As mulheres que curavam o Rio e foram perseguidas
No centro do Rio, lê-se “Beco dos Barbeiros”. É uma pequena viela entre a hoje Primeiro de Março e a Rua do Carmo. No Brasil Colônia, os barbeiros, além do ofício que o nome carrega, também extraíam dentes e, entre tantas tarefas, faziam pequenas cirurgias – esse espaço da cidade era ocupado por eles, por isso a lembrança. Carentes de médicos e ainda em um período em que nem havia Faculdade de Medicina no país, eram esses profissionais que normalmente resolviam os problemas de saúde. Bem, o que escrevi até aqui, creio que muitos já leram ou até mesmo escutaram. Então, agora vamos entrar em um universo que não tem placas e nem reconhecimento.
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Pelas ruas do Rio, no mesmo período, curandeiras, rezadeiras e benzedeiras eram soluções para diferentes problemas de saúde. Espinhela caída? Dor de cabeça? Na perna? Febre? Hemorragia? Munidas dos saberes milenares em ervas medicinais, raízes e orações, elas contribuíam para o enfrentamento dos desafios terrenos e também divinos. Caso você sentisse mau-olhado ou, quem sabe, fosse vítima de tentações diabólicas, uma profissional especializada no negócio resolvia. Um amuleto de limpeza é vivíssimo até hoje: o galho de arruda. Era comum que o pagamento pelo serviço fosse com galinhas, ovos, pão.
Em um país colonizado com nome de Vera Cruz, pense só como essas mulheres eram tratadas. Exemplos de perseguição se espalharam por todo o país. No Grão-Pará, Ludovina Ferreira, no século XVIII, foi acusada de ter curado pessoas. Foi parar no Santo Ofício. Em Sabará, Minas Gerais, escravizados apresentaram melhora após serem recebidos por Luzia Pinta. Foi enviada para Europa. Eram denúncias de curanderismo. No início do século XX, já depois de muito tempo, ainda havia intensas hostilidades. Em jornais, lia-se que era preciso prender.
Por falar nos esquecidos...
No Engenho de Dentro, Zona Norte do Rio, existe o Museu de Imagens do Inconsciente. As obras expostas foram criadas por pessoas que a sociedade havia decidido ignorar. E a mulher que ajudou a construir esse lugar fez isso porque, um dia, se recusou a obedecer.
Nise da Silveira nasceu em Maceió, em 1905, e foi uma das primeiras mulheres a se formar em Medicina no Brasil. Ainda jovem, foi trabalhar no Centro Psiquiátrico Nacional Pedro II, no Engenho de Dentro. O que ela encontrou foram pacientes submetidos a eletrochoque e lobotomia, tratamentos que ela considerava violentos e desumanos. Recusou-se a aplicá-los. Por isso, foi punida: enviada ao setor de terapia ocupacional, o lugar onde ninguém queria estar.
Com rara coragem, Nise criou ateliês de pintura e modelagem, oferecendo aos pacientes algo que a medicina convencional nunca havia pensado em dar: uma linguagem. As obras produzidas naquele espaço chamaram atenção. A musicoterapia também chegou ao centro, em parceria com uma jovem enfermeira chamada Yvonne Lara da Costa. Ou melhor, Dona Ivone Lara.
Com entrada grátis, o Museu funciona de terça a sábado, das 10h às 16h.
A quitandeira que virou símbolo
No Largo da Misericórdia, bem no centro do Rio, havia uma banquinha. Atrás dela, uma mulher negra vendia laranjas. Na frente, a Faculdade de Medicina. Os clientes de todo dia eram os estudantes — republicanos fervorosos, encasacados, cheios de opinião sobre o futuro do país. Sabina conhecia cada um pelo nome.
Era julho de 1889. O Império agonizava. E qualquer fagulha podia virar incêndio. Em um daqueles dias, a diligência do Visconde de Ouro Preto, figura graúda do regime, passou em frente à escola. Os estudantes não deixaram a oportunidade escapar: despejaram sobre a carruagem oficial as frutas do tabuleiro de Sabina. Bananas. Tomates. Laranjas. A resposta do subdelegado Jacome Lazary veio na manhã seguinte: ele chegou com policiais, expulsou Sabina do ponto aos berros e apreendeu tudo. Acabou com o ganha-pão de uma mulher que, há pouco mais de um ano, havia saído da escravidão.
A cidade não aceitou.
No dia 25 de julho, os estudantes saíram em cortejo. Eram cerca de trezentos, e foram crescendo pela cidade. À frente, Sabina, de roupa de baiana. Laranjas espetadas nas pontas de bengalas e guarda-sóis. Coroas de bananas, chuchus e outros legumes erguidas como estandartes. Faixas pintadas à mão chamavam Lazary de “eliminador das laranjas”. Um músico animava o desfile. A turma rodou o centro do Rio, parou em frente às redações dos jornais e despejou as coroas de legumes na porta do Chefe de Polícia. O povo aplaudia das calçadas. Senhoras acenavam com lenços das janelas.
Resultado? Lazary pediu demissão. Sabina voltou ao ponto. E o Império, que já estava cambaleando, ganhou mais um arranhão na imagem.
O episódio virou canção. Arthur Azevedo compôs o lundu “As laranjas da Sabina” e o incluiu na revista A República, escrita com o irmão Aluísio de Azevedo.
Fica o convite
Essas e muitas outras figuras irão permear minha aula pública, amanhã, sábado (9), na Feirinha Literária de Santa Rita, no Largo de Santa Rita, no meu amado Centro. Grátis. Às 14h.
