Arco-íris em Nuvens de Chumbo: a resistência da civilidade no século XXI
São muitos os sinais. Alguns ainda se limitam a minorias (muito vocais), mas se disseminam com rapidez. Por exemplo, o acirramento do racismo, antissemitismo e homofobia. Após décadas de avanços, ressurgem discursos de supremacia e intolerância sem qualquer pudor, bradados como "liberdade de expressão”.
Os direitos das mulheres estão sob ataque. Conquistas até então sólidas são ameaçadas pela onda que mescla misoginia e ultraconservadorismo. Esses grupos cooptam meninos adolescentes, pregam a submissão da mulher, o ódio ao feminismo, atacam a lei Maria da Penha e agora questionam até mesmo o direito de voto das mulheres. A xenofobia e o ódio ao pobre – a aporofobia – também estão em alta. Pregações mentirosas contra o Bolsa Família, acusações de preguiça e indolência, criminalização de moradores de favelas e de migrantes em busca de trabalho são cada vez mais populares. A pobreza deixa de ser um problema coletivo, resultado de séculos de opressão ainda vigente, para ser um incômodo estético, uma ameaça à segurança. A empatia e a solidariedade mais primárias são substituídas pelo ódio.
O negacionismo também reflete a perda de civilidade. Ciência e fatos históricos vem perdendo espaço para desinformação, que semeia o medo, teorias conspiratórias e “verdades” perigosas, que levam muitos a perder a saúde ou a vida, e ameaçam a mitigação da crise climática. Muitas dessas ideias vêm de regimes autoritários, como o que tivemos no Brasil há pouco. Grupos envolvidos em esquemas criminosos, que destruíram políticas públicas e meio ambiente, caçoaram do sofrimento, perseguiram jornalistas, geraram sofrimento e mortes, e seguem disseminando ódio, mentiras e armamentismo, conseguem manter sua popularidade ao se apresentarem como “fora do sistema”, oferecendo soluções simples e inimigos comuns. A ideia de que a democracia é "ineficiente" ganha força entre os mais jovens. O país mais poderoso do mundo está nas mãos de quem ameaça exterminar uma civilização milenar, destrói décadas de pesquisa científica e trata de forma brutal refugiados e imigrantes.
Essa degradação de valores civilizatórios tem trazido comparações à ascensão do nazismo na Alemanha. O uso da linguagem de desumanização e a disseminação da ideia de que a classe média era vítima de elites ocultas e de minorias que "roubavam o seu lugar", são as mesmas táticas usadas por autocracias modernas. E é importante lembrar: o triunfo da barbárie não se deu só pela maldade de quem a executou e aprovou, mas pelo silêncio e indiferença de quem assistiu passivamente.
Maya Angelou conta que “quando parecia que o sol não voltaria a brilhar, Deus colocava arco-íris nas minhas nuvens. Eu tive muitas nuvens, mas tive muitos arco-íris: aqueles que foram gentis comigo. Por isso, nunca me sinto desamparada”.
Arco-íris só se formam quando a luz atravessa as nuvens pesadas de chuva. Fazer nossa luz visível é o antídoto para a desumanização. Cada professor que ensina empatia, cada pai ou mãe que educa o filho contra o machismo e o racismo, cada diálogo franco que se contrapõe a mentiras, cada gesto de proteção do meio ambiente local, cada voto consciente, cada comunidade que protege os mais vulneráveis e perseguidos, produz um arco-íris. A civilidade é um ato de resistência diária. Ser gentil em um mundo que premia a agressividade é uma escolha pessoal e política.
A história nos mostra que a civilização não é um estado garantido, mas um jardim que precisa de cuidado constante contra o ódio. E quem pode regenerá-lo não são apenas os heróis, mas pessoas comuns que se recusam a renunciar à sua humanidade.
