Assalto no Louvre: em novo videogame, museus viram cenário de roubos para 'repatriar' obras africanas; entenda
O roubo de US$ 102 milhões em joias do Museu do Louvre, em Paris, no ano passado, chamou atenção pela audácia. Disfarçados de operários da construção civil, os criminosos burlaram a segurança em plena luz do dia, utilizaram um elevador de carga para acessar uma galeria no segundo andar e fugiram em patinetes elétricos. Foram presos dias depois, mas parte das peças segue desaparecida.
Segundo reportagem do The New York Times, o episódio serviu de contraponto curioso ao lançamento de “Relooted”, jogo de assalto que parte da premissa oposta: invadir museus não é tarefa simples. Para seus criadores, o crime real expôs fragilidades que contrastam com o universo de alta tecnologia retratado na ficção.
No jogo, uma equipe formada por um professor de história aposentado e um jovem especialista em segurança planeja furtos com o objetivo de recuperar artefatos africanos que teriam sido saqueados e mantidos em instituições ocidentais. Sensores de movimento, alarmes e portas reforçadas compõem os obstáculos de cada missão, em uma narrativa que remete a filmes como Onze Homens e um Segredo.
Debate sobre restituição
Ben Myres, diretor criativo e cofundador do estúdio sul-africano Nyamakop, afirma que o jogo não busca oferecer respostas definitivas sobre a devolução de obras. A proposta, diz ele, é provocar reflexão sem entrar em disputas diplomáticas ou na discussão sobre a infraestrutura de museus africanos. “Queremos que cada jogador tire suas próprias conclusões”, afirmou ao jornal americano.
A equipe, composta por designers de quase uma dúzia de países africanos, optou por retratar artefatos reais, mas sem identificar explicitamente as instituições que os abrigam. Em uma das missões, por exemplo, os jogadores precisam recuperar uma estatueta do século XIX do antigo reino do Daomé, hoje parte do Benim, peça semelhante está em exibição no Metropolitan Museum of Art, em Nova York.
O desenvolvimento do projeto enfrentou dificuldades financeiras. Após não convencer investidores na Game Developers Conference de 2019, em São Francisco, Myres quase abandonou a ideia. A virada veio com o apoio da agência global de talentos UTA, que viabilizou um orçamento de vários milhões de dólares, valor expressivo para um estúdio independente.
Embora tenha recebido críticas de jogadores que questionam a representação de protagonistas negros como ladrões, a equipe sustenta que a obra busca ampliar perspectivas. Nos próximos dias, Myres e a diretora de narrativa, Mohale Mashigo, participarão de um debate no Museu Fowler da UCLA com a curadora Erica P. Jones, responsável pela repatriação, em 2024, de sete artefatos do reino Ashanti ao atual Gana.
Para Jones, a aproximação entre museus e videogames é natural. Ambos, afirma, são formas de contar histórias, e, no caso de “Relooted”, de provocar novas conversas sobre memória, patrimônio e restituição.
