Artigo: o ilusionismo estatístico na falsa ciência por trás do ranking de institutos de pesquisa
Quando analistas do mercado financeiro tentam medir a complexidade do comportamento humano usando as mesmas planilhas com que calculam juros e derivativos, o resultado costuma beirar o absurdo. O caso mais recente dessa arrogância metodológica é um relatório divulgado pelo departamento de pesquisa macroeconômica de uma instituição financeira, conhecida por fazer previsões erradas sobre a economia, que se propôs a criar um "ranking definitivo" dos institutos de pesquisa eleitoral no Brasil desde 2002.
Artigo: Ranking sem transparência produz distorção e desinformação
Apresentado com um verniz de sofisticação e recheado de equações, o documento ganhou as manchetes. O problema? Por trás da roupagem matemática, o estudo é um castelo de cartas. Ele não mede a precisão das pesquisas; ele apenas tortura os números para que confessem o que o autor deseja.
Para o leitor comum, a matemática financeira pode parecer inquestionável. Mas, quando traduzida para o mundo real, a lógica do relatório se revela uma sucessão de erros grotescos que desinformam o eleitor. Eis os motivos pelos quais esse ranking não para em pé.
1. A ilusão da precisão milimétrica
Imagine uma corrida de cavalos em que os juízes decidem o vencedor tirando no cara ou coroa, mas anunciam o resultado dizendo que usaram tecnologia a laser. Foi basicamente o que o relatório fez.
Para decidir quem ficou em primeiro ou em segundo lugar, os analistas usaram diferenças decimais minúsculas (frações como 0,3%) entre o que o instituto previu e o resultado da urna. Ocorre que, em estatística básica, existe algo chamado "margem de erro" (geralmente de 2%). Se a diferença entre dois institutos é menor que a margem de erro, eles estão em rigoroso empate técnico.
Dar a medalha de ouro a um instituto e rebaixar outro por uma variação de 0,1% não é rigor científico; é o equivalente a ranquear ruído estatístico. É puro ilusionismo numérico para forçar a criação de um pódio que, matematicamente, não existe.
2. Punindo quem mede a realidade
O erro mais grave do estudo, contudo, é a sua cegueira social. O relatório avaliou os institutos cobrando deles uma previsão exata dos "votos válidos" do domingo de eleição. Mas as pesquisas não preveem o futuro; elas medem a intenção da sociedade na sexta-feira.
No Brasil, a abstenção (quem não vai votar) não atinge todos os candidatos de forma igual. Quem mais falta às urnas é o eleitor mais pobre, o menos escolarizado e o mais jovem, muitas vezes por falta de dinheiro para a condução ou dificuldades logísticas.
Institutos tradicionais, como o Datafolha, o Ipec e o Ipespe (que, aliás, há muito defendem a leitura rigorosa das pesquisas com base nos votos totais da população), foram às ruas e favelas e captaram perfeitamente a intenção dessa base vulnerável. No domingo, parte expressiva desse contingente não conseguiu votar. O que o relatório fez? Puniu os institutos, rebaixando-os no ranking. O analista na Faria Lima olhou para a planilha e exigiu que o sociólogo na rua tivesse adivinhado quantos passageiros o ônibus do interior deixaria de transportar no fim de semana. Culpar a pesquisa pela abstenção estrutural do país é como quebrar o termômetro por ele ter marcado a febre.
3. Regras tiradas da cartola
Ao perceber que institutos mais novos e com metodologias inovadoras (como Quaest e AtlasIntel) tiveram um índice de acerto notável em 2022, o relatório aplicou uma "fórmula de encolhimento" para puxar as notas dessas empresas para baixo no ranking histórico, sob a justificativa de que tinham "pouco tempo de estrada".
O problema é que o número usado na equação para punir esses novatos foi tirado absolutamente do nada. Não há justificativa técnica, prova matemática ou lastro científico. É uma regra de bolso inventada no meio do jogo, um verdadeiro "número mágico" desenhado sob medida para rebaixar quem incomodava a estética da tabela.
4. A reescrita da história e o viés de seleção
Além de inventar punições para os novatos, os autores do relatório manipularam o passado. Ao criarem um suposto "painel de robustez" para ranquear o histórico dos institutos mais antigos, escolheram a dedo quem entrava e quem saía da lista. Aplicando critérios arbitrários e misturando épocas de volatilidade política distinta, o estudo resultou no rebaixamento fabricado de empresas tradicionais com décadas de acertos comprovados, como o Sensus e o Vox Populi. É a velha fraude do cherry-picking: escolhe-se apenas o dado que confirma a tese encomendada e ignora-se solenemente a história.
5. O juiz que esconde o próprio time
Se a matemática do estudo é frágil, a sua ética é ainda mais questionável. A instituição financeira que assina o relatório de "avaliação de todos os institutos" é, ironicamente, contratante de pesquisas do Instituto FSB e de um certo Nexus e publica ou deixa vazar resultados na imprensa nacional.
Pois bem: procure os institutos FSB e Nexus no ranking. Eles não estão lá. As empresas que captam e divulgam dados em nome do próprio contratante foram cirurgicamente omitidas de toda a avaliação. Um ranking que esconde a própria engrenagem para evitar constrangimentos perde qualquer pretensão de ser uma auditoria independente. Torna-se apenas uma peça de marketing corporativo.
Para concluir
O relatório prestou um desserviço à democracia. Ele estimula a pior prática do mercado: o "efeito manada", premiando empresas que ajeitam seus números na última hora para não ficarem feias na foto de véspera, e punindo aquelas que fazem o trabalho duro e rigoroso de mapear a sociedade ao longo de meses.
Tentar enquadrar a antropologia do voto, o silêncio da abstenção e a alma do eleitorado brasileiro em uma planilha estéril de mercado financeiro revela uma irresponsabilidade atroz. Pesquisas de opinião não são derivativos na bolsa de valores, cujo sucesso se mede pelo fechamento do dia. Elas são a bússola da nossa sociedade. E bússolas não devem ser avaliadas por quem, reiteradamente, não sabe ler a rosa dos ventos.
* João Francisco Meira é doutor em Ciência Política, e fundador e diretor do Instituto Vox Populi
