Ashton Kutcher reflete sobre sacrifícios pela beleza em série 'The beauty': 'Todos estão tentando se otimizar o tempo inteiro'
Pai de uma menina de 11 anos e um menino de 9, e sócio de um empresa de capital de risco, Ashton Kutcher estava totalmente dedicado à paternidade e ao papel de investidor, sem planos de voltar a atuar. Até receber uma mensagem de seu agente dizendo que Ryan Murphy, criador de séries como “Glee” e as antologias “American horror story” e “Monstros”, havia escrito um papel especialmente para ele. Tratava-se de um dos protagonistas de “The Beauty: Lindos de morrer”, cujo décimo e último episódio entrou no ar na quarta-feira (4) no Disney+.
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— Eu não estava procurando trabalho. Tenho estado muito ocupado com meus filhos pequeno e a empresa, mas, como era o Ryan Murphy, decidi encontrá-lo. Ele me explicou que eu interpretaria efetivamente um homem de 75 anos — disse Ashton, de 48, em entrevista ao GLOBO por chamada de vídeo. —Achei divertido, interessante e diferente. Nunca tinha feito isso antes.
Estética e mortes
Na ficção científica com pitadas de body horror, o americano é Byron Frost, um bilionário que resolve investir numa injeção capaz de embelezar e rejuvenescer qualquer pessoa, inclusive ele mesmo. A fórmula, ainda imperfeita, acaba contrabandeada do laboratório e provoca terríveis mortes no mundo da moda, o que chama a atenção de agentes do FBI, interpretados por Evan Peters (protagonista de “Dahmer: Um canibal americano”, da Netflix, uma criação de Murphy) e Rebecca Hall. Além deles, estão no elenco Anthony Ramos, Jeremy Pope e Isabella Rosselini, esta última no papel de esposa de Byron Frost.
Ashton Kutcher em 'The beauty'
Divulgação/Eric Liebowitz/FX
—Pensei na relevância social do tema e em como todos estão tentando se otimizar o tempo inteiro — disse Ashton, casado com a atriz Mila Kunis, mãe de seus filhos. — Seja com um corte de cabelo, com Ozempic ou Mounjaro, com cirurgia cosmética, com aparelho dentário ou até com perfume. Estamos todos tentando criar uma espécie de aprimoramento do eu para nos tornarmos mais atraentes.
O tema dos sacrifícios pela aparência anda tomando o tempo criativo de roteiristas e diretores. Em 2024, Demi Moore, com quem Kutcher ficou casado entre 2005 e 2011, estrelou “A substância”, filme com temática semelhante à “The beauty”. No papel, que lhe rendeu uma indicação ao Oscar, Moore interpretou uma atriz em decadência que topa usar uma droga capaz de deixá-la jovem novamente.
— A humanidade tem enfrentado essa questão da beleza ao longo de toda a história — reflete Ashton, que classificou a atuação da ex como extraordinária. — A diferença agora é que existe uma consciência coletiva começando a se aglutinar através das redes sociais, onde alguém do outro lado do planeta consome a mesma mídia que você. Por isso, acho que está começando a haver uma homogeneização do que é a beleza globalmente. Isso é assustador.
Apesar do caráter distópico da série, o ator — sócio da Sound Ventures, que investe em startups de alta tecnologia — acha que estamos a “cinco minutos” de muito do que se vê na tela.
— Você pode ir agora mesmo fazer terapia hormonal para ter músculos maiores. Ou um transplante capilar e, de repente, ter cabelo de novo — diz o ator. —As pessoas já estão tomando injeções em nome da beleza. Apenas não descobrimos como colocar tudo isso numa única agulha, mas não acho que estejamos longe disso. Acredito que, com os avanços da inteligência artificial, haverá uma aceleração em torno desse tipo de solução e da comercialização delas.
Descrito como “o homem mais rico do mundo” na produção, é difícil não pensar nas semelhanças do personagem de Ashton Kutcher com multimilionário Elon Musk. Ainda mais quando a esposa, Franny Frost, fala dos investimentos do marido em carros elétricos e “espaçonaves para Marte e Vênus”, segmentos em que Musk atua com as empresas Tesla e Space X, respectivamente. Mas o artista rechaça qualquer possibilidade de ter se inspirado no bilionário — ou em algum outro outro membro deste seleto clube.
“Esse cara não tem nada a ver com o Mark (Zuckerberg, criador do Facebook)”, disse o ator à revista The Hollywood Reporter. “Algumas pessoas me perguntaram sobre o Elon Musk, e o personagem não é baseado nele. Ele talvez seja o mais próximo em termos de riqueza.”
Linha de montagem
“The Beauty: Lindos de morrer” termina enquanto está no ar outra obra de Ryan Murphy, também no Disney+: “História de amor: John F. Kennedy Jr. e Carolyn Bessette”. A produção conta a história do filho do presidente americano assassinado em 1963 e de sua namorada, uma executiva de moda, que morreram num acidente de avião em 1999. A série tem feito sucesso nas redes sociais com o resgate de elementos da moda dos anos 1990. Poucos meses antes, o roteirista e diretor estava com outro projeto no ar: “Tudo é justo”, série com a influenciadora Kim Kardashian e as atrizes Sarah Paulson e Naomi Watts, espinafrada pela crítica.
Com erros e acertos, definitivamente Murphy tem uma espécie de linha de montagem de produção que deixa os atores curiosos. Outra estrela de “The beauty” no papel de um capanga de Byron que também se submete à droga experimental, Anthony Ramos chegou a perguntar para o chefe como ele dá conta.
—Ele contou que, no início, trabalhava como jornalista e precisava escrever reportagens todos os dias, entregando muito conteúdo em bem pouco tempo — contou ao GLOBO o ator, famoso por participar do musical da Broadway “Hamilton”. — Quando aprendeu a trabalhar nessa velocidade, ele descobriu que pode fazer várias coisas simultaneamente muito bem.
