Artista compra banca de jornal em Ipanema para fazer eventos culturais, é obrigada a mudar de ponto e estrutura acaba recolhida pela prefeitura
Uma banca de jornal comprada por uma artista plástica para sediar exposições, lançamentos de livros e pequenos encontros culturais em Ipanema acabou recolhida quatro dias após ser transferida de endereço. A estrutura foi levada pela artista plástica Christine Moutinho para a Rua Joana Angélica na segunda-feira (9), seguindo orientação da prefeitura, de acordo com ela, e retirada por fiscais da Secretaria municipal de Ordem Pública (Seop) na sexta-feira (13).
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Christine diz que comprou a banca quando ela ocupava um ponto na esquina das ruas Nascimento Silva e Garcia D’Ávila, em Ipanema. A ideia era transformar o espaço em um pequeno polo cultural de rua, com eventos em formato intimista. Em dois anos, calcula, gastou mais de R$ 200 mil com o projeto.
— Eu achei que seria legal fazer exposições, lançamentos de livros e pequenas apresentações musicais, lembrando um pouco a época da bossa nova — conta.
O projeto recebeu o nome de "Um Tom a Mais", em referência ao movimento musical que marcou a história cultural do bairro. A iniciativa também tinha um significado pessoal para Christine. Ela conta que, no início da carreira, recebeu incentivo do compositor Tom Jobim, um dos principais nomes da bossa nova.
— Na minha primeira exposição de arte, o maestro Tom Jobim me ajudou. Ele chegou a assinar o convite — lembra.
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Saída do ponto original
De acordo com Christine, a banca precisou deixar o endereço original após mudanças urbanísticas na área. No local está previsto um novo empreendimento imobiliário.
— Foi por causa dessa obra que a banca teve que sair dali — afirma.
Após a retirada do ponto original, a estrutura foi levada para a Rua Joana Angélica, onde permaneceu por poucos dias. Christine afirma que o novo local acabou se mostrando inviável.
— Quando eu cheguei lá, vi que era em frente à entrada de um prédio. As pessoas praticamente não teriam como entrar no edifício. Eu mesma avisei que aquilo era impossível de funcionar — diz.
Quatro dias depois da mudança, fiscais determinaram a retirada da banca, que foi levada para um depósito municipal.
— A banca chegou lá no dia 9, e no dia 13 (sexta-feira passada) eles recolheram — relata.
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Projeto chegou a funcionar
Apesar das dificuldades, o espaço chegou a abrir em alguns momentos.
— Nós fizemos duas inaugurações que foram muito legais. Tenho tudo documentado — afirma.
A proposta era que a banca funcionasse como um pequeno ponto de convivência cultural. Além das exposições de arte e encontros com música e literatura, o local também oferecia alguns alimentos, como doces, salgados, quiches e bolos. No fim do ano passado, Christine também montou uma vitrine temática de Natal no local, aproveitando sua experiência como cenógrafa ligada ao carnaval.
— Eu fiz uma vitrine de Natal cenográfica e muitas pessoas paravam para fotografar — conta.
Para Christine, a proposta era também uma tentativa de resgatar o papel cultural das bancas de jornal na cidade.
— Hoje elas vendem bala, bebida, cigarro. Menos cultura. Eu queria justamente revitalizar esse espaço — diz.
O que diz a Seop
A Seop confirma que a banca foi levada para a Rua Joana Angélica com autorização da pasta, "o que gerou uma série de reclamações de moradores da região. A proprietária, inclusive, chegou a relatar algumas dessas reclamações". Daí a decisão de retirar a banca daquele espaço, informa. Perguntada se a indicação do local para instalar a estrutura teria sido feita pela própria secretaria, porém, não respondeu.
"Cumpre destacar que qualquer cidadão quando recebe da prefeitura uma autorização para instalar uma banca em determinado ponto não detém consigo a posse daquele espaço. Trata-se de uma concessão que pode ser revogada a qualquer momento pelo Poder Municipal".
A Seop diz que agora Christine teria duas opções: levar a banca para um espaço privado, ainda que temporariamente, ou aguardar o trâmite legal de autorização para a escolha de um novo ponto caso queira instalá-la em local público.
"Vale destacar que a proprietária deverá apresentar três novos endereços para avaliação do setor responsável em processo municipal já existente", conclui a nota.
Christine, porém, diz que pretende desistir do projeto. Mas que continuará desenvolvendo iniciativas ligadas à arte.
— A cidade precisa de espaços culturais, mesmo que sejam pequenos. Desisti da banca, mas vou lutar pelos meus direitos e entender, inclusive com advogados, se cabe algum tipo de reparação ou acordo. Se não querem que a banca funcione, por que permitem que a licença seja vendida? Nós estamos sempre nos reinventando. O artista faz isso: se adapta, olha para a situação de outra forma. Uma característica forte em mim é a ousadia, e é assim que vou seguir — afirma.
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