Artigo: Ranking sem transparência produz distorção e desinformação
O debate público sobre pesquisas eleitorais é não apenas legítimo, mas necessário. E tem encontrado amplo espaço na mídia, nas instituições legislativas, jurídicas, e no próprio setor, liderado pela Associação Brasileira das Empresas de Pesquisa (Abep), e envolvendo outras entidades como a Associação Brasileira de Pesquisadores Eleitorais (Abrapel) e Associação Brasileira de Ciência Política (ABCP). A relevância do tema reforça a cautela, a responsabilidade e o rigor técnico com que deve ser abordado, de modo a evitar que análises imprecisas levem a juízos inadequados e comprometam a credibilidade das pesquisas.
Foi exatamente o que ocorreu com um ranking de institutos de pesquisa realizado pelo Banco BTG Pactual e divulgado em nota recente de O GLOBO. O primeiro ponto que chama atenção é a falta de transparência na divulgação, já que o referido relatório e sua metodologia não foram disponibilizados às empresas citadas e ao grande público, circulando restritamente no mercado financeiro. Isso, per si, já indica o caráter enviesado e suspeito do tal ranking.
Não há ranking tecnicamente válido e crível sem exposição integral e sem auditabilidade. Qualquer hierarquização perde validade e se torna interpretação distorcida ou simplificação enganosa sem divulgação completa dos critérios de seleção das pesquisas e dos institutos, das métricas utilizadas, dos recortes temporais adotados, das ponderações estatísticas aplicadas, sem considerar as diferentes margens de erro derivadas dos distintos tamanhos das amostras, e os parâmetros de comparabilidade entre as distintas eleições. Outro grave equívoco é fazer essas comparações seguindo modelos americanos, por duas diferenças básicas em relação às eleições brasileiras, a nossa pluralidade de candidaturas e o voto obrigatório.
Ademais, a própria noção de “acerto” e “erro” em pesquisas eleitorais é frequentemente mal compreendida. Pesquisas de intenção de voto medem atitudes em determinado momento, não comportamento. Como sempre defendemos no Ipespe, pesquisas não são prognósticos, e sim instrumentos para captar movimentos, identificar tendências, analisar segmentos. (COP/ABEP. PESQUISA ELEITORAL: O FIM DAS DÚVIDAS. LAVAREDA: Por que as pesquisas eleitorais não podem ser interpretadas como prognósticos eleitorais? 02/05/2022). Diversos fatores intervenientes precisam ser considerados na análise dos números, como o voto estratégico, a volatilidade do eleitorado, a categoria da eleição e a migração de voto na reta final. Ignorá-los compromete por completo a construção de uma leitura consistente sobre as pesquisas.
No Brasil, o desafio do chamado “acerto” das pesquisas é ainda maior, pois a obrigatoriedade do voto produz o constrangimento do entrevistado em admitir que não vai votar, deixando indefinido nas pesquisas o percentual de quem não comparecerá às urnas no dia da eleição. Em 2022, por exemplo, mais de 32 milhões de eleitores não foram votar, e essa abstenção não se distribui de forma homogênea nos diversos segmentos da sociedade. Inevitavelmente “prejudicando” de forma desigual os candidatos conforme o perfil de suas respectivas bases eleitorais.
A literatura aponta, também, institutos cujos resultados discrepam dos demais durante quase toda a campanha, só convergindo na reta final. Ou seja, que “ajudam” candidatos durante quase todo o tempo e às vésperas da votação procuram “acertar” os resultados aproximando-se dos demais (herding) para depois reivindicar credibilidade. Fato que desaconselha fortemente a consideração apenas da “última pesquisa” dos mesmos.
Diferentemente da interpretação equivocada do ranking divulgado, os dados históricos de resultados das pesquisas Ipespe demonstram consistência e qualidade na captação de tendências eleitorais. Apesar de não buscarmos prognósticos, nas eleições presidenciais desde 2002 nas quais o Instituto divulgou pesquisas (2006, 2018 e 2022), os números finais das pesquisas se aproximaram dos resultados do TSE dentro das margens de erro. No 1º turno da eleição de 2022 o Ipespe, utilizando a menor amostra (1.100 entrevistados), foi o único que cravou os 33%, arredondados, de Bolsonaro, na comparação tecnicamente correta que é a realizada entre o total do eleitorado e os totais das pesquisas. (Votos válidos ou votos totais? Pulso. O GLOBO, 18/10/2022).
O Ipespe atua em estudos em ambientes institucionais e acadêmicos nacionais e internacionais, o que reforça exigência e compromisso com rastreabilidade e verificabilidade das informações produzidas. Atravessou quatro décadas de eleições no Brasil e em outros países sob escrutínio público.
Defendemos um debate público qualificado, transparente, à altura da complexidade das pesquisas eleitorais no Brasil, da qualidade e responsabilidade técnicas das empresas que atuam no setor. Rechaçamos veementemente as tentativas de desqualificação do papel dos institutos, cuja importância é indiscutível para a ampliação do acesso à informação confiável e para o fortalecimento da democracia.
