O PIB do segundo trimestre de 2026 cresceu 0,5% contra o trimestre anterior, com ajuste sazonal.
O crescimento ficou um pouco acima do esperado pelo consenso do mercado (0,4%) mas a surpresa veio sobretudo do setor agropecuário que cresceu 2,8% nessa base de comparação.
O setor de serviços cresceu 0,2% e a indústria, apenas 0,1%.
Quando olhamos pela ótica da absorção, o consumo das famílias caiu 0,4%, o consumo do governo cresceu 0,4% e o investimento subiu 1,2%.
Na parte externa, as exportações caíram 0,8% e as importações cresceram 1,8%, de modo que as exportações líquidas tiveram um efeito negativo sobre o PIB.
Na variação ano a ano, o PIB cresceu 2,0%.
Do ponto de vista da composição, nota-se novamente uma contribuição da agropecuária e da indústria extrativa, com crescimento de 6,8% e 12,0%, respectivamente, contra o mesmo trimestre do ano anterior.
Nos demais setores, o desempenho foi muito mais modesto.
Os serviços cresceram 1,5%, a construção civil subiu 1,0%, enquanto a indústria de transformação caiu 0,9%.
Pela ótica da absorção, o consumo das famílias cresceu apenas 0,5% e o investimento 1,4%.
O destaque ficou com o consumo do governo, que cresceu 3,1%, mas isso se deve ao calendário eleitoral, que forçou uma antecipação dos gastos públicos na 1ª metade do ano.
O que se pode depreender desses números é que o crescimento do PIB brasileiro está sendo puxado pelos setores agrário e extrativo, sendo que no setor extrativo a maior contribuição está vindo do petróleo, cuja produção está sendo expandida pela entrada em operação das novas plataformas do pré sal.
Por outro lado, é visível a perda de dinamismo dos setores relacionados ao consumo doméstico como serviços e consumo das famílias.
Para dar um exemplo, olhando as taxas acumuladas em quatro trimestres, o setor de serviços cresceu 3,8% em 2024, 1,8% em 2025 e está em 1,7% agora, até o 2º trimestre de 2026.
O consumo das famílias cresceu 5,1% em 2024, 1,3% em 2025 e está em apenas 0,9% no acumulado até o segundo trimestre desse ano.
Fica evidente a desaceleração e isso se deve ao endividamento crescente das famílias e ao maior custo do serviço dessa dívida.
Infelizmente, a mesma desaceleração pode ser vista nos investimentos, que cresceram 6,9% em 2024, 2,9% em 2025 e chegaram a apenas -0,2% atualmente.
A indústria de transformação também não apresenta trajetória animadora: cresceu 3,9% em 2024, -0,2% em 2025 e bateu em -1,1% no acumulado até o 2º trimestre desse ano.
Portanto, o que se vê nos números do PIB é uma desaceleração em todos os setores, com exceção da indústria extrativa e da agropecuária, que não dependem muito da política monetária.
As taxas de juros elevadas certamente têm um papel nessa desaceleração, mas pode-se destacar também o excesso de endividamento, que foi incentivado por várias políticas públicas e o esgotamento dos estímulos fiscais, que foram concedidos ao longo dos últimos quatro anos.
A política de acelerar com um pé (fiscal e crédito incentivado) e frear com o outro (monetário) foi capaz de produzir crescimento acima do potencial por alguns anos, mas com um custo altíssimo em termos de endividamento, tanto público, quanto privado, que agora cobra o seu preço.
Fernando Rocha é sócio e economista-chefe da JGP Gestão de Recursos
