Alguns meses antes de Gloria Steinem, a feminista pioneira e escritora, morrer, ela fez algo que a maioria dos nonagenários não faz: Ela posou para uma ensaio fotográfico para uma marca de moda. As imagens, tiradas por Paola Kudacki, eram para um novo marketplace de moda virtual chamado Weldun, que tem como objetivo atender mulheres com necessidades físicas em mudança, seja por causa de lesão, doença. deficiência, gravidez ou menopausa. Após a morte de Steinem, surgiram perguntas sobre se as fotos deveriam ser lançadas, mas agora elas estão prestes a ser vistas pela primeira vez. Isso faz com que as fotos não sejam apenas suas últimas retratos formais, mas efetivamente seu último ataque a um tema que defendeu ao longo da vida: mulheres e idade, e todos os preconceitos e ideias erradas que isso envolve. Essencialmente, elas são uma declaração para posteridade sobre como é ter 92. Gloria Steinem em seus últimos retratos formais, usando seus óculos aviador característicos e pulseiras largas. Ela nunca quis parecer com mais ninguém além de si mesma. Paola Kudacki "Nunca imaginamos a importância que as imagens têm hoje," disse Carly Berlin, a fundadora de 38 anos da Weldun. Ex-artista e designer de interiores, ela começou a refletir sobre a diferença entre a moda e os corpos das mulheres em mudança depois de passar por dupla mastectomia preventiva. "Estávamos fotografando uma mulher que passou a vida desafiando a forma como o mundo vê as mulheres, e que ainda tinha muito interesse no que viria a seguir," disse Berlin. Mas, ela acrescentou, a morte de Steinem significou que a "nossa responsabilidade em relação às fotos mudou." No final, disse Berlin, eles decidiram seguir em frente – e com as imagens que eles e Steinem haviam selecionado originalmente, em vez de uma edição póstuma. "Essas fotografias não são um adeus," disse Berlin. "Não estamos olhando para uma mulher tentando se manter relevante. Estamos olhando uma mulher que nunca deixou de ser relevante." Tiradas na casa de Steinem, as imagens a mostram alternando entre sentar em uma cadeira e no seu sofa (aquele onde ela conduzia seus círculos de conversa) vestindo um suéter preto fino da Kallmeyer, suas mangas características e óculos aviador com uma jaqueta preta da Another Tomorrow jogada sobre os ombros. Às vezes ela está com uma camisa branca de botões, apoiada em uma bengala. Frequentemente, ela está rindo. Steinem, apoiada em uma bengala, queria fazer a sessão de fotos em parte para mostrar ao mundo como é ter 92 anos. Paola Kudacki "Ela recebia pedidos para ser fotografada o tempo todo, ofertas para fazer coisas ligadas a marcas, e muitas vezes não estava inclinada a ceder," disse Amy Richards, que trabalhou com Steinem por 35 anos, faz parte do conselho da fundação dela e tinha acesso às conversas dela sobre a sessão de fotos da Weldun. Steinem estava receosa de ser julgada por sua aparência e, como Richards apontou, tinha sido criticada por aparecer em uma campanha da Coach em 1998, mesmo com a marca fazendo uma doação significativa para a Ms. Foundation for Women em troca. O que fez diferença com a Weldun, disse Richards, foi que Steinem gostou da ideia de poder representar uma fase da vida que era em grande parte pouco representada — e quase totalmente não celebrada. Steinem conheceu Berlin quando a empreendedora participou de um dos seus círculos de conversa, e ela ficou atraída pelo fato de que a Weldun buscava facilitar a autonomia das mulheres em todos os momentos das suas vidas. Uma das consequências muitas vezes ignoradas das mudanças no corpo, seja uma fratura, gravidez, artrite ou o resultado da quimioterapia, é que isso pode tornar roupas que antes eram sinais da personalidade impossíveis de vestir, abotoar ou tolerar — o que pode levar à sensação de que a própria identidade foi apagada. Gloria Steinem com Carly Berlin, a fundadora da Weldun, na casa de Steinem durante uma sessão de fotos em maio para a campanha inaugural Weldun Voices. Weldun Weldun, que foi lançada no mês passado, tenta resolver esses problemas não catagorizando-os de acordo com deficiências específicas, mas identificando roupas de marcas já existentes como Kallmeyer, Rag & Bone e Another Tomorrow que já vêm com adaptações incorporadas. Para isso um comitê de curadoria de especialistas com diferentes necessidades físicas aconselha sobre todos os produtos que estão sendo vendidos. Isso pode incluir calças que cabem sobre uma bota cirúrgica, tecidos que atendem quem tem hipersensibilidade, cinturas elásticas que podem expandir ou encolher para diversos tamanhos e camisas com botões magnéticos. O ponto, disse Berlin, é que você não deveria ter que sacrificar seu senso de identidade só porque a moda não levou em conta uma condição física incomum (ou até mesmo uma típica, mas temporária). Por muito tempo depois da mastectomia, Berlin disse que não conseguia levantas os braços acima dos ombros. Isso a fez perceber: "estávamos acostumadas com nossos corpos fazendo o que precisavam para nossa roupa", ela disse, "mas realmente não o contrário." Ela queria mudar essa relação.
Essa ideia ressoou com Steinem, que sempre acreditou que suas roupas deveriam servir aos seus propósitos, disse Richards. "Ela nunca gostou de ser vestida ou forçada a usar algo — roupas, joias — que não fosse natural para ela", disse. "Qualquer coisa que a fizesse não parecer ela mesma." Steinem com um suéter da Kallmeyer e suas próprias mangas, com uma jaqueta da Another Tomorrow sobre os ombros. Paola Kudacki Berlin disse que quando a equipe da Weldun chegou à casa de Steinem para a sessão de fotos, "ela estava relaxando na cama, comendo um iogurte." Steinem escolheu as roupas que usaria nas fotos (as calças e punhos eram dela) e gostou tanto do suéter preto de mangas compridas da Kallmeyer que estava usando que eles deram para ela. As fotos agora estarão no site da Weldun, junto com uma entrevista em vídeo que a Steinem deu ao mesmo tempo, na qual ela falou sobre o papel das roupas em sua vida e como isso se relaciona com o fato de que "todas nós, como mulheres, precisamos poder tomar decisões sobre nossos prórpios corpos." (Isso faz parte de uma série chamada Weldun Voices, que também incluirá Jamie-Lynn Sigler, que vive com esclerose múltipla.) As imagens serão exibidas em meados de novembro, com uma edição limitada de impressões vendidas para beneficiar a fundação de Steinem. Quando Steinem viu as fotografias pela primeira vez, "ela disse algo tipo, 'Será que eu tenho tantas rugas assim?'" disse Richards. "Mas ela nunca disse, 'Quero que isso seja retocado.'" Ela sabia que aquelas fotos fariam parte de um legado. Sem contar que elas servem como um lembrete de que "enquanto estivermos vivendo tempo suficiente para experimentar mudanças físicas, nós vamos," disse Berlin. "Não é algo restrito. No fim das contas, é a experiência mais humana."
O Globo