Arte no poste: galeria ao ar livre em Niterói, que inspira outras mundo afora, ocupa rua inteira para festejar aniversário

 

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A Rua Engenheiro Roberto Velasco Cardoso, no Gragoatá, será transformada em uma grande galeria a céu aberto no próximo sábado. Isso porque a Galeria do Poste completa 29 anos, e a comemoração reúne uma ocupação artística que se estende por postes e muros da via, a partir das 18h, e um lançamento de livro.

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Criada em 1997 com a proposta de levar a arte para fora do chamado “cubo branco” das galerias tradicionais, a Galeria do Poste surgiu a partir da ideia de que um espaço cultural se constrói pela qualidade da programação. Cofundador e atual responsável pelo espaço, o artista Ricardo Pimenta explica que a iniciativa nasceu de forma experimental e coletiva.

— Eu e alguns amigos tivemos a ideia de fazer um jornalzinho com um olhar diferente em relação ao da mídia tradicional. E, para atingirmos um bom alcance mesmo com o número de tiragens limitado, resolvemos colar o jornal em postes estratégicos. Perto de pontos de ônibus, bares… A partir desse olhar em relação ao poste, surgiu a ideia de usá-lo para expor e, então, fazer a galeria — conta.

Ricardo Pimenta (de camisa preta) e outros amigos na Galeria do Poste, em janeiro de 2005

Leonardo Aversa/19-1-2005

A programação do aniversário foi idealizada em parceria com Alexandre Dacosta, músico, poeta e diretor de teatro, que também comemora aniversário na mesma data e assina a curadoria da exposição. A proposta é ocupar não apenas um poste, como de costume, mas toda a rua.

— Dividimos um muro experimental de 50 metros entre seis artistas e ocupamos os sete postes da rua. A ideia é transformar a rua inteira em uma grande galeria — explica Pimenta. — Mas não vale grafite, porque é algo muito óbvio. A proposta é experimentar outras linguagens.

Fora do tradicional

Do muro experimental participarão Alexandre Dacosta, Mauro Kleiman, Helena Trindade, Robson Martins, Luanda e Patrizia D’Angello. Já os postes receberão trabalhos de Alexandre Dacosta, Bebel Franco, Denise Campinho, Luiz Badia, Marcos Muller, Maria Moreira e Mirela Luz.

Pimenta ressalta que a Galeria do Poste sempre operou à margem da lógica de mercado.

— A gente gasta dinheiro para fazer os trabalhos, sem a menor perspectiva de vender. O grande lucro é a diversão, o prazer de fazer um trabalho consistente, bacana. Não existe uma curadoria no sentido tradicional. Existem a qualidade dos trabalhos e a relação de afeto e amizade entre os artistas — pondera.

A relação com o espaço urbano também é um dos eixos do projeto. O poste que deu origem à galeria fica em frente à casa de Pimenta, que, durante os eventos, se transforma em ponto de encontro.

— As pessoas acessam a casa; a cozinha vira um bar. É tudo muito integrado — conta.

Recentemente, a experiência se expandiu: a Galeria do Poste ganhou uma filial na Praça da Cantareira, no poste que fica na frente do Bar Iorubá. E também foi inspiração para iniciativas semelhantes em outras cidades do Brasil e no exterior, como a Galeria del Poste del Rojas, em Buenos Aires; o Museu do Poste, em Curitiba; e versões itinerantes no Rio de Janeiro.

Ao longo de quase três décadas, o projeto se consolidou como espaço relevante de experimentação artística, atraindo inclusive o interesse acadêmico. O espaço inspirou duas dissertações de mestrado, uma na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e outra na Universidade Federal Fluminense (UFF).

Pela programação da galeria já passaram artistas consagrados da arte brasileira, como Gringo Cardia, Suzana Queiroga, Rosana Ricalde, Felipe Barbosa e Maurício Bentes.

Lançamento de livro

Um dos destaques da comemoração é o lançamento do livro “Kleiman — 55 anos de trajetória”, dedicada à obra de Mauro Kleiman. Para ele, a escolha do local dialoga diretamente com sua trajetória.

— A Galeria do Poste é um espaço de passagem, de encontro e de transgressão, fora da lógica do cubo branco e da arte como mercadoria, o que conversa diretamente com a minha pesquisa. Escolher esse espaço é assumir a arte como experiência compartilhada — afirma.

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