Arte como liberdade: egressos do sistema prisional expõem no Centro do Rio
Com cadeias operando a 161% da capacidade — 17.455 pessoas além do limite, segundo o Ministério Público —, o Rio de Janeiro carrega uma das maiores taxas de superlotação carcerária do país. É nesse contexto que chega ao Centro do Rio a exposição "Coexistir Coabitar", mostra gratuita que reúne obras de 27 artistas egressos do sistema prisional e socioeducativo e seus familiares.
Em cartaz no Largo das Artes, até 25 de abril, a exposição apresenta trabalhos em pintura, performance e vídeo que partem de experiências pessoais para construir narrativas sobre território, identidade, memória, fé, sobrevivência e sonho.
Artista Ágata Júlia com sua pintura durante exposição
Divulgação
Para o curador Jean Carlos Azuos, de 32 anos, a mostra nasce das condições concretas de vida de quem a produz. O eixo central da curadoria, explica, é a convivência como prática possível.
— A exposição se constrói a partir de experiências vividas sobretudo por jovens de favelas e periferias. Essas trajetórias não são reduzidas, mas reconhecidas em sua potência de criar, pensar e projetar outros modos de vida — afirma.
Ao ocupar o Largo das Artes, a mostra leva ao circuito cultural do Centro narrativas que, historicamente, permanecem fora dos espaços tradicionais de arte. Para Azuos, isso é também uma disputa de imaginário.
— A exposição evidencia que há uma produção artística profundamente relevante sendo construída fora dos circuitos tradicionais. Ao trazer essas obras para o centro, desloca-se o olhar e se afirma que a arte também nasce de contextos atravessados por exclusão, mas que elaboram estratégias de existência, criação e direito ao sonho — diz.
A exposição "Coexistir Coabitar" pode de terça a sábado, das 10h às 17h, com entrada gratuita. A programação inclui visitas mediadas, oficinas e rodas de conversa abertas ao público.
De residência a exposição: como o projeto foi construído
Os trabalhos são resultado de uma residência artística realizada entre julho e dezembro de 2025 no Museu da Vida, da Casa de Oswaldo Cruz, na Fiocruz. O programa teve 125 horas de formação, distribuídas em cinco ciclos que combinaram seminários com especialistas, visitas a espaços de memória e resistência cultural, e oficinas de técnicas artísticas em diferentes materialidades.
Para Anna Luisa Oliveira, museóloga, gestora cultural e coordenadora geral do projeto, os três pilares que orientaram a formação foram arte, justiça e saúde ampliada.
— A principal orientação do projeto foi criar sentidos e formas de criações artísticas contemporâneas que tivessem a emancipação humana como foco. Costumamos expressar que as pessoas egressas do sistema prisional, socioeducativo e seus familiares nunca foram desintegradas da sociedade, mas sim, passaram por processos de separabilidade — afirma ela.
Durante a residência, os participantes contaram com bolsas-auxílio mensais e alimentação nos dias de encontro — suporte que Anna Luisa considera essencial para viabilizar a participação de pessoas em situação de vulnerabilidade. O principal desafio, aponta, foi financeiro.
Após a exposição, a equipe planeja acompanhar os artistas da primeira turma e já prepara a chamada pública para a segunda. A ideia é que a mostra circule por outros espaços enquanto o novo grupo está em formação
