Artigo: Morte de 'El Mencho' testa relação de Trump e Sheinbaum à custa de frágil situação de segurança do México
A morte de Nemesio "El Mencho" Oseguera representa muitas coisas: um produto da maior cooperação entre México e Estados Unidos, um motivo para uma possível trégua entre Donald Trump e Claudia Sheinbaum e a operação mais importante contra o crime organizado em anos. Mas, acima de tudo, será um teste para o Estado mexicano, relativamente pequeno, e para a sua capacidade de evitar mais uma espiral de violência em todo o país nas próximas semanas.
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A operação militar mexicana que resultou na morte de "El Mencho" foi apenas a mais recente ação decisiva contra o Cártel Jalisco Nueva Generación (CJNG), um dos principais alvos de segurança de Washington e um dos grupos criminosos designados como Organização Terrorista Estrangeira (FTO) pelo Departamento de Estado dos EUA.
Apenas dois dias antes, as forças mexicanas haviam capturado o chefe de recrutamento e treinamento do CJNG. Nos últimos meses, as autoridades mexicanas e americanas também impuseram restrições financeiras a instituições que facilitam a lavagem de dinheiro e prenderam importantes operadores financeiros ligados à organização. As autoridades mexicanas também detiveram outras figuras importantes — o que o governo Sheinbaum chama de "geradores de violência" — que eram fundamentais para as operações do grupo.
A morte de "El Mencho" não pode ser compreendida fora do contexto mais amplo das relações México-EUA. A estratégia de pressão máxima do governo Trump — que incluiu ameaças de ação militar unilateral em território mexicano — levou o México a alinhar sua política de segurança mais estreitamente com as prioridades de Washington. Esse alinhamento se traduziu em uma intensificação acentuada da cooperação bilateral e do compartilhamento de informações de inteligência.
Nesse contexto, a Força-Tarefa Interagências Conjunta de Combate aos Cartéis, envolvendo diversas agências americanas, foi formalmente lançada no início de 2026 para mapear as redes de cartéis em ambos os lados da fronteira. Segundo a agência Reuters, a força-tarefa desempenhou um papel crucial no trabalho de inteligência que levou à morte de "El Mencho".
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Autoridades militares e civis mexicanas reconheceram que a operação foi conduzida em coordenação com agências americanas, enfatizando cuidadosamente que nenhum militar americano participou diretamente da ação. Autoridades americanas parabenizaram o México e confirmaram essa versão.
Em outras palavras, a operação proporciona à presidente Sheinbaum um valioso respiro em relação a Washington num momento particularmente delicado da relação bilateral, marcado por pressões políticas crescentes e pela iminente revisão do Acordo Estados Unidos-México-Canadá. A morte de "El Mencho" fortalece sua posição na Casa Branca e entre os legisladores republicanos, que repetidamente classificaram os cartéis latino-americanos e mexicanos como organizações "narcoterroristas" responsáveis pela crise do fentanil nos Estados Unidos.
Caminhões da polícia municipal ao lado de um ônibus em chamas, incendiado por grupos do crime organizado em resposta à morte de El Mencho
ULISES RUIZ / AFP
No âmbito interno, a operação também representa um impulso político. "El Mencho" havia escapado da captura por mais de uma década, e tentativas anteriores de prendê-lo terminaram em violência extrema e custosos reveses para as forças de segurança mexicanas.
Enquanto isso, o CJNG consolidou seu poder por meio de esquemas sistemáticos de extorsão e "taxação criminosa" nas economias locais, tornando-se uma das organizações mais temidas do país. Não surpreendentemente, os principais veículos de comunicação nacionais e figuras políticas proeminentes de todos os partidos elogiaram a ação do governo.
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Apesar das vitórias políticas imediatas para a presidente Sheinbaum, tanto no âmbito nacional quanto internacional, a captura de "El Mencho" acabará por testar a capacidade estrutural do Estado mexicano. No fim de semana, os primeiros sinais desse teste tornaram-se evidentes, com as autoridades lutando para conter a violenta reação imediata do CJNG.
No domingo, 25 membros da Guarda Nacional do México foram mortos durante as operações; 252 bloqueios de estradas foram relatados em todo o país; Guadalajara — a capital de Jalisco e um dos principais centros econômicos do México — tornou-se praticamente uma cidade fantasma ; lojas, postos de gasolina, bancos e empresas foram atacados ou incendiados em diversas regiões do país; e vários estados cancelaram as aulas na segunda-feira.
Embora a situação parecesse mais calma na manhã de segunda-feira, a reação do CJNG pode estar apenas começando. Como sugeriu o especialista em segurança Eduardo Guerrero, a organização provavelmente se comportará como uma "fera ferida", lutando brutalmente pela sobrevivência.
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ULISES RUIZ / AFP
A experiência mostra que, quando uma organização criminosa é desmantelada, conflitos intra e intercartel frequentemente eclodem, à medida que facções rivais competem pelo controle de rotas, mercados e estruturas de comando internas. O caso recente do Cartel de Sinaloa — que permanece em constante turbulência desde a captura de El Mayo Zambada — é um lembrete contundente disso.
A situação é ainda mais complicada pela estrutura organizacional do CJNG. Ao contrário de grupos criminosos que dependem fortemente de um único líder carismático para integrar verticalmente a autoridade, o CJNG parece mais institucionalizado e entrincheirado regionalmente. Opera através de um sistema semifederalizado de "franquias" regionais, no qual os comandantes locais mantêm significativa autonomia operacional e financeira, embora permaneçam alinhados a um comando central. Isso levanta sérias questões sobre o quanto a organização foi realmente enfraquecida pela morte de "El Mencho".
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Nesse contexto, emergem dois cenários amplos, ambos profundamente desafiadores para o Estado mexicano. Um deles é a continuidade: o CJNG continua operando sob seu modelo descentralizado, caso em que a morte de El Mencho representaria mais uma vitória simbólica e política do que um desmantelamento estrutural.
A outra é a fragmentação: a intensificação de disputas intra e intercartéis gera explosões localizadas de violência à medida que as facções competem por território e mercados. Tal cenário se assemelharia ao período de 2007 a 2011, um dos capítulos mais violentos da História recente do México, quando o presidente Felipe Calderón lançou uma "guerra às drogas" militarizada, centrada em uma estratégia de decapitação que desencadeou conflitos regionais em cascata entre organizações criminosas fragmentadas, cartéis rivais e forças estatais.
Em qualquer dos cenários, se este episódio for lembrado como um passo decisivo para a redução da violência ou como o início de uma "segunda guerra contra as drogas" dependerá da capacidade do Estado mexicano de conter a retaliação do CJNG e impedir que outros grupos criminosos se apoderem de territórios e mercados anteriormente sob seu controle.
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Ulisses Ruiz/AFP
Essa capacidade, no entanto, é severamente limitada pelas fragilidades estruturais do México, entre elas a tributação cronicamente baixa. A arrecadação de impostos no México, como percentual do PIB, está entre as mais baixas da América Latina e representa apenas metade da média da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), grupo de nações majoritariamente desenvolvidas do qual o México é membro.
Isso deixa o governo perpetuamente com falta de recursos enquanto luta contra cartéis que, em contraste, estão repletos de dinheiro após a produção global de cocaína ter mais que triplicado na última década, o que lhes permite contratar mercenários e até mesmo construir seus próprios tanques.
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Outros desafios incluem a corrupção enraizada, o profundo envolvimento do crime organizado com as elites políticas e econômicas locais e um alinhamento de segurança com Washington que nem sempre coincide com as prioridades do próprio México. Por exemplo, para os EUA, a prioridade é combater as redes de fentanil, enquanto para o México a prioridade deveria ser reduzir os níveis de violência, homicídios, desaparecimentos e extorsão; para Washington, os "danos colaterais" são suportáveis, enquanto para o México representam danos físicos, econômicos e psicológicos para seus cidadãos.
Como me disse um colega acadêmico de Guadalajara: "Daqui, isso não parece uma vitória. As escolas estão fechadas. A cidade está paralisada. Meus pais têm mais de 70 anos e não podem nem sair para comprar remédios. As pessoas estão com medo, e o Estado parece incapaz de protegê-las. Enquanto analistas na Cidade do México e em Washington comemoram um golpe contra os cartéis, as pessoas comuns aqui estão pagando o preço."
Se a morte de "El Mencho" marca uma virada ou o início de mais um ciclo de fragmentação e violência, dependerá, em última análise, não das manchetes em Washington ou na Cidade do México, mas da capacidade do Estado mexicano de proteger seus próprios cidadãos em todas as regiões do país.
