Artigo: como nasceu o 'gap de gênero' brasileiro

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Fonte da notícia: O Globo O Globo

Durante muito tempo, homens e mulheres votaram de maneira relativamente semelhante no Brasil. Isso começou a mudar. A partir da eleição que levou Jair Bolsonaro à Presidência, homens e mulheres passaram a ocupar posições distintas. Pesquisa Quaest: Corrupção e defesa da democracia são temas que pesam mais na decisão do voto para presidente Na ciência política, essa transformação tem nome: Modern Gender Gap (disparidade de gênero moderna, em tradução livre). O chamado Traditional Gender Gap, segundo o qual mulheres eram menos engajadas politicamente e mais conservadoras do que os homens, começou a dar lugar ao Modern Gender Gap. Pesquisas realizadas nos Estados Unidos e na Europa nas últimas décadas mostram mulheres mais participativas, relativamente mais favoráveis a agendas de igualdade e menos propensas a apoiar candidaturas da direita radical populista. Mas como o Modern Gender Gap surge no Brasil? Essa foi a pergunta que orientou nossa pesquisa, publicada recentemente no livro Women’s Political Behavior in Latin America, da Palgrave Macmillan. Com base nos dados do Estudo Eleitoral Brasileiro (ESEB) das eleições de 2010, 2014, 2018 e 2022, analisamos três dimensões do comportamento político: participação, posicionamento ideológico e voto. O primeiro resultado talvez surpreenda. Não encontramos diferenças estatisticamente significativas na participação eleitoral entre homens e mulheres. As décadas foram marcadas por forte crise política, mas esse contexto afetou ambos os sexos de maneira semelhante. O protagonismo feminino em mobilizações como o #EleNão e a sua reação #EleSim não significaram maior comparecimento às urnas, mas revelaram novas formas de engajamento político. A principal mudança aparece na ideologia. A literatura internacional costuma enfatizar que mulheres caminharam gradualmente para posições mais progressistas. No Brasil, porém, a história é particular. Os dados sugerem que a diferença entre homens e mulheres decorreu tanto da estabilidade relativa das mulheres quanto de um deslocamento muito mais intenso dos homens para a direita durante a crise política que culminou na eleição de Jair Bolsonaro.

Em vez de uma “esquerdização” feminina – que foi muito restringida pela organização de mulheres também à direita, resultando em uma moderação média, observamos trajetórias de homens rumando mais e mais para a direita. Ou seja, no caso brasileiro, o Modern Gender Gap brasileiro nasceu menos de uma guinada feminina à esquerda do que de uma guinada masculina à direita. Quanto à terceira dimensão, o voto, a literatura internacional passou a investigar uma dimensão mais recente do gender gap: o apoio a partidos populistas radicais de direita. Estudos sobre Donald Trump, Marine Le Pen, AFD e Vox mostram que esses partidos atraem proporcionalmente mais homens do que mulheres.

Harteveld e Ivarsflaten, em artigo publicado Why Women Avoid the Radical Right: Internalized Norms and Party Reputations no British Journal of Political Science, oferecem uma explicação interessante. Segundo eles, mulheres não são necessariamente menos conservadoras em temas sensíveis nem mais liberais em questões como imigração. A diferença está no modo como respondem a partidos cuja identidade pública é construída em torno da hostilidade a minorias e da ruptura de normas de convivência democrática. A preocupação com a reputação social e a rejeição a discursos abertamente preconceituosos tornam o apoio feminino relativamente menor, mesmo quando há convergência em algumas posições substantivas. Esse talvez seja o principal achado da pesquisa. A emergência de uma candidatura populista de direita radical em 2018 não apenas ampliou diferenças entre homens e mulheres; possibilitou, pela primeira vez no Brasil, um Modern Gender Gap claramente identificável. O Modern Gender Gap revela que o voto feminino se tornou politicamente importante. E, quando uma diferença passa a importar eleitoralmente, também passa a ser objeto de disputa. * Luciana Fernandes Veiga é professora titular do Departamento de Estudos Políticos da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UniRio) e pesquisadora do Redem/INCT.

* Daniel Leonel da Rocha é doutor em Ciências Sociais pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro e especialista em Políticas Públicas em Direitos Humanos.

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