Artigo: com desfecho previsível, resultado saído das urnas expõe avanço da direita no país

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Fonte da notícia: O Globo O Globo

A votação expressiva de grupos da direita para o Congresso Nacional não deveria causar espanto. Ela não foi um acidente, tampouco um ponto fora da curva.

Foi o desfecho previsível de um processo político que se desenhava há pelo menos uma década, e que se tornou visível, sobretudo, nas eleições municipais. Alguns fatores presentes nas eleições municipais antecessoras podem ter influenciado o resultado de 2026: o crescimento da ultradireita, o peso crescente dos evangélicos, o personalismo nas campanhas digitais, o reposicionamento do PSD à direita e o uso estratégico de inteligência artificial.

Entre esses fatores, um dos mais decisivos é o fortalecimento do bloco da direita nas prefeituras, especialmente PL, União Brasil e Republicanos. Desde 2016, esse campo ideológico vem obtendo musculatura territorial, ampliando redes políticas locais e consolidou prefeitos como atores centrais na mobilização eleitoral.

Prefeitos criam vínculos afetivos, organizam redes de confiança e influenciam diretamente a eleição de deputados. Ignorar esse poder é ignorar a própria lógica da política brasileira.

Por isso, não há surpresa no avanço da direita em 2026. O municipalismo é um preditor robusto da dinâmica nacional.

As esquerdas, embora minoritárias nas prefeituras, apostaram que Lula poderia compensar essa fragilidade com capital simbólico nacional. Essa aposta só poderia funcionar se o presidente mantivesse a potência mobilizadora dos ciclos anteriores.

Mas, o lulismo, que já funcionou como força agregadora capaz de superar clivagens regionais e ideológicas, não conseguiu repetir, com a mesma força, esse desempenho nas urnas no primeiro turno, quando são eleitos deputados e senadores. A convergência que favoreceu as direitas

O fortalecimento das direitas não se explica apenas por conjunturas eleitorais. Ela é resultado de uma convergência estrutural que envolve religião, municipalismo, desconfiança institucional e comunicação digital.

A expansão das igrejas evangélicas, sobretudo pentecostais e neopentecostais, ampliou a influência de lideranças religiosas que atuam como mediadores políticos. Pastores definem pautas, orientam votos, oferecem pertencimento comunitário e constroem redes de confiança que atravessam classes sociais.

A política passa a ser filtrada por valores morais, discursos de proteção espiritual e narrativas de ameaça. Essa infraestrutura religiosa opera como máquina de mobilização contínua, e não apenas eleitoral.

Narrativas que questionam o sistema eleitoral, o Supremo Tribunal Federal (STF), a imprensa e universidades criam terreno fértil para discursos que prometem ordem, disciplina e “verdade” contra supostos inimigos internos. A erosão da confiança institucional desloca o eleitor para figuras que se apresentam como outsiders, salvadores ou líderes fortes.

Essa desconfiança não é espontânea: ela é produzida, amplificada e sistematicamente explorada. Prefeitos e vereadores conservadores constroem redes de confiança cotidiana, oferecem serviços, intermedeiam demandas e se tornam referências locais.

Quando esse tecido político se expande nacionalmente, ele cria uma base sólida para candidaturas de direita e extrema direita, que passam a contar com capilaridade territorial, apoio religioso e uma narrativa moralizante que ressoa com parcelas significativas da população. O municipalismo, portanto, não é apenas um fenômeno administrativo: é uma estrutura de poder.

Campanhas digitais segmentadas, uso intensivo de IA, micro direcionamento e narrativas moralizantes transformaram a política em disputa emocional. A direita domina esse campo com eficiência: produz conteúdo constante, cria sensação de comunidade, explora medos e oferece respostas simples para problemas complexos.

Desse modo, o eleitor que votou no candidato da direita, Flávio Bolsonaro, escolheu um político que se colocava como “a mudança do sistema”, embora o candidato represente o passado do mandato do pai. Mas, para além da conjuntura brasileira, não se pode negar que o atual ambiente político global tende ao castigo das esquerdas e à ascensão da direita.

Trata-se de uma tendência estrutural, não apenas circunstancial. Fim de ciclo e reconfiguração estrutural

O cenário de 2026 marcou a consolidação das direitas e a confirmação de tendências de radicalização. Desse modo, a sua expansão não foi acidental: foi o desfecho previsível de um processo que se tornou visível, sobretudo, nas eleições municipais antecessoras.

Quem acompanha o pulso da política brasileira sabia que 2026 não seria exceção, mas consequência do cenário municipal antecedente. * Helcimara Telles é presidente da Associação Brasileira de Pesquisadores Eleitorais (Abrapel) e professora da UFMG

Publicação Original O Globo oglobo.globo.com
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