As memórias de Elis, Vinicius, Renato Russo e Portinari em endereços que hoje estão disponíveis; veja fotos
Doidões de mescalina, Elis Regina e Nelson Motta se embolaram numa espreguiçadeira da varanda da casa em São Conrado onde ela morava com o marido, Ronaldo Bôscoli. Em Ipanema, Renato Russo gargalhava nas sessões de pornochanchada que promovia para os amigos em seu apartamento, onde também eram habituais as sessões de tarô. Na Gávea, era na casa de sua mãe e de sua irmã que Vinicius de Moraes se recolhia toda vez que terminava um casamento — foi muito para lá, então, já que se separou bastante. Candido Portinari encomendou a Oscar Niemeyer o projeto de um ateliê no casarão em que morava no Cosme Velho. Precisava conceber “Tiradentes”, sua icônica obra em larga escala, num local que comportasse o trabalho. Testemunhas inertes das mais espetaculares histórias de seus antigos moradores, cenários de encontros memoráveis da cultura brasileira, estes imóveis têm algo em comum: estão disponíveis.
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Cada uma do seu jeito, estas casas resistem de pé. São lugares lendários de um Rio que passou, mas abrigaram personalidades ilustres, suas intimidades, dores, alegrias e criações. Cada imóvel resiste por um motivo específico.
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Com uma vista limpa para o mar, cravada no costão por onde passa sinuosa a Avenida Niemeyer, que liga as praias de São Conrado e Leblon, está lá a casa que pertenceu a Elis Regina e Ronaldo Bôscoli, duas das figuras mais importantes da cena musical dos anos 1960 e 1970, e um dos casais mais explosivos da época, conhecido pelo amor meteórico e pelas brigas homéricas.
Fachada da casa onde Elis Regina e Ronaldo Bôscoli moraram de 1967 a 1973
Divulgação
Grandes festas
Elis comprou a casa na mesma época em que se casou com Bôscoli, incentivada por ele. A cerimônia religiosa aconteceu em dezembro de 1967, na Capela Mayrink, no Alto da Boa Vista, seguida do casamento civil junto à festa badalada naquela casa de estilo mediterrâneo, projetada pelo arquiteto Fernando Portuguese nos anos 1950. Foi na mansão de 350 m², de fachada azul e branco, com espaçoso terraço no último andar, que Elis ficou grávida de João Marcello Bôscoli. Também foi lá que o casal recebeu um sem-número de personalidades não só da música, mas de outras áreas, como os jogadores da Seleção Brasileira que ganhou a Copa do Mundo de 1970, em noites intermináveis regadas a uísque importado. O imóvel também foi palco das mais escandalosas brigas do casal. Numa delas, Elis Regina arremessou pela varanda todos discos de Frank Sinatra que eram xodó do marido.
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Energia criativa
Dos imóveis disponíveis para venda ou para locação visitados pelo GLOBO, a “casa de Elis” está em melhor estado de conservação. Caiu nas mãos de um francês caprichoso, Roman Carel, que iria vendê-la, mas desistiu, encantado com o lugar e sua história. Anunciada num site com locação por temporada, está ao alcance de qualquer mortal disposto a pagar a diária em torno de R$ 3.500 em baixa temporada. No carnaval, ultrapassa os R$ 23 mil.
— Sou estereótipo de francês que chega no Brasil e se apaixona — diz Roman Carel, herdeiro de uma grife francesa de sapatos. — Comprei de uma mulher que me falou que era a casa da Elis, mas não tinha um conhecimento profundo sobre ela. Entendi que era de famosa, mas não tinha noção. Tem muitas fotos dela tocando violão no terraço da casa. Um ano depois, comecei a perceber como a casa é tão Rio de Janeiro. De espírito, de vista, de energia, de contemplação. É uma casa de energia criativa porque tem contemplação. Sempre tem um show do mar, do céu das nuvens. Desisti de vender.
Terraço da casa de Elis Regina: cantora viveu um romance com Nelson Motta quando ambos eram casados; caso começou na espreguiçadeira ao lado da piscina
Divulgação
João Marcello Bôscoli, que nasceu ali, guarda poucas lembranças do local.
— Tenho fotos em que estou num cavalinho, nessa casa. Mas são lembranças muito esparsas. Saí dessa casa com menos de 3 anos. Só tive acesso a essas memórias e vi que eram reais quando voltei lá muitos anos depois. Já me ofereceram para comprar, mas não fazia muito sentido para mim — conta.
Em seu livro “Noites tropicais”, Nelson Motta relata o episódio em que teria se relacionado amorosamente com Elis pela primeira vez, na espreguiçadeira à beira da piscina. Ambos eram casados. A mescalina foi um presente de Tim Maia. “Ficamos abraçados debaixo da manta e começamos a nos beijar”, descreveu. Bôscoli estava em São Paulo. Motta narra a sensação na manhã seguinte: “Completamente apaixonado por Elis e carregando uma culpa monstruosa, dirigi pelas curvas da Avenida Niemeyer sem saber se ria ou se chorava”.
'A alma dele ficou naquele apartamento'
Foi num prédio baixinho de um apartamento por andar, sem elevador e sem porteiro, desses típicos da velha Ipanema, que Renato Russo, o líder da Legião Urbana, viveu seus últimos anos. O dele era o 201, tinha três quartos, duas salas, piso de taco, tudo distribuído em confortáveis 136 m². Renato morou lá durante seis anos, até morrer em decorrência da Aids. À época, o médico do cantor afirmou à imprensa que ele escolheu morrer em casa. Renato partiu numa sexta-feira, 11 de outubro de 1996, deixando muita gente surpresa, já que sua condição foi mantida sob muita discrição.
Também discreto é Giuliano Manfredini, filho e único herdeiro de Renato, que ficou com o apartamento. Faz um tempo que ele tenta vendê-lo. Anunciado ao longo do ano passado por R$ 2,8 milhões, o imóvel teve sua venda suspensa recentemente. Ao GLOBO, o corretor disse que ninguém o comprou. A reportagem não conseguiu contato com Giuliano Manfredini.
Edifício na Rua Nascimento Silva, em Ipanema, onde morou o cantor Renato Russo
Gabriel de Paiva / Agência O Globo
—Acho que a alma do Júnior ficou naquele apartamento, e a pessoa que se mudar tem de gostar muito dele — diz o ator Maurício Branco, amigo íntimo de Renato, a quem chamava de Júnior. — Eu moro num prédio parecido, só que no Leblon. Ele morava com uma tia na Ilha do Governador, viu o meu e falou que queria um igual. Achei que teria que ser um apartamento faraônico para o porte da estrela dele, mas o Júnior era uma pessoa muito simples.
Numa mesa embutida em um dos cômodos, há uma queimadura de cigarro do tempo em que Renato viveu por lá. Outro detalhe que atrai fãs é que a porta do prédio serviu de cenário para a capa do primeiro disco solo do cantor e compositor, “The Stonewall Celebration Concert”, lançado em 1994. Em 2023, o prédio ganhou a placa azul de patrimônio cultural carioca fixada pela prefeitura do Rio em lugares icônicos da cidade.
—O apartamento é um charme. Fico surpreso de não ter sido vendido ainda. Júnior foi muito feliz lá. E era uma escola. Ele promovia sessões de cinema, gostava muito de filmes trash, pornochanchadas. Era muito professor, gostava de explicar os filmes. Foi lá que ele me mostrou “Romeu & Julieta”, do Franco Zeffirelli (neste momento o ator chora). Teve uma vez que vimos um filme erótico muito caído, abaixo do nível do ruim. Foi a maior crise de riso que tive na minha vida (risos). Ele também adorava sessões de tarô, e fazia reuniões para discutir filosofia — conta Maurício.
Capa do disco "The Stonewall Celebration Concert", de Renato Russo, com imagem feita na porta do prédio onde morava o cantor
Reprodução
Certa vez, Renato Russo recebeu um hóspede ilustre:
— O Dead Kennedys (banda de punk rock americana) fez um show no Circo Voador. Fomos, e o Júnior, que era louco pela banda, quis hospedar Jello Biafra (o vocalista). Ele ficou uns 5 dias em Ipanema conosco. Lembro dele falando que estava com medo de encontrar jacarés. Falei “porra, você é cantor de banda punk”. Ele ficou apavorado — diverte-se o ator.
Se as casas de Elis e de Renato Russo estão em ótimo estado, o mesmo não se pode dizer do casarão centenário na Rua Cosme Velho, no bairro homônimo, onde morou Candido Portinari (1903-1962) de 1943 a 1950. Com dois andares, cinco quartos e 470 m² de área construída num terreno de dois mil metros quadrados, a casa está precisando de uma reforma completa. O atual dono chegou a repassar à família do pintor, de quem é amigo, com a condição de que a transformassem num centro cultural em memória de Portinari.
Casarão de Portinari no Cosme VElho está à venda por R$ 2,5 milhões
Fabiano Rocha / Agência O Globo
— Aí começou uma longa epopeia de procurar recursos para que pudéssemos transformar a casa em um centro de educação, de artes, de ciência, de cultura, fazer inclusive dali um centro de formação de professores da rede pública do Rio de Janeiro — diz ao GLOBO João Candido Portinari, filho do pintor. — Procurei vários prefeitos, ao longo de muitos anos, empresários, procurei sensibilizar a sociedade brasileira. Houve vários artigos em jornal, programas de televisão. Mas não conseguimos, e devolvi ao proprietário.
João Candido conta que lá o seu pai produziu mais de 1.100 obras, incluindo algumas de suas mais famosas, como a série “Retirantes” e o painel “Tiradentes”. Para conceber a última, que mede 18 metros de comprimento, Portinari teve de construir um ateliê novo, anexo à casa, projetado por Oscar Niemeyer.
O painel 'Tiradentes', de Cândido Portinari, em exposição no Memorial da América Latina, em São Paulo
Maria Isabel Oliveira / Agência O Globo
— Também era um lugar de encontros. Minha mãe fazia macarronadas homéricas. Os convidados não tinham hora para chegar, nem para sair. Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Jorge Amado, Heitor Villa-Lobos, Oscar Niemeyer, Lúcio Costa, Graciliano Ramos, Cecília Meirelles. Ficavam lá discutindo o Brasil, arte, cultura, política, mundo. É uma lástima que toda essa história se perca. Se fosse na Europa, fariam ali um espetáculo, com vultos desses personagens quem sabe projetados, reproduções desses diálogos. Isso não pertence a mim, nem ao Projeto Portinari, nem à nossa família. Pertence ao povo brasileiro, à humanidade — lamenta João.
A casa está à venda por R$ 2,5 milhões. É tombada desde 2011 pelo Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (Inepac).
Refúgio do poeta
Na Rua das Acácias, na Gávea, a casa que pertence à família de Vinicius de Moraes também abrigou encontros célebres. Recentemente, viralizou no Instagram uma gravação da televisão italiana RAI em 1977 onde o poeta está com Marta Santamaria, sua esposa argentina, Susana de Moraes e seu marido Robert, Tom Jobim, Ana Jobim e Gilberto Gil.
Casa da família de Vinícius de Moraes, na Rua das Acácias, na Gávea: disponível por R$ 2,9 milhões
Guito Moreto / Agência O Globo
— Frequentei muito essa casa ao longo da minha união com ele — relata Gilda Mattoso, ex-mulher de Vinicius. — É uma comprida, profunda, dois andares. Tinha essa sala com um piano da mãe do Vinícius, sofá, poltronas, e depois o pequeno hall da escada, quintal. Ele ficava lá quando se separava. Me lembro de estar lá e Chico Buarque passar com Silvinha e Helena, suas filhas pequenas. Silvinha era afilhada de Vinicius.
Foi na banheira do segundo andar que Vinicius, após passar a madrugada compondo com Toquinho, se sentiu mal, e morreu pouco depois, no dia 9 de julho de 1980. A casa de 300 m², que em 2024 estava à venda por R$ 3,9 milhões, hoje continua disponível, mas por R$ 1 milhão a menos. A família do poeta trata a venda com discrição e evita contato com a imprensa.
