Arroz, feijão e desinformação: a alimentação infantil na era das seitas nutricionais

 

Fonte:


Alimentar-se bem não é difícil, para quem tem recursos. Afinal, a natureza criou nossa espécie em meio a uma fascinante biodiversidade, em grande parte disponível para a nutrição humana.

Alimentar uma criança também deveria ser simples: a amamentação é uma maravilha para começar a vida, e quando não é possível, há substitutos seguros (mas sem os mesmos benefícios). A seguir, basta oferecer à criança uma vasta variedade de alimentos, de forma equilibrada e adequada. Proteínas animais e vegetais (leguminosas), cereais integrais, legumes e verduras, frutas e oleaginosas, evitando ultraprocessados, é suficiente para garantir uma nutrição ótima — que proporciona bom crescimento e desenvolvimento, energia, boa imunidade e saúde mental. Em matéria de suplementação, como indica a SBP, bastam vitamina D e ferro.

Até há pouco tempo, o maior desafio do pediatra na alimentação eram as crianças seletivas, que recusam especialmente legumes e verduras. É um problema muito comum, que costuma se resolver espontaneamente, caso não se cometam erros como substituir refeições por mamadeiras e industrializados ou usar telas, violência, (forçar, ameaçar, castigar) e suborno (se comer o brócolis ganha um doce).

As evidências a favor de uma alimentação equilibrada são numerosas e consolidadas. Confirma-se a cada novo estudo a importância de evitar o açúcar, os ultraprocessados e o excesso de gordura saturada. Cresce também a importância dos alimentos vegetais para a formação de um bom microbioma — responsável pela imunidade, proteção contra a inflamação, bom funcionamento do sistema nervoso e sono.

Mas hoje clínicos, pediatras e nutricionistas precisam enfrentar uma legião de blogueiros e influenciadores que vendem dietas da moda e atingem milhões de pessoas. O fenômeno não é novo — os mais velhos lembram das dietas do abacaxi, da lua e de Beverly Hills —, mas ganhou escala e poder de influência sem precedentes nas redes sociais.

Dietas da moda não são escolhas nutricionais: são sistemas de crença que respondem a ansiedades culturais, e oferecem respostas simples para questões complexas. Como seitas, criam comunidade fanáticas e acríticas e se apoiam em pseudociência.

As “dieta da selva” e “carnívora” são bons exemplos. Propagada por influenciadores sem formação em saúde, mas ótimos marqueteiros (e mesmo alguns médicos e nutricionistas), propõe excluir grãos e vegetais em favor de carnes e gorduras. O duo arroz e feijão — reconhecido mundialmente como uma combinação super saudável— é chamado de “ração do governo”, numa narrativa que une desinformação nutricional, ideologia política e masculinidade tóxica: a dieta promete aumentar a testosterona e combater a “afeminação” causada pelos grãos. Não há qualquer evidência disso. E está chegando fortemente aos adolescentes, misturado com conteúdos “red pill”. Pode testar: pergunte a seu filho se não se fala de comer muita carne e abandonar os legumes e arroz na escola.

Os riscos são sérios. Dietas que excluem grãos e vegetais podem resultar em perda de peso rápida, mas são insustentáveis no longo prazo. Causam deficiências de fibras, vitaminas e minerais. O excesso de gordura saturada eleva o risco cardiovascular e de resistência insulínica. A ausência de fibras destrói o microbioma, com consequências para a imunidade e a saúde mental. O risco de câncer aumenta. E vilanizar o arroz e feijão é um luxo ideológico que pode afastar famílias mais pobres de uma refeição acessível e nutritiva.

Para crianças e adolescentes, o recado não mudou: prato colorido, variado e equilibrado e o mínimo de ultraprocessados. Não é preciso excluir nenhum grupo alimentar nem usar whey ou creatina, recomendação feita essa semana pela SBP. A melhor dieta é acessível, culturalmente enraizada e continuamente confirmada pela ciência.