Artigo: polarizar contra a polarização é caminho para gerar credibilidade entre eleitores independentes

 

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Os dados das últimas pesquisas quantitativas de opinião pública revelam uma armadilha ainda não resolvida para parte dos eleitores brasileiros. Enquanto existe um segmento que procura uma opção fora da polarização — os 33% que se autodeclaram independentes —, ele não encontra, ao mesmo tempo, um candidato à altura que possa representar esse desejo. Trata-se de uma “avenida” de eleitores que vivenciam uma encruzilhada, misto de desencanto e frustração, um sentimento de ressaca emocional, que define uma nova gramática do desencanto: votar em alguém que não querem.

Quais são as diferenças nos afetos desse coletivo em relação aos eleitores declaradamente lulistas e bolsonaristas? Uma primeira leitura é clara: o campo conservador é mais homogêneo em relação aos sentimentos. A distância afetiva entre quem se autodefine da "direita não bolsonarista" para os bolsonaristas é menor. A distância no campo progressista é maior, tem mais tonalidade. Por outro lado, os afetos dos independentes estão mais próximos aos da "esquerda não lulista".

Vejamos alguns dados da Pesquisa Quantitativa feita pelo Projeto Plaza Publica em dezembro de 2025 com 2.234 respondentes. Ao questioná-los sobre quais imagens representam o Brasil hoje, encontramos quatro territórios afetivos. São eles o da Expectativa (tem esperança/visualiza um caminho, com perguntas); o do Potencial (otimista/ilusionado, enxerga um plano e direção); o da Angústia (dúvidas e desencanto, anseios sobre o que pode acontecer); e, por fim, o da Instabilidade (raiva/colapso/sobrevive no dia a dia).

Se olhamos os dados de dois desses territórios, aqueles que definem os extremos (Instabilidade e Potencial), observamos essa dinâmica mencionada. São 38% do total os respondentes que escolhem imagens que definem o território da instabilidade. Esse dado diminui para 34% entre os independentes, cai para 24% na esquerda não lulista e sobre para 53% na direita não bolsonarista.

O mesmo fenômeno acontece quando observamos o território do Potencial: 16% do total escolhem imagens dele, o mesmo percentual nos independentes. Esse índice é de 18% na esquerda não lulista e soma apenas 6% na direita não bolsonarista. Ou seja, o campo emocional se ordena de forma díspar: as emoções da esquerda não lulista estão num ponto intermediário entre os lulistas e independentes. As emoções dos bolsonaristas e da direita não bolsonarista estão muito próximas.

O que permite pensar que polarizar contra a polarização pode ser um campo favorável para quem consiga gerar credibilidade entre os independentes. Esse espaço parece estar mais próximo, em termos afetivos, da esquerda não lulista. Não estamos falando do que pensam sobre economia ou posse de armas para se defender da violência, por exemplo. E, sim, sobre como mediatizam suas emoções, como colocam em palavras os afetos. Os campos bolsonaristas e lulistas são mais viscerais. Os independentes são mais mornos, o que resulta em um desafio maior poder tirá-los desse desencanto.

Embora a polarização afetiva seja um fenômeno socialmente recente, já temos experiências vividas, memórias, momentos e situações. Levamos mais de oito anos nesse Fla-Flu da política: as marcas no corpo e psique de cada um maceram, vão tomando outras formas, se transformando. É algo dinâmico, em contínua discussão interna.

Há certa ressaca emocional do lado dos respondentes e a necessidade de um entendimento profundo desde a forma de indagar e interpretar as emoções. Tem um dado recente que abona ainda mais essa hipótese: 43% da população diz que ainda pode mudar o voto. Será que essa ressaca emocional dos independentes os levará a votar em branco ou nulo ou até a não votar?

* Eduardo Sincofsky é mestre em Análise da Opinião Pública e psicólogo. Trabalha com pesquisa qualitativa há mais de 30 anos. É diretor do Projeto Plaza Publica, barômetro que mede qualitativamente a agenda do país de maneira periódica.