Arma de choque pode matar? Saiba o que acontece com o corpo ao receber uma descarga de taser
O uso de armas de choque, também conhecidas como tasers, voltou ao centro do debate após um incidente de violência em Belém. Um aluno de universidade particular foi filmado agredindo um homem em situação de rua com o aparelho, disparando em dois momentos. O caso, que viralizou nas redes sociais, acende um alerta sobre o uso indiscriminado desses equipamentos, classificados como "armas não letais", que especialistas médicos afirmam ser capazes de causar a morte.
Embora comercializados como ferramentas "não letais", médicos defendem que o termo mais preciso é "menos letal". Ao portal Estado de Minas, o cardiologista Geraldo Magela Alvarenga Júnior, coordenador do Departamento de Arritmologia do Hospital Vera Cruz, explicou que o choque elétrico pode gerar danos irreversíveis, dependendo da condição de saúde da vítima.
O especialista alerta para o grave risco cardíaco, afirmando que "a cada minuto em parada cardíaca sem manobras de ressuscitação, a pessoa tem 10% a menos de chance de se salvar", conforme detalhado ao veículo mineiro.
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Como o choque afeta o corpo
A letalidade de um taser é influenciada por diversos fatores, especialmente a forma como a descarga elétrica interage com o sistema cardiovascular.
Os principais motivos que tornam o dispositivo potencialmente fatal incluem:
Fibrilação ventricular: o choque pode provocar um "tremor" no coração, impedindo o bombeamento de sangue essencial para o cérebro e outros órgãos vitais.
Localização do disparo: a proximidade dos disparos à região do tórax aumenta significativamente o risco de interferência no ritmo cardíaco normal.
Múltiplas descargas: como observado no caso de Belém, choques sequenciais impedem a recuperação adequada do sistema nervoso e muscular, aumentando o perigo.
Vulnerabilidade e fatores agravantes
A capacidade de uma arma de choque ser letal não é uniforme para todas as pessoas. O estado da vítima no momento do ataque é um fator determinante para o desfecho.
O médico Agnaldo Píspico, da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (SOCESP), destacou ao UOL que o uso de substâncias como cocaína ou álcool eleva a "irritabilidade" do coração. Essa condição torna quase impossível reverter uma arritmia cardíaca causada pelo choque elétrico.
Além disso, características físicas como o peso e o tamanho do tórax do indivíduo influenciam diretamente a trajetória da eletricidade pelo corpo, impactando a gravidade dos efeitos.
Uso de armas de choque no Brasil: o que diz a lei?
O incidente envolvendo o estudante em Belém suscita uma importante questão jurídica: o porte de tasers e dispositivos similares por civis no Brasil é permitido?
As implicações legais variam conforme o tipo e o uso do aparelho:
Restrição do Exército: armas que disparam projéteis eletrificados, como o Taser autêntico, são classificadas como produtos controlados. Seu uso é restrito exclusivamente às forças de segurança.
Lanternas e dispositivos de contato: aparelhos de contato, vendidos livremente em mercados informais, configuram contravenção penal se portados sem autorização legal.
Implicações legais: o uso desses dispositivos para agressão, como o visto no caso recente, agrava a conduta criminal do autor. Ele pode responder legalmente por lesão corporal ou exposição de perigo à vida da vítima.
A falta de estudos e a ética médica
A comunidade médica expressa preocupação com o uso de armas de choque, defendendo a suspensão de seu emprego ou a realização de estudos mais aprofundados sobre seus efeitos.
Conforme o Dr. Geraldo Magela concluiu ao Estado de Minas, "o trabalho para comprovar o malefício do taser, do ponto de vista ético, é complicado, pois envolveria testar choques em humanos", evidenciando o dilema da pesquisa.
O caso de agressão em Belém serve como um trágico lembrete: em mãos erradas ou contra pessoas vulneráveis, a "arma não letal" se transforma em uma ferramenta de altíssimo risco à vida.
