Artigo: Ninguém observava as pessoas como Frederick Wiseman
Em 1968, enquanto o cineasta Frederick Wiseman se preparava para lançar seu segundo documentário, “High School”, ele tinha motivos para estar apreensivo. O lançamento de seu primeiro trabalho, “Titicut Follies”, havia se revelado um fiasco. O filme era um retrato de pacientes-internos do Hospital Estadual Bridgewater para Criminosos Insanos, administrado pelo estado de Massachusetts, feito com o consentimento de todos os participantes e do superintendente do hospital. Foi filmado no estilo cinema direto: sem narrador, sem entrevistas com os personagens, sem material contextualizador explícito. Os espectadores eram deixados para descobrir o que estavam assistindo — embora, é claro, a seleção de imagens e a edição de Wiseman contassem uma história.
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O governo de Massachusetts tentou proibir seu lançamento pouco antes da estreia no Festival de Cinema de Nova York de 1967, alegando que o filme violava a privacidade e a dignidade dos pacientes. Wiseman — que foi professor de direito — sempre afirmou que o estado queria que o filme fosse proibido por razões políticas, pois mostrava as condições e o tratamento reais dos detentos em Bridgewater. A exibição no festival aconteceu, mas as batalhas judiciais se arrastaram por anos, chegando até a Suprema Corte dos EUA, que se recusou a analisar o caso. Foi o primeiro filme a ser proibido nos EUA por razões que não fossem obscenidade e segurança nacional, e só seria disponibilizado ao público em 1991. Este filme em preto e branco de 84 minutos, dirigido por um cineasta estreante, tornou-se um marco, tanto na história do cinema quanto nos litígios sobre liberdade de expressão nos Estados Unidos.
Documentários frequentemente se dedicam a capturar verdades inconvenientes. O que tornou “Titicut Follies” tão impactante — e o que fez de Wiseman, que faleceu na segunda-feira aos 96 anos, um dos maiores documentaristas de todos os tempos — foi o fato de não se tratar de um único evento dentro de Bridgewater, nem de uma narrativa simples e fácil de acompanhar com personagens bem definidos. Em vez disso, o filme levou os espectadores a um lugar antes inacessível e estabeleceu uma verdade importante à qual Wiseman retornaria nos 43 documentários que se seguiram: não se pode separar as pessoas das instituições das quais fazem parte, e suas ações são totalmente moldadas por elas.
Esses dois primeiros filmes podem sugerir que Wiseman tinha uma agenda política em seus filmes, mas, se tinha, não era algo planejado com antecedência. Sua abordagem era basicamente a mesma ao longo de sua carreira: chegava a algum lugar com sua câmera, um colega e pouco mais, e observava o que via. “Para mim, não há razão para fazer um filme se eu já tenho uma tese”, disse ele a um entrevistador em 2018. Ele filmava entre quatro e 12 semanas, e “o filme final é um relatório sobre o que aprendi como consequência da produção do filme”.
Na verdade, a proposta de Wiseman talvez seja mais bem expressa em termos de toda a sua carreira, que se estendeu de “Titicut Follies”, em 1967, a “Menus-Plaisirs — Les Troisgros”, em 2023.
Simplificando: Wiseman adorava observar o que as pessoas faziam quando se reuniam para realizar algo e descobrir por que faziam essas coisas. Seus filmes são repletos de refeições, esportes, conversas, cultos religiosos. Ele nos mostrou conversas sussurradas à beira do leito em hospitais, médicos fazendo humor negro, artistas ensaiando... Devemos a ele os debates mais hilariamente prolongados no Lions Club sobre a instalação de um segundo banco na cidade. Seus filmes estão repletos de reuniões de todos os tipos — burocráticas, administrativas, disciplinares, médicas, e a lista continua indefinidamente. As reuniões, ao que parece, são a unidade básica da interação humana no mundo moderno, e assisti-las pode ser surpreendentemente divertido.
Ao assistir a um filme de Wiseman, que em 2016 ganhou um Oscar emérito pela sua obra, você pode ser levado a pensar que eles são objetivos, que não há narrador. Mas, é claro, o narrador silencioso é o próprio Wiseman, e ele nos permite entrar através de sua maneira de ver as coisas.
Cinéfilos brincam sobre a duração dos filmes de Wiseman, mas, na verdade, alguns são bem curtos (“High School” tem apenas 75 minutos), enquanto outros chegam a ser maratonas, como “Near Death”, com quase seis horas de duração.
Mas, uma vez que você se envolve com um filme de Wiseman, é fácil perder a noção do tempo. Todos são interessantes. Cada interação é reveladora, engraçada, doce ou comovente.
“Há grande drama, tragédia e comédia na experiência cotidiana, que, se você tiver a sorte de estar presente quando ela acontece, pode usar no cinema”, escreveu ele ao participar de uma sessão de perguntas e respostas no Reddit em 2015. Esse é o milagre: ele estava lá, registrando o melhor, o pior ou, mais provavelmente, um dia esquecivelmente comum daquela pessoa.
Mas cada pessoa no filme faz parte de um tecido maior. O que Wiseman buscou não foram histórias isoladas e individuais; ninguém está sozinho. As ações de todos têm consequências.
O contexto mais amplo inclui Wiseman, é claro: ao filmar todas essas pessoas ao longo de mais de 50 anos, ele lhes conferiu uma espécie de imortalidade. E, igualmente importante, ele nos disse que devemos nos importar com elas no aqui e agora. Elas são nossos vizinhos, mesmo que nunca as conheçamos. E ele fez isso com tanta atenção que o resultado na tela é algo belíssimo. É o tipo de cinema que transmite uma sensação de amor.
