Augusto Cury (Avante) teve um voo de galinha. Cresceu rapidamente ao furar a bolha da campanha, impulsionado pelas redes sociais, pelo debate e pela novidade de sua candidatura. Mas, com o início do horário gratuito de propaganda eleitoral (HGPE), esse crescimento perdeu força. A coincidência temporal é clara, mas é preciso cuidado para não transformar correlação em causalidade: o fato de a queda ter ocorrido depois do início do HGPE não significa que tenha sido provocada por ele. Calendário: A primeira pesquisa Datafolha após sessão no STF sobre relação de Vorcaro com Moraes Rali: Com nova pesquisa Quaest, Flávio Bolsonaro ultrapassa Lula no segundo turno pela primeira vez desde maio; confira O que podemos dizer é que o início do HGPE mudou o ambiente da disputa. Candidatos com maior estrutura partidária passaram a ocupar diariamente o espaço da propaganda eleitoral, apresentando propostas, construindo narrativas e explorando suas alianças. A atenção do eleitor, antes mais concentrada nas redes, no debate e na novidade de algumas candidaturas, passou a ser disputada em um ambiente muito mais amplo.
É possível que o HGPE tenha contribuído para reduzir o espaço relativo de Cury. Mas essa é uma hipótese, e não uma conclusão que as pesquisas, sozinhas, permitam sustentar. No mesmo período, ocorreram outros movimentos: a redução do efeito novidade, a maior exposição dos candidatos tradicionais, as alianças estaduais, a atuação das estruturas partidárias e a própria movimentação dos eleitores que haviam experimentado uma candidatura alternativa. Essa diferença importa. Correlação significa que dois fenômenos variam no mesmo período; causalidade significa demonstrar que um deles produziu, em alguma medida, a mudança observada no outro. No caso de Cury, temos evidência de uma associação temporal entre o início do HGPE e a perda de força nas pesquisas. Para medir o efeito causal do HGPE, seria preciso separar esse efeito dos demais acontecimentos que também mudaram durante a campanha. Dinâmica eleitoral A campanha é um processo dinâmico. O eleitor recebe novas informações, compara candidatos e pode rever suas preferências. Uma pesquisa registra esse movimento em determinado momento, mas não consegue, sozinha, dizer qual estímulo foi responsável por cada mudança. A volatilidade eleitoral no Brasil é alta, e esse tipo de trajetória não é novidade. Já analisei movimentos semelhantes em diversas eleições municipais, inclusive em disputas para prefeito. Nos cinco volumes sobre eleições municipais que organizei com Antonio Lavareda, há vários casos de candidaturas que oscilaram significativamente ao longo da campanha, à medida que exposição, estratégia, alianças e estrutura partidária redesenhavam o cenário. Por isso, interpreto o caso de Cury menos como uma anomalia e mais como uma expressão da própria dinâmica eleitoral. Ele conseguiu transformar a novidade de sua candidatura em visibilidade e intenção de voto. Depois, quando o ambiente da campanha mudou, perdeu parte desse impulso.
A relação temporal com o HGPE é um dado relevante; dizer quanto dessa queda foi efetivamente causado pelo HGPE, porém, exige uma análise que vá além da simples comparação entre o “antes” e o “depois”. O caso de Cury mostra que uma eleição não é decidida pela fotografia da largada. O candidato conseguiu crescer rapidamente ao capturar a atenção do eleitorado, mas encontrou um ambiente diferente quando a campanha ganhou corpo. E o eleitor, ao receber novas informações e conhecer melhor as alternativas em disputa, também pode rever suas escolhas ao longo do caminho. O HGPE pode ter contribuído para essa mudança, mas não explica sozinho a perda de força de Cury. Mais do que um “voo de galinha”, o episódio expõe algo mais relevante: em uma eleição competitiva, visibilidade não é o mesmo que voto consolidado, e o que parece uma tendência pode ser apenas uma etapa da disputa. * Helcimara Telles é presidente da Associação Brasileira de Pesquisadores Eleitorais (Abrapel) e professora da UFMG
O Globo