Arquivos ocultos e peça fantasma: laudo da PF expõe apagão de dados na manutenção da Voepass

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Fonte da notícia: O Globo O Globo

As investigações da Polícia Federal sobre a queda do voo 2283 trouxeram à tona um cenário de grave omissão documental nos bastidores da Voepass. O laudo pericial de engenharia, ao qual O GLOBO teve acesso, expõe duas irregularidades críticas no controle de manutenção da aeronave PS-VPB antes da tragédia em Vinhedo (SP): o desaparecimento de arquivos de monitoramento contínuo e a remoção de um componente vital de proteção contra o gelo sem qualquer anotação de que tenha sido reinstalado. Acidente da Voepass: pilotos relataram problema em sistema antigelo no início do voo, diz Cenipa; veja o que diz a investigação Histórico: Voo com a mesma aeronave que caiu em SP perdeu o controle em 1994, nos EUA, em rota com condições severas de gelo De acordo com o documento elaborado pelo Instituto Nacional de Criminalística (INC), os peritos solicitaram à companhia aérea os dados do Programa de Acompanhamento e Análise de Dados de Voo (PAADV/FOQA). Essas informações, gravadas rotineiramente em um cartão de memória a bordo, funcionam como um raio-X diário do histórico de operação do avião, permitindo detectar desvios de performance, vícios mecânicos e panes recorrentes. No entanto, a apuração esbarrou em uma lacuna considerada intransponível pela perícia. O laudo destaca que a Voepass respondeu de maneira oficial à corporação que "não dispunha" das pastas digitais denominadas REC e REP, justamente os diretórios que armazenavam o histórico detalhado dos parâmetros do turboélice acidentado.

Segundo o relatório criminal, a ausência inexplicada desse material provoca um ponto cego sobre as verdadeiras condições de desgaste e os alertas emitidos pelo avião nos meses que antecederam o dia 9 de agosto. Avião da Voepass que matou 62 pessoas ao cair em Vinhedo (SP): Cenipa procura “fatores contribuintes” para desastre Nelson Almeida/AFP Canibalização de peças O cruzamento de dados feito pelos investigadores revelou ainda uma prática de transferência de componentes agravada pela total falta de rastreabilidade. Ao escrutinar os diários logísticos da empresa, a PF localizou uma ordem de serviço datada de 10 de julho, exatamente um mês antes da queda. O documento registra a extração de uma válvula pneumática responsável por alimentar o mecanismo das bolsas infláveis que quebram a crosta de gelo nas asas. Gravadores de voo: Entenda o que são e como funcionam os itens usados para investigar acidentes aéreos O laudo atesta que o equipamento foi retirado "por conveniência da manutenção", termo técnico usado quando uma peça de uma aeronave é realocada para suprir a deficiência de outra na frota.

Formação de gelo na asa Reprodução O problema central que sustenta as imputações criminais, detalha o texto pericial, é a inexistência de qualquer registro posterior que comprove a devolução da válvula à aeronave PS-VPB. Para a Polícia Federal, o sumiço dos históricos de voo no cartão de memória e a manutenção de um avião voando sem o registro formal de devolução de uma peça crítica de degelo não representam meros erros administrativos.

O documento conclui que esses fatores formam a base probatória de um colapso gerencial estruturado, reforçando a tese do inquérito de que o colapso aerodinâmico em São Paulo foi o estágio final de uma cadeia de irregularidades toleradas e ocultadas nos hangares da companhia.

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