groff deixar “Just in time”, ele o fará com a certeza de que o improvável projeto que cultivou por oito anos — um musical jukebox sobre um boêmio frequentemente irritado, com quem teria pouco em comum — o transformou em uma figura arquetípica venerada, que desapareceu da Broadway nos últimos anos.

É o galã da comédia musical ou — para usar uma expressão antiquada — o ídolo das matinês. Embora um Groff mais jovem tenha encantado a Broadway duas décadas atrás com sua atuação indicada ao Tony em “O despertar da primavera” e como Rei George III em “Hamilton”, sua ascensão ao estrelato absoluto dos musicais só ocorreu nos últimos seis anos.

Tudo começou com a interpretação complexa e perturbadora de um nerd tímido e deformado no sucesso inesperado da Broadway “A Pequena Loja dos Horrores”, seguida por sua atuação premiada com o Tony como um produtor de cinema egocêntrico na triunfante remontagem de Maria Friedman do musical de Stephen Sondheim “Merrily we roll along”, com sua interpretação do autodestrutivo Darin em “Just in time” selando sua carreira.

Olhos nos olhos

Foi na montagem de Sondheim, contou Groff, que Friedman o ensinou a olhar nos olhos do público, algo que sempre relutou em fazer. Groff agora considera a experiência dessa conexão “transcendente” e “comovente”.

Eram personagens diferentes; Groff conseguiu evitar ser estereotipado. O próximo papel para este galã recém-anônimo? A protagonista feminina, Rosalind, em uma produção totalmente masculina de “Como gostais” pela Royal Shakespeare Company em Stratford-upon-Avon, na Inglaterra.

Michael Mayer, que dirigiu Groff em “O despertar da primavera” e “A Pequena Loja”, diz que ele se consolidou como alguém capaz de abrir e sustentar um espetáculo.

— E isso numa época em que o poder de uma estrela é uma das únicas coisas que garantem a viabilidade de um musical — lembra.

Embora os ídolos de matinê que faziam suspirar fossem um elemento básico dos musicais da Broadway em meados do século XX, nos últimos 50 anos, foram principalmente as estrelas femininas que inspiraram esse tipo de paixão. No entanto, apesar de sua beleza tipicamente americana, Groff não é um resquício dos tempos em que John Raitt e Alfred Drake dominavam os palcos.

Para começar, ele é abertamente gay. Ele aborda sua sexualidade em seu monólogo de abertura em “Just in time”, no qual analisa o que o diferencia do playboy Darin, bem como a necessidade voraz de entreter que ambos compartilham.

Ele evoca para o público a imagem picante de si mesmo quando menino, girando nos sapatos de salto alto da mãe, na região Amish da Pensilvânia, ao som dos discos do pai. Isaac Oliver, que escreveu esses discursos para Groff, lembra-se de ter perguntado: “Quão gay podemos fazer isso?” Groff respondeu: “Muito gay.”

Provavelmente a única outra estrela masculina contemporânea de musicais da Broadway que exala esse carisma intenso e transgressor de gênero é Hugh Jackman, cujas performances como o artista australiano Peter Allen em “The Boy From Oz” e ele mesmo são um protótipo do que Groff queria alcançar com “Just in time”. Outra fonte de inspiração: o especial de televisão de Liza Minnelli, “Liza With a Z”.

— Ele tem uma consciência real das pessoas que vieram antes dele — disse Oliver. — Ele tem um doutorado na universidade do YouTube de ícones e veteranos gays.

Jonathan Groff em "Just in time"

Mohammed Sadek/NYT

Antiga obsessão

Ele cresceu na zona rural da Pensilvânia (seu pai treinava e corria com cavalos). No entanto, sentiu-se atraído pelo teatro desde a infância. Na quarta série, assistiu a uma produção escolar de “Annie get your gun” e foi à Biblioteca Pública pegar emprestado o álbum original do elenco da Broadway.

— Tornou-se minha primeira obsessão — conta. — E por acaso era a Broadway clássica. Acho que é uma história tão antiga como o tempo para um jovem gay.

Na oitava série, Groff conseguiu o papel principal na peça da escola e “foi como se uma chave tivesse virado”. No último ano do ensino médio, aprendeu sozinho a coreografia de “Thoroughly Modern Millie”, um sucesso da Broadway, assistindo a uma fita VHS.

Quando soube de uma seleção para substitutos, pediu à mãe que o levasse até Nova York. Ficou sentado do lado de fora do teatro, no frio de janeiro, desde as 5h30 da manhã, para ser o primeiro artista não sindicalizado a entrar. Depois de cantar sete compassos na sua audição e receber um agradecimento formal, anunciou que também sabia a coreografia e começou a dançar. Foi chamado para a segunda fase duas vezes, mas teve de voltar para casa antes da segunda.

Mudou-se para Nova York e, aos 20 anos, fez um teste para a adaptação rock de “O despertar da primavera”. Jim Carnahan, o diretor de elenco daquele espetáculo (e de “Merrily” e “A Pequena Loja dos Horrores”), lembrou que, “desde o início, ele estava tão calmo e sereno como sempre”. Groff conquistou o papel principal romântico do rebelde Melchior. Mas ele disse que o personagem de “O despertar da primavera” era muito diferente dele.

— Ele não deixava o mundo defini-lo. Era abertamente sexual, e eu era um agradador de pessoas enrustido — lembra, ressalvando. — Senti um impulso primitivo de me colocar no lugar dele. E aquele espetáculo mudou minha vida.

A primeira coisa que fez, um mês depois de sair do espetáculo, “foi sair do armário”. A carreira começou a se desviar do roteiro clássico de nascimento de uma estrela de musicais. Ele teve uma presença comovente na remontagem de “Hair” pelo Public Theater no Central Park e foi um sucesso estrondoso no pequeno, porém memorável, papel do Rei George III em “Hamilton”.

Ele buscou papéis em produções off-Broadway e foi escalado para papéis principais em séries ousadas de streaming, interpretando tanto heterossexuais (“Mindhunter”) quanto gays ( “Looking”). E retornou ao universo dos musicais com “A Pequena Loja”.

E temos Rosalind, a heroína travestida de “Como gostais”. Daniel Evans, codiretor artístico da Royal Shakespeare Company, viu Groff em “Just in time” e, como escreveu em um e-mail, lembrou-se de “assistir a Jonathan interpretar Bobby Darin e entrar e sair do personagem, sendo capaz de mudar num instante, de transformar a atmosfera de uma sala e se conectar com o público em um nível emocional muito profundo”. Ele concluiu: “Era isso que eu queria da minha Rosalind!”

Em uma conversa, Groff — que está em um relacionamento com um homem (não ator) há sete meses e meio — de alguma forma se mostra animado e centrado. Seu camarim é uma prova de seu status duradouro de fã: uma placa de neon exibe “BARbra”, em homenagem a Barbra Streisand. Seu rosto aparece em uma vela de sete dias em seu banheiro, assim como o de Beyoncé.

Groff faz um aquecimento de dança de meia hora antes de cada apresentação e disse que nunca fica nervoso esperando para entrar em cena.

— Sou como um cavalo . É a adrenalina. É tipo ‘Vamos lá!’