Artigo: ‘A condenação dos algozes é passo fundamental’, diz assessora sobrevivente do atentado a Marielle Franco

 

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É difícil descrever um sentimento tão complexo, tão múltiplo. O que deveria ser uma coisa básica, óbvia (justiça), se tornou tudo o que poderíamos fazer, se tornou um compromisso de vida. Uma luta gigantesca para chegarmos até aqui. Foram quase oito anos que passamos perguntando quem mandou matar Marielle e lutando por justiça para ela e Anderson. Enquanto não esclarecíamos isso, o recado era de que vidas como as de Marielle não importavam. Foi um aprofundamento da nossa dor, das famílias, dos amigos e do próprio povo, por anos a fio.

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Na última quarta-feira, a ministra Cármen Lúcia me fez chorar quando disse, em seu voto no julgamento dos algozes de Marielle, que a Justiça não consegue apaziguar uma dor tão pungente e atroz. E ela falou que essa dor estava ali nas nossas faces — mãe, pai, filhas, esposas e na minha própria face: “uma trabalhadora que diz sobre ter sobrevivido, quando todo mundo tem direito à vida e não à sobre...vida”.

Esse reconhecimento público, direcionado a mim e à minha família ali presente no plenário da 1ª Turma, nos tocou fundo demais porque, diante de tamanha tragédia e da dor dos que perderam brutalmente seus amados, o detrimento, os apuros e as dificuldades que vulnerabilizaram a minha família— por ser eu uma sobrevivente desse crime— em certo contexto eram minimizados, naturalmente. Eu, meu companheiro e minha filha — que passou a maior parte da vida crescendo dentro desse cenário — vivemos, ou melhor, sobrevivemos a um período muito peculiar e intimamente angustiante.

Mas chegamos até aqui! Este, que foi um dos crimes políticos de maior impacto desde a redemocratização do país, teve, enfim, resposta e responsabilização dos culpados. O STF deu uma demonstração, por unanimidade, de que o Brasil não tolerará o feminicídio político, o extermínio de defensoras de direitos humanos, o apagamento de negras, periféricas que ousam disputar e ocupar os lugares de poder.

A condenação dos algozes é passo fundamental e nos traz, com certeza, um sentimento de alívio. Agora é lutar para combater e alterar o estado de coisas em que o Rio de Janeiro se encontra, tomado pelo crime organizado. É preciso enfrentar esses tentáculos enraizados em todas as instituições e que operam nessa lógica nefasta mafiosa. Isso também é seguir fazendo justiça por Marielle e Anderson.

* Assessora de Marielle Franco que estava no carro com a vereadora no momento do ataque e ficou ferida por estilhaços