Antes de se tornar uma das áreas verdes do Centro da Capital, Parque da Luz abrigou o antigo cemitério municipal, onde foram sepultadas cerca de 30 mil pessoas Resumo e áudio gerados por inteligência artificial a partir do texto desta matéria.
Quem passa pelo Parque da Luz, no Centro de Florianópolis, encontra árvores, espaços de convivência, áreas de descanso e uma vista privilegiada para a Ponte Hercílio Luz. O que muitos visitantes talvez não saibam é que o local guarda uma história bastante diferente da paisagem atual: por aproximadamente 85 anos, a área abrigou o antigo cemitério municipal da cidade.
A história começa em 1840, quando o terreno, conhecido na época como Colina da Vista Alegre ou Morro do Barro Vermelho, foi destinado à instalação do cemitério. Naquele período, o espaço ficava afastado da região central de Desterro, nome de Florianópolis antes de 1894.
A escolha do local também estava relacionada a uma mudança nos costumes da época. Até então, era comum que os sepultamentos fossem realizados no interior ou nas proximidades das igrejas.
Com a criação do cemitério público, os enterramentos passaram a contar com um espaço específico, fora da área mais ocupada da cidade. O terreno foi dividido entre irmandades e ordens religiosas, além de reservar áreas para pessoas sem recursos e para aqueles que não professavam a religião católica.
A ideia de retirar o cemitério daquela região começou a ser discutida ainda no século XIX. Em 1887, a transferência já estava em pauta, mas o processo só foi concluído em 1925, quando a necrópole foi transferida para o bairro Itacorubi, onde atualmente funciona o Cemitério São Francisco de Assis.
A mudança ocorreu um ano antes da inauguração da Ponte Hercílio Luz, em 1926, marco que transformou a ligação da Ilha de Santa Catarina com o continente. Na época, o antigo cemitério reunia aproximadamente 30 mil pessoas sepultadas.
A maior parte dos restos mortais foi retirada e transferida para o novo espaço, mas pesquisas históricas apontam que não é possível afirmar que todos os corpos tenham sido exumados. Um estudo da historiadora Elisiana Castro, intitulado Aqui jaz um cemitério: a transferência do cemitério público de Florianópolis (1923-26), identificou registros de aproximadamente 800 exumações e algumas retiradas de ossadas.
A documentação disponível não permite confirmar a transferência de todos os sepultados. Depois da desativação, o terreno ainda foi frequentado por estudantes de Medicina e Odontologia, que procuravam ossadas para utilizar em estudos.
Com a transferência do cemitério, a área passou por diferentes ocupações e permaneceu abandonada por décadas. Ao longo do século XX, o espaço recebeu estruturas e atividades diversas, enquanto sua destinação definitiva ainda era motivo de discussão.
A transformação em parque começou a ganhar força a partir de 1986, com iniciativas do grupo Vidarte, que defendia a preservação da área, o tombamento da Ponte Hercílio Luz e a reabertura da estrutura para pedestres e ciclistas. Durante os anos seguintes, artistas, ambientalistas e movimentos sociais promoveram atividades culturais e ações para manter o terreno como espaço público.
A mobilização também buscava impedir que a área fosse destinada a empreendimentos particulares. Em 1997, foi criada a Associação Amigos do Parque da Luz, entidade que passou a atuar na defesa, manutenção e preservação do espaço.
O reconhecimento oficial como parque urbano veio em 1999, por meio da Lei Municipal nº 051/99. Atualmente, o Parque da Luz ocupa aproximadamente 3,7 hectares na cabeceira insular da Ponte Hercílio Luz.
Mesmo depois de quase um século da transferência do cemitério, parte da história de quem foi sepultado no local continua preservada em documentos públicos. O Arquivo Histórico do Município de Florianópolis concluiu, em abril de 2024, a indexação dos livros de termos de cemitérios presentes no acervo.
O trabalho reuniu mais de 29,1 mil registros, com informações como nome da pessoa falecida, causa da morte e data do falecimento. Entre os documentos estão registros de pessoas sepultadas no antigo Cemitério da Ponte, referentes ao período de 1841 a 1925.
O material permite que pesquisadores e familiares consultem informações sobre pessoas que fizeram parte da história da Capital, recuperando histórias que poderiam permanecer esquecidas ao longo das gerações. Hoje, o Parque da Luz é um espaço de lazer, convivência e contato com a natureza em uma das regiões mais movimentadas de Florianópolis.
A paisagem atual contrasta com o passado do terreno, mas a história do antigo cemitério permanece registrada em documentos, fotografias e pesquisas que ajudam a compreender a formação da cidade. Thaane Otero é editora e repórter no portal ND Mais, onde atua no Núcleo de Santa Catarina e acompanha a produção de conteúdos e cobre o cotidiano de Florianópolis e cidades da região, como São José, Biguaçu e Palhoça.
Também produz matérias sobre o que há de relevante em solo catarinense, incluindo destaques de segurança pública, saúde, política e mais, sempre com olhar atento e conectado à realidade local. Formada em Jornalismo pela UFSM (Universidade Federal de Santa Maria), atua na área desde 2019 e tem experiência em produção multiplataforma, com passagem por veículos digitais e impressos.
Também trabalhou com assessoria de imprensa e assina projetos editoriais especiais, como revistas de municípios do Médio Alto Uruguai, no Rio Grande do Sul. Atuou nas Eleições 2022 e 2024 na produção de conteúdos multimídia, debates ao vivo e apuração de votos em veículos com abrangência no Rio Grande do Sul.
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